quarta-feira, 21 de julho de 2010

Quando O Coração Não Se Apóia No Diafragma

Era para ter sido uma visita ao supermercado sem grandes reflexões. Preciso comprar batata, iogurtes e algum pedaço de bicho para comer mais tarde. Passo no caixa. Pago e volto para casa ouvindo música enquanto dirijo. Era para ter sido assim. Indolor.

Caminhando para o estacionamento aqui do Wall Mart do Campinho nos deparamos com algumas lojas e quiosques e foi num desses, para ser mais precisa, no quiosque do Cacau Show que me deparei com o rosto conhecido da vendedora que fez uma expressão de surpresa quando os olhos se direcionaram para mim.

- Elika?
- Erica?

Erica foi minha amiguinha da escola quando cursei o que chamávamos de primário. Pela semelhança do nome e pelo fato de dividirmos o gosto pelo pique-pega na hora do recreio acabamos nos aproximando no primeiro dia de aula.

- Quanto tempo!
- Pois é, quanto tempo!

Erica havia envelhecido a beça, estava com o cabelo pintado e com uma maquiagem que parecia brigar com o diabo do tempo. Meo deos... o que Erica está pensando de mim que nem maquiagem passei ao sair de casa? Por que vim assim tão desarrumada fazer compras? Há três anos fui proibida de pegar Sol pela dermatologista e devo estar com a maior cara de vampira para quem me olha assim de repente, depois de quantos anos? Quantos???

- Devem fazer uns 30 anos que não nos vemos! – Respondeu Erica aos meus pensamentos.
- Tudo isso???

Caramba...já? Ela era da pá virada. Vivia na turma da bagunça e colava igual uma desesperada nas provas. Lembro-me de que tive que pedir para tia me deixar longe dela nos dias em que nossos conhecimentos eram testados porque ela nem esperava eu ler a questão direito e já começava a me cutucar querendo saber a resposta. Ela mesmo nem se dava ao trabalho de ler. Dizia que não adiantava mesmo.

- Você continua estudiosa? Porque eu me lembro que você era a maior CDF.
- Ah não. Nunca fui isso não...

Teve um dia que ela foi chamada na sala da diretora porque mordeu a orelha de um menino igual o Mike Tyson fez. Na verdade, quando eu o vi na televisão por causa desse lamentável episódio lembrei-me da Erica. O Humberto (caramba, por onde será que ele anda com um pedaço a menos de orelha?) não tinha nada que ter chamado a minha amiga de gorda.

- E você continua tocando piano?
- Ah... não mais. Agora quem toca é minha filha de 12 anos. Eu tive três filhos: o mais velho com 16, ela com 12 e esse aí com 3. – Apontei o Yuki que estava enfiando o dedinho na gaiola da kalopsita no pet shop ali ao lado.
- Nem parece que tem um filho de 16 anos. Aliás, nem parece que teve 3 filhos. Você está otima!

E o dia que ela vomitou depois do recreio? Também, comeu um egg-cheese-presunto-tomate-alface(mal lavado)-burger com grapete e foi pro pique-pega... todo mundo teve que sair da sala por causa do cheiro e ela ficou toda boba, se sentindo a mulher-maravilha, uma heroína porque a aula foi cancelada. Ela tinha o estranho poder de vomitar sem constrangimento.

- Ah, minha filha, eu tive um só. Mas tenho duas enteadas. Na verdade mataram meu marido porque, nem te conto, ele sabia demais. – e abaixou o tom de voz como se me contasse um segredo. – Ele trabalhava ali, naquele restaurante bombadésimo na Abolição, de segurança. Mas o dono? Ih! Nem te conto...- e desatou a me contar um punhado de falcatrua do dono que mandou matar o marido que sabia demais(?), mas eu nem me interessei em assimilar nada do que estava sendo cochichado. Dois motivos: não ouço mais naquela frequência e porque Yuki estava tentando abrir a gaiola.

- Yuki, tira a mão daí!

- Depois que ele morreu, eu e a amante dele nos tornamos amigas e passei a amar as minha enteadas como se fossem meu filho! Tem que ver como elas são lindas. Outro dia elas dormiram comigo para a Bê sair, ficamos vendo filminhos até tarde...elas nem perguntaram pela Bê, acredita? Tem visto o Fabinho?

- Quem? Ah não. Nunca mais vi ninguém. Ás vezes pelo orkut um ou outro aparece...

- Ele era CDF igual você, né? Sabe do que eu me lembro bem, na verdade uma das únicas coisas que me lembro da época de escola? Daquele boneco que você levou para a feira de ciências que mostrava o corpo todo por dentro, você ainda tem esse boneco? Caramba, vira e mexe eu me lembro dele. Lembro que você tirava tudo de dentro dele e ficava montando e explicando para gente cada lugar de cada parte do nosso corpo. Intestino, pulmão, coração...era maneiro o boneco. Nunca mais me esqueci disso. De resto, não me lembro de mais nada. Queria mostrar aquele boneco para as meninas...

Caramba. Nem me lembrava mais do boneco. Acho que papai o havia trazido do Japão de presente para gente, era tipo um quebra-cabeças. Ele só fechava se tivesse tudo no seu devido lugar...lembro-me de mamãe dizendo que poderíamos aproveitá-lo na feira de ciências ... lembro-me de que o estômago fica entre o pâncreas e o fígado que é grandão e é ele  quem liga o esôfago ao intestino delgado (senão o boneco não fechava).

Óbvio que fui tentar resgatar o boneco. Liguei para minha mãe assim que cheguei em casa e antes de guardar as compras. Mamãe se lembrou dele na hora e também do tamanho dos nossos intestinos. Mas, infelizmente, ela me disse que não sabia do paradeiro do brinquedo. Uma pena. As meninas da Erica iriam se divertir.

Pique-pega. Grapete. Piano. Crianças. Feira-de-ciências. Assassinato. Cola na escola. Amizade. Eis o boneco com as vísceras à mostra.

Realmente não é fácil fechá-lo.



24 comentários:

  1. Parabéns
    Narrativa muito interessante e bem escrita, mas eu prefiro você nas reflexões e questionamentos.

    bjs

    Mazinho

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  2. Deve ser otimo reencontrar alguns amigos
    de escola anos depois, mas concordo com o comentário acima, prefiro voce nas reflexoes
    e questionamentos, rss.. Mas como ninguém é 100%
    CDF, vc tb tem seus momentos de descontração ne rs.
    Parabeens pelo texto =D

    beijos

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  3. Maza,

    Isso foi uma reflexão!


    :-)

    Entendi o que vc quis dizer.Pode deixar.

    Beijos

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  4. Thiago,

    Isso foi uma reflexão!

    E também uma descontração. É claro.

    Beijos

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  5. Quando li seu texto, tive uma sensação do tipo: "Ei, tem alguma coisa aí quié minha!".
    Demorei pra descobrir.
    Sim, eu tive um boneco desses também, mas não era isso. Já vomitei no pique-pega no primário...mas também não...
    Amigos de muito-antigamente? Mordida e cola de criança?
    Nada disso!
    Na verdade, minha é a vontade de juntar todas, todas, todas essas coisas, segurar bem apertado, só por um segundo. Pra logo depois espalhar tudo por todo lado. Ficar olhando tudo sem a menor idéia de onde (e nem pra que) eu devia botar cada órgão daqueles.
    Obrigado, Elika, por me mostrar esse quebra-cabeças-ao-contrário.

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  6. Anônimo!

    Acho que vc entendeu a minha intenção!!!!

    Iupiiiiii!!!!!

    Da próxima vez assine e obrigada pelo comentário.

    Ah! Será que é o mesmo boneco????

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  7. Elika,

    Como sempre, muito bom! Gostei especialmente da conclusão final.
    Beijos, Elise.

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  8. Olá! Às vezes tenho medo de reencontrar amigos da infância...Lembro que os meninos eram tão chatos e as meninas tão intriguentas que sobraram poucos pra recordar com alegria. Quando reconheço alguém, o primeiro sentimento que vem à tona é de Danger - Keep distance!

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  9. É? Comigo não é assim não. Eu fico meio assustada porque a sensação é estranha. De vida passando, do relógio enlouquecido... e , sempre, vem à tona a nostalgia.

    Faço de tudo para que no futuro eu olhe o tempo que vivo aqui e agora com a mesma saudade.

    Grande beijo e que bom que vc faz parte desse meu presente!

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  10. Pelo amor do teu não-Deus,

    Nós, pobres mortais, precisamos desta genialidade literária em forma de livrooooooooooooooooooooooo.

    Já!

    Jure para mim, por favor, que vai tentar isso até 2014?

    Parabéns de sempre.

    Beijos ostensivos à família.

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  11. Fala sério, Paulistarco de Andeléia!

    Não me faça ficar rindo pro computador! Receber elogio de mestre é o que há.

    Nelson assim que leu o texto me disse" Paulo vai gostar disso..."

    :-)

    Obrigada, amigo!Como dizem por aí: " tâmu junto!"

    Beijos

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  12. A sua história de hoje mudou de rumo. Ela sempre vinha alegre, brincalhona, explícita, fazendo de conta que nada é muito sério, ou assim devesse ser considerado. Uma espécie de ironia carinhosa da história para o leitor. Hoje não. A história ficou mais séria. Propõe um pequeno e delicioso quebra cabeça. Ela seria, talvez, um fruto daquela árvore plantada nas últimas histórias. Talvez, que bom que existe o talvez.
    Eu também tive um boneco destes, que veio da Alemanha trazido pelo meu pai, mas ele só fechava quando as peças dentro estavam desarrumadas. Bastava eu colocar em ordem, e ele se abria, jogava tudo fora.
    O principal é: a gostosura de ler a história ficou. Sempre fica. Gostei. Beijos.

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  13. Djabal,

    esse boneco seu é mais interessante do que o meu e me lembrou o quarto do meu filho. POr mais que eu tente arrumar, algo estranho acontece. BUM! Pronto. Já está uma zona de novo!

    :-)

    Interessante esses fenômenos.

    Grande beijo

    Com muito carinho.

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  14. Claudia Rodrigues27 de julho de 2010 16:39

    O mais estranho de reencontrar um antigo amiguinho de colégio, é que você o conhece mas não o reconhece. Vê que os caminhos tomaram direções opostas e que depois do saudosismo, das boas lembranças não temos muitas coisas em comum e a conversa é de duas pessoas que estão se conhecendo naquele momento...
    Mas o melhor de tudo é relembrar bons momentos que vivemos, termos histórias para contarmos aos nossos filhos! E se possível resgatar como e com o que brincávamos!
    Bjks!

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  15. Caramba, Claúdia. É isso aí que eu queria discutir! Como os caminhos não se cruzam mais embora já tenham se cruzado um dia. POr isso a foto dos trilhos.

    O desencontro foi muito maior do que o encontro nessa história. Nada se encaixava...

    E mesmo assim, foi legal eu ter me lembrado de tanta coisa.

    Tiro certeiro seu comentário!

    Obrigada por tê-lo feito.

    Beijos

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  16. Apesar de ser uma frescura, porque sou carnívora, me chocou o "algum
    pedaço de bicho prá comer". Gostei do texto no blog. Bjs
    Bete

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  17. Forte, não?

    Pior é que é isso aí mesmo, Bete. Quer queira quer não...

    =P

    Beijos

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  18. Não é legal quando encontramos um antigo colega?? Claro que quando se tem apenas 15 anos o encontro não choca tanto, mas sempre um pouquinho... Pena que eu nunca reconheço ninguém, as outras pessoas que me reconhecem. Sempre me falam que eu não mudei NADA, e quando vejo fotos antigas e comparo com atuais vejo que é a mais pura verdade.
    A grande diferença aqui é o que vemos nisso. Eu vejo, não como caminhos que não se cruzam mais, mas como caminhos que ja se cruzaram e voltam a se cruzar quando e onde menos esperamos. Antigos colegas de turma que acabam estudando na mesma escola e a gente nem sabe, ou que vem morar quase do seu lado e de repente nos encontramos na rua e descobrimos. Mas nunca sei se quando chegar na sua idade (25, 26 anos) pensarei da mesma maneira. =D Veremos...
    Bjs do seu aluno/fã
    Vinicius.

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  19. Vinícius!!!!

    KKKKKKKKKKKKK

    Vc está querendo puxar meu saco mesmo!!!! KKKK

    25,26 anos?!? Éramos duas quarentonas conversando!!!! :-D

    Sempre bom ler seus comentários.

    Beijos

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  20. puxar saco?? eu???? shuahauhsuashuashuashuahsua
    como assim?? clarooo que nao... :p
    mas de quarenta nao tem cara meeeeeeeeeeeeeessssmooooo!!!! =D
    Sabe que e sempre verdade, nao e??
    bjs
    Vinicius

    obs.: para que nao de falta dos acentos, meu computador e teclado estao configurados para ingles, por isso nao tem acento. hehe

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