terça-feira, 27 de novembro de 2012

Lei de Murphy ( 0 ) x ( 5 ) Fé na Kátia






Estou participando do V Seminário de História e Filosofia da Ciência na UFABC em Santo André e ontem, exatamente marcada para 16:30h, seria a minha apresentação. Se tudo o que eu havia planejado desse certo, já seria um dia mega tenso para mim que sou hiper apegada a uma rotina. Mas a despeito de  ter conseguido, eu  que ando questionando a base e a verdade das leis científicas descobri que há uma lei nesse universo que é inquestionável e que não devemos negligenciá-la jamais: A Lei de Murphy. Há de nos preocuparmos com ela e estarmos bem preparados para a sua atuação.

Confiei na informação de uma secretária sobre o meu voo para SP. A moça falou tudo corretamente, só errou em um pequeno detalhe: o aeroporto. Na hora certinha, na verdade com uma folga porque sou meio neurótica com horário e estava nervosa com a apresentação, cheguei.Exatamente às 10h da manhã eu estava pronta no Galeão para o voo que seria às 11:20h no Santos Dumont. Se não fosse o fato do Rio ser ameaçado a perder os royalties que correspondem a uma bagatela de três bilhões de reais por ano e o carioca lutar seriamente por essa causa com a participação dos Acadêmicos do Grande Rio justo no dia da minha viagem, eu chegaria a tempo. Mas não. O Rio estava em festa e o trânsito com TPM nível máximo. Estressadíssimo. Perdi o voo e tive que pegar o próximo que era às 14:00h.

No meio de minha atenieidade, eu procurava um mantra para me acalmar. Algum budista me disse uma vez que quando recitamos seguidamente nam mi orró rem gue quiô, Buda fica contente e não haverá mais beco sem saída em nossas vidas. Eu só não me lembrava da sequência direito dessas sílabas, mas resolvi mesmo assim agradar o enorme ser iluminado já que não havia mais nada a perder. Merengue ogó merenguiô merengue ogó merenguiô ... era o que eu consegui falar baixinho. Acho que Buda se enfureceu porque o meu voo das 14h...atrasou. Resolvi deixar de lado o merengue que só me deu azar e fui buscar outra coisa para me acalmar. Tudo posso naquele que me fortalece! Pensei. Pão de queijo com cappuccino! Yes!

A atendente me deu a bebida e eu assim que peguei no copo fiquei aborrecida por ela me vender um cappuccino gelado. Ledo engano. O bicho não estava frio e sim isolado por paredes de isopor. Dei um sugadão e queimei a faringe e o esôfago na entrada do líquido; na saída que foi pelo nariz devo ter queimado também a traquéia e todos os brônquios. O peito doía, a garganta ardia e as lágrimas rolavam contra a minha vontade borrando a maquiagem.

Chegando em SP, apertada para ir ao banheiro olhei para o relógio:15:37h. Não dá tempo. Peguei o primeiro táxi que vi. Furei a fila e pedi para todos que estavam nela, contorcendo as minhas pernas, que me desculpassem porque eu estava com muita pressa.

O motorista era um senhor e disse assim que entrei no carro que devemos ter muita calma no trânsito paulista para que não enfartemos. Além disso, ele falou que eu dei o mó azar porque ele havia emprestado pela primeira vez o GPS para a filha dele e ele não sabia andar por Santo André. Merengue ogó merenguiô merengue ogó merenguiô  merengue ogó merenguiô... peraí: tudo posso naquele que me fortalece: o meu celular! Liguei meu super GPS e pé na tábua, seu moço! Trânsito um ó do borogodó. Demorou tanto que a bateria entrou no modus economiquis e o GPS travou. O moço ficou com pena de mim e disse: olha, toma umas balinhas, vai chupando que a senhora vai se acalmar. Eu disse que não queria e ele jogou umas dez no meu colo. Eram 16:22h quando estávamos perto da UFABC que fica ao lado do Carrefour onde o moço entrou por engano. Tivemos que ficar na mó filona de carros para sairmos dali. Merengue ogó merenguiô merengue ogó merenguiô  merengue ogó merenguiô.

E graças a dilatação do tempo que ocorre quando estamos perto da velocidade da luz, exatamente ás 16:33h adentrei com mala, cuia, um palmo de língua queimada para fora e com as pernas ainda se contorcendo o recinto da Universidade pleno de historiadores e filósofos sentadinhos me esperando. Merengue ogó merenguiô merengue ogó merenguiô... Sublimei, então, tudo o que contei para vocês aqui. Tudo podendo naquela que me fortalece, lembrei-me da Kátia que certamente acendeu uma vela para mim para que tudo desse certo na minha apresentação. Essa imagem, como comentada em outra crônica tem um poder lexotânico na minha mente e não há Murphy com suas malditas leis que me faça esquecê-la.

Quanta sorte a minha, não?







quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Carrossel



Sou professora há mais de dez anos, na verdade quase vinte, mas isso pouco importa, na verdade importa, mas eu não quero falar sobre isso. Eu hoje já tenho ex-alunas que são mães, ex-alunos carecas, casados e até separados. Tenho ex-aluno nas universidades e nos shoppings. Ex-aluno artista, ex-aluno dentista. Tenho ex-aluno na França, na Alemanha e ex-aluno que não sei onde está. E é claro que não lembro o nome de todos eles (fato esse que entristece menos a eles do que a mim).

Mas nem só de ex-alunos é repleto o meu passado. Andei em academias de ginástica em toda a minha vida, na verdade de cinco em cinco anos, mas isso pouco importa. O que importa é que fiz amizades inesquecíveis das quais não me lembro do nome de quase ninguém. Fiz faculdade e conheci um tanto de gente assim lá, fiz mestrado e conheci outro tantão de gente mega inteligente, fiz curso de italiano, viajei pras Európis a trabalho com colegas de profissão e fiz três filhos. E de todas as pessoas que couberam nesse parágrafo e com as quais realizei altas trocas, eu sei o nome de mais ou menos cinco delas!

Isso posto, o fato do dia: Enquanto a minha vez não chegava na fila da pipoca em pleno calçadão de Copacabana, uma moça sorriu pra mim. Eu, mega fofa, sorri para ela. E daí, a dona do sorriso veio com o próprio escancarado na minha direção.

-Elika!!!! Há quanto tempo!!!!! – Exclamou com vontade a moça que me conhecia.
De onde, meodeos? Quem é você, jesuis? Pensa, Elika, pensa rápido. Abraça essa menina que está com braços abertos te esperando!
- Ô, põe tempo nisso, amiga!
Que amiga mané amiga?!?  Por que falei assim?  Por que essa louca está me esmagando?
- Como é que você tá, linda? E sua mãe... está bem?
Caramba... a menina sorridente conhecia a minha mãe...
- Estou ótima... mamãe também... – respondi fechando um pouco as minhas pálpebras e olhando bem na alma da fulana para ver se conseguia captar alguma coisa.
- E aí, Elika! Tem ido lá ainda?
Lá onde, senhor? Escola, academia, curso, outback, samba da Ouvidor, Berinjela... lá onde? Tantos lás por onde andei, meu pai! O que responder agora???
- Não. Nunca mais fui lá... – respondi maldizendo a minha memória.
- O quêêêê? Vocêêêê nuuunca mais foi lá???? Não acredito, Elika! Sério???? Não acredito!!! Por que???? Jura????– Perguntou a menina me fazendo sentir péssima por nunca mais ter voltado lá.

Se lá era tão legal pra mim, por que  eu deixei de ir?  Como a vida dá voltas... às vezes a gente é empurrado para um caminho que a gente nem sonhava em seguir. Daí você deixa de ir a um lugar bom que te faz bem, por que? Porque a vida é um feroz carrossel! Bem que o Chico havia me avisado... Acabei ficando triste e tendo segundos de reflexão sobre o que ando fazendo com a minha breve existência nesse planeta... o que dizer das canções que hoje não ouço mais, das academias que não mais frequentei, dos cursos que parei, das ondas que não surfei, das léguas que não corri, dos sonhos que desisti, dos mistérios que parei de sondar...

- Juro. – Respondi envergonhada.
- Fala sério, Elika! Nunca pensei que você seria capaz disso! Depois de tudo aquilo que você falava! De como você se sentia quando saía de lá! A não ser que você mentia pra gente!
- Não! Eu? Jamais menti para vocês! – Disse sendo sincera.
- Você lembra do que você falou para eu fazer com o Carlos Augusto? Você é gênia, Elika!Estava louca para te contar! Elikaaaa, nem te conto! – Falou a menina fazendo barbeiragem no português.
Gente, quem foi Carlos Augusto na vida dessa mulher! Só pode ter sido um namorado... O que eu disse para ela fazer???
- Ele morreu, você sabia? E eu fui a última a falar com ele. – Ela me disse sorrindo.
Quase desmaiei. Ela matou o Carlos Augusto e fui eu a mandante do crime!
- Você matou o Carlos Augusto? – Perguntei baixinho puxando a menina pelo braço saindo da fila da pipoca bem quando era a minha vez.
- Elika, você bebeu? Por que eu mataria meu sogro?  Não se lembra que ele estava no hospital e eu não falava com ele há três anos? Fui lá como você falou, pedi desculpas, disse que não guardava nenhuma mágoa dele, que ele sempre foi um pai maravilhoso...
Ai como sou fofa...meus olhinhos se encheram d´água ouvindo a história da...
- ...e daí ele me disse: Janete, me perdoa, minha nora querida? Eu disse que sim e ele mo-réu.
JaneteJaneteJanete Janete....Janete!!!!!!!!!!! A manicure do salãozinho de beleza lá do Valqueire que eu ia quando trabalhava no Colégio Pentágono!!!!Janete!!!!
- Janete!!!!!!!!! Que saudades!!!!!!!!!!!!
- Pois é Elika!!! Como vai Nelson, Hideo e a Nara?
Ela era do tempo que Yuki não era nem pensamento, gente! Ah, a Janete...
- Eu tive mais um, Janete! Olha aqui a foto dele!

E daí que ela estava trabalhando em um salão lá em Copa e terminara o seu turno justo quando eu havia acabado de resolver uma pendência e vi o pipoqueiro. Dei carona para Janete porque assim como eu ela é subúrbia. Pegamos duas horas de engarrafamento que nem sentimos e nem foram suficientes para colocar as fofocas todas em dia!

Quando Janete saiu do carro fiquei pensando em tudo o que aconteceu e como posso definir o que Janete é para mim. Já ouvi tantas definições de amizade e em nenhuma delas Janete se enquadra. Engraçado... A amizade é algo tão complexo que sua essência jamais caberá numa frase.  Querer explicá-la, justificá-la, julgá-la e moldá-la gera perdas de alguma espécie. Essa crônica, portanto, foi apenas uma tentativa de mostrar que a importância de uma pessoa não se mede com fita métrica, nem com dinamômetros, nem com palavras e nem com gestos! Acredito, depois de hoje, que uma boa medida da importância de uma pessoa seja a alegria que ela produza em nós. E eu amei ter reencontrado Janete!

Seguimos, então,  tentando nos divertir nesse carrossel.





quarta-feira, 17 de outubro de 2012

A Arte e a Ciência




- Mãe, o desenho está bonito? - perguntou o menino de seis aninhos para a mãe que dava aulas de física.
- Está, está lindo, mas está errado. Gotas de chuva são iguais as bolinhas e não assim como o Zé Gotinha com a cabeça afunilada.
- Por que?

Segundos de silêncio para a mãe pensar...

Mais alguns segundos...

O menino olhava para o desenho sem entender que mundo é esse em que as gotinhas de chuva não são como o Zé Gotinha.

(Custava a mãe ter falado para o menino que o desenho estava lindo e ponto final?)

Ok. A mãe pensou em algo.

- Porque as moléculas que formam as gotinhas de chuva dão as mãos de uma forma que  a menor quantidade delas fique com as costas de fora pegando vento. E elas só conseguem fazer isso formando uma bolinha perfeitinha! Qualquer outro formato que elas escolhessem teria mais moléculas pegando vento nas costas e isso não é legal como já cansei de te falar.
- Se não a mãe das moleclas briga?
- Exatamente isso, meu filho.
- E a mãe vai dar sopa pras moleclas depois?
- hm hmmm. Isso.
- E vai mandar as moleclas colocarem camisa?
- É.
- E a mãe vai levar as moleclas pra tomar vacina depois, é?
- É.
- E a mãe das moneclas...
-...meu filho, o desenho está lindo!!!!
- Brigado. Mas eu vou fazer um outro com menos moneclas pegando vento.

Entre a ciência e a arte, vivemos aqui com uma inominável terceira opção.



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Mais de nós dois em:

Limpando a cabeça
Biciquétala
A História do Meu Novo Amor
Viver é desenhar sem borracha



sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O Sagrado e o Profano


A mãe ouviu ao fundo a voz do pai gritando com o menino, coisa rara naquela casa, pois o menino que acabara de completar seis aninhos é muito bonzinho e obediente além de cuidar com carinho de todos os bichinhos da casa que consistiam em sete peixes, dois hamsters e um cachorrinho. Querendo saber o que estava acontecendo, a mãe deixou o resto da louça suja na pia e dirigiu-se para o cômodo da casa onde estavam o pai e o filho, o primeiro falando ainda de forma exaltada e com voz embargada, o segundo de cabeça baixa e aparentemente muito envergonhado.
- Você por um acaso... você...por um acaso... se eu ficasse doente, trocaria de pai? Da onde você tirou essa ideia? Com quem você tem andado, meu filho? Eu não esperava ouvir isso de você por toda a educação que nós temos te dado! Isso não é papel de homem, meu filho! Você quer me matar de desgosto falando uma coisa dessas? Você já viu o seu pai fazendo esse tipo de coisa por aí?
A mãe, sem ainda saber o motivo daquele emocionado discurso e sabendo que o pai jamais levantara a voz para criança daquela forma, como boa cúmplice, virou o rosto tenso para o filho e condenou com o olhar aquele ato indecoroso do menino. Balançava a cabeça negativamente e olhava o pai exclamando indignado. Com a mão direita espalmada por cima do peito esquerdo e com cara de choro, a mãe sentia a dor do pai como se fosse a dela.
- Vá beber uma água, Nelson. Se acalme, meu amor. Deixa que eu converso agora com ele, tá? O Kinho não vai fazer isso de novo, né, Kinho? – Alterou o semblante no mesmo instante em que olhou para o menino. O menino sabia que a mãe era mulher braba e curvou-se ainda mais de tanto medo e vergonha.
Nelson saiu do quarto vociferando sozinho pela casa. Onde erramos com ele? Que horror! Que horror! Isso não existe!!! A mãe mal se aproximara do menino quando ele começou a falar baixinho e chorando:
- Mãe, desculpa, eu disse pro pai que se ele mudasse eu ia com ele, que eu não vou deixar nunca o pai sozinho. Eu só quero ver o pai feliz...descuuuulpa, mãezinha, - soluçava nas vírgulas o menino arrependido – eu falei, mãezinha, que eu ia com ele... eu não quero ver mais o pai sofrer, mãe. Eu pensei que ele ia ficar mais feliz se a gente mudasse, mãe! Me desculpa, mãezinha...
- Ãhn? Mudar pra onde, Jesus? – Perguntou a mãe sem entender patavinas.
- Pro Fluminense, mãe. O Flamengo só perde... me desculpa, mãe, me desculpa...
O menino aprendera uma grande lição. Com o sagrado das pessoas não se mexe e que um homem não torce por um time, mas o consagra e o confunde com a própria consciência que tem de si mesmo.
- Ãhn?

           



segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Despindo Maria Lúcia



Maria Lúcia havia tomado um banho demorado. Após secar-se, hidratou a pele com óleo de semente de uva. Perfumou-se. O dia estava lindo e combinava com o seu vestido longo e estampado. De salto Anabela, levemente maquiada e com uma bolsa grande e estilosa pendurada no ombro direito entrou no seu carro possante cujo estacionamento era em uma das ruas de Copacabana. Virou a chave na ignição, ligou o ar condicionado, colocou o novo CD da Marisa Monte, ajeitou os retrovisores quando foi surpreendida por uma menina suja que batia na janela.

A princípio, Maria Lúcia sem ao menos saber o que a pobre menina queria, balançou o indicador de um lado para o outro, intercalando esse gesto com outro meneio negativo quando apontamos o polegar para baixo. A menina insistiu para que Maria Lúcia abaixasse o vidro e a moça de pele macia e aromatizada permitiu que somente uma frase passasse por dois centímetros de sua atenção.

- Posso ir com você até o centro? – Perguntou Stéphanny que de princesa nem o nome conseguiu ter.

- Queridinha, não estou indo para a cidade tá, meu bem? – Mentiu com serenidade e de forma espontânea Maria Lúcia que apesar de ter pronunciado inverdades o fez com carinho - não perceptível pelo vidro.

Assim, Maria Lúcia saiu da vaga em que estacionara e em menos de dois minutos estava deslizando pelo asfalto negro da Avenida Atlântica. A moça cuja pele estava coberta com estampas de flores partia otimista em direção ao centro da cidade para enfrentar a única possibilidade umbrosa naquele dia desanuviado: a consulta marcada com o seu ginecologista.

No entanto, algo aconteceu. O rosto sujo de Stephanny aparecia no meio dos carros, nos sinais fechados, na negritude do asfalto. Por que você mentiu, Maria Lucia? Era uma dessas vozes que parecem ser do além, mas que na verdade são de um grilo-falante. Ora, por que! Porque eu posso ser assaltada, a menina pode estar armada com um caco de vidro, roubar meu relógio da Mikael Kors! Ora, Maria Lúcia, não seja ridícula! Disse o Grilo-falante. Aquela menina lá tinha jeito de quem queria seu relógio? Por que diabos uma pessoa que pretende assaltar outra pediria carona com tanta humildade? Mas, Maria Lúcia estava relutante. Mandou o Grilo para os confins do inferno, pois não havia do que se culpar. A menina poderia muito bem pegar uma condução. Estava aparentemente bastante saudável para isso.

Como os mais prósperos e afortunados são insensíveis!  Nós todos que já vimos uma cena semelhante sabemos que Stéphanny não pega ônibus porque não tem dinheiro algum! A pobre-menina passará o dia todo pedindo esmolas e muitos nem terão a delicadeza de Maria Lúcia de contar-lhe uma mentira.

E lá seguia Maria Lúcia com o corpo limpo e a alma lavada, toda dona de si dentro daquele vestido adornado com flores não cheirosas. Porém, antes mesmo de entrar no túnel, Maria Lúcia não mais se sentia tão bonita quanto outrora. A roupa lhe parecia muito papagaiada, os sapatos não combinavam com a estampa do tecido, o batom era vermelho demais...O que me custava ter dado uma carona a uma menina? Deixa isso pra lá, Maria Lúcia. O mundo não vai mudar com esse audacioso gesto de caridade! Mas e se essa menina foi a minha “prova” aqui na Terra? Às vezes pensamos que Deus será claro ao nos oferecer a redenção e a salvação, mas vai que estamos enganados? Vai que Ele se disfarça como o Diabo? Vai que Deus queria decidir o meu destino hoje com esse pedido de carona? Aquela tamanha humildade bem estava me parecendo suspeita... De onde viria? Porra, Maria Lúcia, como você é burra! Deus é super dissimulado! Aquele pedido de carona era fingimento! O que Deus queria ao usar aquela máscara era te testar!

Maria Lúcia ficou pálida. O túnel Rebouças lhe pareceu como o caminho para as profundezas do inferno e ela não poderia passar por ele de maneira alguma. Pegou o primeiro retorno.

E agora, Maria Lúcia, vai dizer o que para a menina? Que esqueceu alguma coisa? Que se arrependeu de ter mentido? E se a fedelha não estiver mais lá, Maria Lúcia? O que será de você?

Stéphanny estava ali perto no sinal segurando uma moeda de dez centavos mendigando pelos vidros mais moedas iguais a que firmava entre os dedos. Os motoristas fingiam nada ver. Maria Lúcia chamou a   pequena gritando “Ei, garota! Ei! Vem cá!”.  Stéphanny foi até Maria Lúcia que começou a gaguejar se explicando, dizendo que havia se esquecido para onde ia, que o médico dela possuía dois consultórios, que ela estava ficando surda e que não havia entendido direito o que a menina queria, que patati patatá...Stéphanny não parecia interessada em nada daquilo. Entrou no carro como se já soubesse que a madame voltaria e ficou o caminho inteiro respondendo com um português todo errado às perguntas de Maria Lúcia. A vida de Stéphanny daria um outro conto que deixarei para uma outra oportunidade. O ponto é que Maria Lúcia estava feliz e aliviada em ter ajudado uma coitada desafortunada e carente, a despeito do carro ter ficado com um odor desagradável mesmo depois da guria ter saído.

O médico deu péssimas notícias à Maria Lúcia. Ela teria que começar urgentemente uma quimioterapia e, muito em breve, possivelmente ser submetida a uma mastectomia.

Stéphanny realmente não reconheceu todo o esforço de Maria Lúcia.

Maldita seja.





sábado, 15 de setembro de 2012

Os ovos passeando de trem


Vocês aí que deixam seus ovos tristes dentro da geladeira... saibam que eles se divertem quando saem para passear. De trem então... veja que alegria!






Mas não coma nutella na frente deles!
Não fale alto quando abrir a geladeira!
De vez em quando eles me fazem uma surpresa!
E se eu esqueço um livro aberto...
Adoro quando eles me contam piadas!
Parecem crianças...


Ovos com Espírito de Porco



Como tem ovo ruim nesse mundo. Meodeos...


Gostou? Quer ver mais o que esses ovos aprontam pela minha casa e pelo mundo?





quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Raciocínio Lógico



Estou em São Paulo participando de um Congresso de História da Ciência e da Tecnologia na USP. Ontem foi o único dia que deu para eu passear a tarde e aproveitei para conhecer alguns pontos turísticos. Fui no famoso bairro da Liberdade, na famosa Praça da Sé, no famoso Teatro Municipal e me desesperei no famoso engarrafamento onde percebi que os paulistas acreditam que o ato de buzinar pode fazer o carro da frente se desintegrar. Cheguei ao hotel cheia de dores de cabeça...

Hoje, porém, não deu tempo para nada. Houve atividades o dia inteiro no congresso e, para piorar, a tarde foi a minha apresentação de forma que eu estava mega concentrada com medo de esquecer alguma coisa caso balançasse muito a cabeça. O trabalho era sobre o desenvolvimento da Física no século XVIII, mostrei que o assunto é confuso e que eu não estou entendendo bulhufas da dinâmica da coisa. Na verdade o que eu apresentei foi a minha ignorância sobre o assunto. Ainda assim acho que agradei aos três espectadores. Fui super fofa, coloquei uns memes na apresentação quebrando todos os paradigmas enquanto pesquisadora séria. Me aplaudiram de pé no final. Primeiro porque eu era a última a apresentar e já estava todo mundo de saco cheio e doido para ir embora, depois porque é de praxe bater palmas para qualquer pessoa que fale absolutamente qualquer bobagem em congressos. Mas isso são detalhes que ninguém precisa saber. 

Vamos ao que interessa e que me fez no final do dia vir aqui no meu blog para escrever. Voltando da USP quase chegando no hotel no início da noite passei por uma loja de roupas de mergulho. Como o dia foi tenso pensei: por que não? Não tenho roupa de mergulho e mergulhar deve ser bom. Vai que um dia eu precise, vai que um dia eu compre uma lancha ou vá a Miguel Pereira? Perdi uma oportunidade uma vez de curtir uma piscina lá só porque deteeeeesto água gelada. Eu via os amigos nadando, pulando na água sem medo, se divertindo a vera e a brinca* e morria de inveja. Taí. Ouvi dizer que essas roupas não deixam a gente sentir frio. Menos um problema na minha vida! Está tudo dando certo hoje!

Entrei na loja.

Veio o moço:
- O que a senhora deseja? - Perguntou o vendedor nada original.
- Eu desejo não sentir frio quando mergulhar. - Respondi claramente.
-A gente tem roupa de cinco milímetros. - Ele disse me olhando toda de cima a baixo.
- Muito engraçadinho, moço. Acho que sou maior do que isso.- Falei super antipática não gostando nem um pouco daquela brincadeira feita por um desconhecido.

Daí ele riu. Eu fiquei super aborrecida com a grosseria. Agradeci e dei-lhe as costas.

- Senhora, espere! Desculpe, deixe eu mostrar o que tenho aqui pra senhora. - Arrependeu-se, certamente, o vendedor.
- Eu quero essa grossa. De manga comprida. - Explanei decidida.
- Ok. Qual o seu tamanho?- Perguntou de novo o engraçadinho.
- Um metro e meio. - Falei séria.
- Eu estou falando se a senhora veste pê, eme ou gê, senhora. - O vendedor burro que não sabe nem perguntar sem ambiguidades, explicou-se.
- Pê. 
- Eu acho que a senhora é eme. - Perdeu completamente a noção o cara.
- Pois sim que sou eme! Pois sim! Me dá a pê da grossa. - Ordenei já doida para sair dali.
- A senhora não vai experimentar?

Qual o quê...A loja tinha pouco movimento e havia somente dois vendedores machos. No mais, eu ando "me achando" pelas ruas e desconfiando que todo homem que se aproxima de mim quer me estuprar. Síndrome de gostosa-ligada-nas-notícias. Avaliei o local e achei que corria altos perigos.

- Muito obrigada. O pê vai servir com certeza. - Mandei na lata a minha excelente forma física.
- Ok. Qual a forma de pagamento? - Finalizou o tarado.
- Quanto é? 

Eu sabia que tinha duas notas de cem reais na carteira e borracha é coisa barata. 

- Shyrtxlcentos reais. - Respondeu jack, o vendedor estripador.

Fala sério! Se fosse de seda vá lá! Mas de borracha? O outro vendedor se levantou e já estava embrulhando aquela goma elástica. Seria o maior mico falar que não queria mais. Estava vindo de um congresso. Com crachá e tudo. Toda de salto alto, meu povo.  O dia havia sido perfeito. O meu ego estava brilhando...Fala sério! Acabei dando o meu cartão de crédito e parcelei em trinta e seis vezes.

Assim que cheguei no hotel resolvi experimentar a nova aquisição que custou os olhos da cara e o orgulho da minha alma. Distendi três músculos tentando colocar a roupa. Tive que deitar na cama para fechar o zíper na frente do macacão. Fechei. Não consegui me levantar. Rolei e cai no chão. Com muito custo fiquei de pé. Fui até o espelho e tchanraaannnn! Adorei o que vi. Estava magéééérrima! Fiquei andando indo e voltando em frente ao espelho super feliz. Vou vestir a noite para o Nelson quando voltar amanhã pro Rio, pensei. Ele vai adorar a nova Elika Bunchen. Mas, a felicidade deu lugar a um giga desconforto. De repente a respiração começou a ficar comprometida e eu resolvi abrir o zíper todo de uma vez com medo de morrer. O barrigão pulou pra fora aliviado e eu comecei a expirar todo oxigênio do quarto ofegante achando que estava já raciocinando mal por falta desse gás comburente no cérebro. 

Quando fui tentar tirar o traje colante entrei em desespero. Não havia movimento ou manobra que eu fizesse com os meus braços capaz de desgrudar dos meus ombros aquele bando de látex. O cabelo estava encharcado de suor. Não sabia mais o que fazer.  Liguei para o meu marido que estava em casa com as crianças.

- Neeelso, socorro! Estou presa!- Eu disse assim que ele atendeu o telefone em casa.
- O que houve? Presa como? - Perguntou Nelson todo preocupado.
- Em mim mesma! Neeeeelson, socorro! - Gritei.

Depois de tudo explicado, veio a solução. O que seria de mim sem Nelsim?

-Liga para a recepção e diga que está precisando da ajuda de uma mulher. - Expressou-se super calmo e me passando altas tranquilidades.

E foi exatamente e imediatamente o que eu fiz.

- Alô? É da recepção? Meu querido, estou com um probleminha aqui e preciso de ajuda urgente. Pode mandar uma mulher pro meu quarto, por favor?

Em menos de três minutos chega a camareira. Puxei a moça pelo braço para ela entrar rápido. Mostrei o meu estado. Barrigão branco pra fora, suada, com aquela borracha  fundida ao meu corpinho-bagulho.

- Por que a senhora vestiu isso aqui? - Começou a moça fantasiada de avental e touquinha a querer saber demais da conta. 

- Me ajuda, moça, peloamordedeos, me ajuda! Puxa!- Coloquei as minhas costas nas mão dela. - Vai! Aí! Vai! Puxa! - Devia ter falado que queria uma mulher forte.

- Tô tentando, senhora. Por que a senhora fez isso? - Perguntou a fraquelóide.

- Puxa, moça! PUUXXAAA! Pode rasgar mas tira isso do meu corpo! 

Ploft. As muxibas vieram abaixo! Que alívio! Eu rodei os meus braços peladona como se fossem hélices de helicóptero na frente da mocinha de touca e avental que me olhava assustada. Eu estava extremamente feliz com a liberdade!

Mais calma, expliquei para ela que eu ia ser estuprada na loja e patati patatá. Ainda como vim ao mundo e em êxtase dei -lhe um abração toda suada  e ela foi embora sem ao menos esperar uma gorjeta.

É isso por hoje. Amanhã de manhã vou explicar para uma turma de futuros-padres porque não acredito em Deus mas tenho Fé na Kátia. E assim vou terminando os meus dias de intelectual aqui em Sampa.

Até a próxima!

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* Parafraseando Manoel de Barros.




quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A Falsa Rainha

Desenho feito pelo artista Sergio Ricciuto Conte.

No início deste ano, resolvi tratar as minhas fortes enxaquecas. Estava aberta à qualquer tipo de tratamento a despeito de minhas crenças. Acupuntura, lobotomia, shiatsu, pilates, chá de erva amarga, reza forte, banho de pipoca,...qualquer coisa contanto que me tirasse a dor. Acabei mesmo me resolvendo pelo lado tradicional. Postei no feicebuque que sentia dores, muitas dores, dores horríveis!!!, e pedi sugestões dos amigos conectados. Em menos de um minuto, um amigo de escola da época em que eu lia e achava bom Paulo Coelho, respondeu-me prontamente fornecendo um número de telefone para eu entrar em contato.
Não vou me estender muito aqui contando o nosso estranho reencontro, depois de bem, quase vinte anos sem nos vermos e nem ao menos trocar uma palavrinha nesse intervalo que apesar da dimensão tenha sido efêmero por distração. Apenas farei uma pequena observação do tamanho de um só parágrafo. É costume universal quando vemos uma criança depois de um certo intervalo dizer “Nossa! Como ele cresceu!”, por ficarmos realmente assustados menos com o desenvolvimento da criança do que com o constatar do passar do tempo que ocorre para nós; também. Algo mais, porém, ocorre quando reencontramos amigos de infância quer ele tenha virado padre, professor, político ou quer tenha se transformado em um doutor. Percebemos a transformação externa, mas não conseguimos ver um adulto como um outro qualquer na nossa frente. Ao vivermos esse reencontro, não há cabelos brancos e rugas residentes em nossos rostos que nos impeçam de enxergar o menino que ainda é e sempre será, para nós, o amigo reencontrado. Por outro lado, somente nesses reencontros percebemos também que há um lugar dentro da gente em que seremos eternamente infantis. Ver, então, uma criança de jaleco, medindo a minha pressão, auscultando o ritmo das minhas sístoles e diástoles, e olhando a minha íris com uma lanterninha supimpa foi uma experiência que exigiu manobras psicológicas que ninguém havia me ensinado. Enfim, a minha sorte é que Leonam era do tipo "cê-dê-éfe", ou para usar uma linguagem mais atual, meganerd. Sentava-se sempre lá na frente na sala de aula e não me dava lá tanta atenção naquela época. Vi isso como algo extremamente positivo e procurei só pensar durante a consulta em quanto ele sempre soube mais do que eu. Esse manejo mental evitou que eu pegasse aquele estetoscópio e dissesse para ele “agora é a minha vez de ver como você está!”.
O ponto que me fez vir aqui hoje é que Leonam, ou melhor, o doutor Leonam permitiu-me, sem querer, um outro tipo de viagem. Ele percebeu que a causa das minhas dores de cabeça era minhas noites pessimamente dormidas. Para tanto, prescreveu-me uma pílula mágica que alguns minutos depois de ingeri-la temos o sono dos deuses. E se eu já sonhava antes por madrugadas afora, agora por elas adentro ando vendo filmes de longa metragem projetados, diria Freud,  na tela do esconderijo secreto: o inconsciente. As dores passaram, mas ao custo de toda manhã eu ter que me olhar no espelho depois de tudo o que me é revelado. Como ocorreu na alvorada de hoje.
Sonhei que ia por uma rua bem íngreme sob a luz da lua cheia, quando a uma curva do caminho dou de cara com um casarão tipo um castelo por onde orbitavam morcegos. As luzes estavam todas acesas de forma que eu poderia ver o que se passava lá dentro. De longe parecia uma festa, de perto, uma orgia. Corpos seminus dançavam freneticamente, gargalhadas estridentes, espadas de brinquedo em riste e chapéus de Napoleão. Não era uma festa. Não era uma orgia. Tratava-se de um hospício. Sozinha,  prontifique-me de sair de lá o mais rápido possível quando de repente, não mais que de repente, surge à minha frente vindo do alto, talvez de uma árvore, um homem pensando estar vestido de homem-aranha. A máscara nada mais era do que uma cueca vermelha onde no buraco das pernas viam-se olhos esbugalhados. Ele ficou naquela posição com os joelhos dobrados e as pernas arreganhadas, uma palma da mão apoiada no chão, o pulso da outra apontando na minha direção. Queria me agredir, mas não sem antes, aparentemente, prender-me com uma teia. Era um louco fugido e eu estava em pânico. Ocorreu-me, então, uma ideia salvadora:
       - Como ousas a interromper o curso de uma Rainha? Fique de pé e volte de onde veio antes que eu mande os cavaleiros das... os cavaleiros das... os cavaleiros das Tilápias te prenderem!
      O maluco imediatamente cumprimentou-me, tal como saudamos uma majestade: curvando-se  e de cabeça baixa, gesto natural dos submissos. Isso feito, saiu pulando em direção ao castelo passando pelos ramos altos que saiam de troncos lenhosos. Comecei a rir no sonho, mas ri tanto e tão alto que o barulho rompeu a barreira onírica e materializou-se nos tímpanos de meu marido que imediatamente acordou e ficou me olhando assustado. Achando que eu estivesse sofrendo, despertou-me acariciando cautelosamente o meu colo.
      Tivesse eu ainda na terapia, ouviria que a doida que existe em mim é trazida num regime altamente rigoroso tal qual uma monarquia. O espelho que fala sem firulas o que vê disse-me que o diabo será o dia em que ela, a doida, descobrir que eu não sou rainha nenhuma. 
     A doida que existe em mim... os doidos que existem em todos nós...Olhando para todos que me rodeiam percebo que a civilização não é passível de sucesso dado que todos nós sequer conquistamos um mínimo de equilíbrio emocional sem muito esforço. A Bíblia já nos diz isso há séculos de forma simbólica. Perdemos no pecado a condição de sermos racionalmente harmoniosos, somos proibidos de ter a visão do paraíso.
        Continuando a olhar a mulher descabelada e com olheiras no objeto de vidro e de metal bem polido, percebi que a doida que existe em mim é responsável pelas emoções mais puras que a vida me deu. É ela, essa descompensada oligofrênica de cabelos  longos e alvoroçados, portadora de um vestido branco, curto e todo rasgado, usando um chapéu grandão cheio de adereços e que vive descalça, que vira e mexe salta de dentro de mim e grita sim! num  momento em que meu ser civilizado, com calças sociais, blusinhas fru-fru e sapatos scarpins ameaça a dizer não a alguma aventura. Foi essa doida quem se apaixonou inúmeras vezes pela mesma pessoa e permitiu que um outro, amado somente uma, fizesse-lhe o primeiro filho. Foi ela quem chorou quando criança, debatendo-se e assustando os vizinhos, a perda de um preá . Foi ela quem negou Jesus Cristo, o único homem equilibrado e perfeito que jamais existiu na face da terra, por temer o mesmo fim. É essa doida que não adormece dentro de mim e que, por isso, nunca me deixou ter uma noite completa de sonos, pois, sempre me desperta ao ficar reivindicando aos gritos, muito antes do amanhecer, o direito de correr contra o vento. Essa louca contida, refreada, domesticada, enrustida e subjugada é o legítimo sustentáculo da minha verdadeira personalidade, é a medida da minha condição feminina, heroína e pobre-coitada, branca por necessidade, santa para tantos por tanta obtusidade, soldado obediente, mas que um dia há de revoltar-se contra toda essa conveniente disciplina e libertar de vez de toda essa loucura quando descobrir que nunca fui e que jamais serei uma Rainha.
         As dores de cabeça praticamente não existem mais e creio que ao parar de tomar o remédio elas não voltarão, pois a pureza de minha debilidade, antagonicamente poderosa pela sua fragilidade e pela sua força, está perto de ser coroada com flores, de ser adornada com bijuterias e de ir para as ruas saltitante, orgulhosa do que vê todas as manhãs naquele que reproduz nitidamente as imagens que o defrontam.




terça-feira, 3 de julho de 2012

Feijoada com ou sem Cristo?



Passo sempre indiferente por essa Igreja na final da 24 de Maio, mas outro dia um cartaz em sua fachada me fez meditar. “Tradicional feijoada do Encontro de Casais com Cristo”. Inicialmente a reflexão foi voltada para a ambiguidade da frase. O evento poderia ser para prestigiar duas coisas diferentes: Uma, que Cristo se encontraria com os casais e a feijoada seria apenas um detalhe. A outra, que Cristo estaria presente já antes na feijoada (assim como durante, é claro), que os casais viriam ao Seu encontro e poderiam ainda, com moderação, sorver o alimento rico em ferro. Esses são pormenores da nossa língua portuguesa que nos tornam imprecisos mesmo com Cristo... Confesso que a primeira opção não me faria parar tudo que ando fazendo para estar aqui divagando com meus fiéis seis leitores. Já a segunda (e que conforme me disse uma integrante da paróquia é o que acontece todo ano) me fez ponderar.  Eu que nada bebo mas de tudo como, parei para questionar se não estaria perdendo uma feijoada divina por não ter nenhuma religião e, Deus que me perdoe, pensei até em uma conversão só para participar dessa farra.

Farra? Foi aí que comecei a pensar na possibilidade de permitir que a 'feijoada com Cristo' entre no meu estômago ao preço de deixá-Lo, antes, entrar na minha mente (ou vá lá, no meu coração). Colocando tudo na balança ruminei: O que seria afinal uma feijoada com Cristo? O que seria uma feijoada sem Cristo? Aquela que eu sempre como afinal...Ele está ou não presente? Não me lembro Dele ter sido convidado, mas também nunca vi ninguém impedindo a Sua entrada...

Quando pensamos nessa iguaria feita de feijão preto cozido com miúdos de porco, partes íntimas e gordurosas e quaisquer outras coisas nojentas, desde que contenham gordura suficiente e muita pele de qualquer quadrúpede, além de ingredientes trazidos pelo vento que a cozinheira diz ser folha de louro, não imaginamos gente triste ou com algum sentimento de culpa quer cozinhando quer  fazendo parte da degustação que pode levar horas. Não há espaço para o silêncio quando estamos diante desse manjar dos deuses e a falta de ruído jamais pode ser preenchida pela música clássica. Seria um sacrilégio. Não há quietude, sossego, calma e som de harpas.... Há de entrar pelos ouvidos uns ziriguinduns, telecotecos, balacobacos, borogodós e buruguduns para que a feijoada não fique sem sal. E nesse paticundum, pracatás, sabadás e badaiás, bailarinas vestidas de branco ou  de rosa clarinho com uma saia que parece feita de nuvem não tem vez! Ao nosso lado, compondo o prato, deve ter uma nega com salto alto, vestidinho estampado e bem curto sambando com o diabo no corpo. Risadas estridentes estimuladas pelas cervejas estupidamente geladas e ucas, açúcar, cumbucas de gelo e limão são imprescindíveis para engrossar o caldo (Saravá Chico!).  E nada de vinho pelo amor de deus!  

É. Definitivamente Cristo não pode fazer parte desse tipo de coisa e pensando bem, Ele nunca esteve presente em nenhuma feijoada em que fui.

O ponto é que não vejo como isso pode ficar mais divertido e gostoso se modificarmos algum ingrediente ou se acrescentarmos algo, ainda que esse um-tanto-a-mais seja supremo. Cristo nesse ambiente poderia ou ficar deslocado ou inibir nossas gargalhadas com dentes sujos à mostra ou pior! acabar se divertindo nesse meio. Deus me livre.

Isso posto, não irei a "Tradicional Feijoada do Encontro de Casais com Cristo" e agora, depois dessa meditação, não estou mais angustiada com uma certa sensação de perda. Estou bem mais tranquila. Stanislaw Ponte Preta, o Sérgio Porto, disse que uma feijoada só é realmente completa quando tem uma ambulância de plantão. Só quem já saboreou devidamente o pitéu percebe que a genialidade de Ponte Preta nessa proposição foi ter captado e expresso em poucas palavras a essência desse maravilhoso e fenomenal sustentoPercebo, então, sem me sentir uma perversa profana, que Jesus deve mesmo é ficar do lado de fora. Literalmente. Fazendo o que faz de melhor! Absolvendo-nos e guiando nossos passos até chegarmos ao nosso abençoado lar.




quarta-feira, 13 de junho de 2012

Não Curti


Entrei no elevador hoje no segundo andar do CEFET. Estava com preguiça de ir pela escada até o quinto. Dou de cara com um casalzinho emburrado. Em pleno 13 de junho que vem logo depois do dia 12 de junho, o dia em que mel em cima de cocada fica menos enjoativo do que as mensagens de amor no feicebuque.

- Rafa... – Ela disse logo que a porta se fechou.

- SSSHHHHH...- Fez o Rafa de cara feia olhando fixamente para baixo, exatamente para a minha pessoa, fazendo o sinal universal de cala a boca para a garota.

- Rafa, - insistiu a menininha fofa com cara de pobrezinha e com voz de meiguinha – eu só curti, Rafa...

- Só, Maria Eduarda, só curtiu? Só? Desde quando, Maria Eduarda, curtir seis vezes é ‘só’ curtir?!? – Caraca, Maria Eduarda havia pisado na bola legal. Todo mundo sabe que curtir uma vez é ser simpático, duas é ser colega, três, amizade, quatro, interesse, cinco, vem cá que eu tô facinha, seis?!?  Fala sério! Que decepção, Maria Eduarda! Que decepção!!!

- Mas você quer o que, Rafa? – perguntou a safada e sem-vergonha na maior cara de pau! Eu olhei rápido para o Rafa querendo só ver que tipo de homem ele era.

- O que eu quero, Maria Eduarda? O que eu quero? – Afe. Esse Rafa é do tipo que começa respondendo perguntando tudo duas vezes...- O que eu quero? Você ainda me pergunta? – Recriminei-o com um olhar severo. O meu andar estava chegando...Caraca, ômi, fala logo que quer que ela te respeite!, desembucha essa raiva direito ao invés de ficar perguntando igual um coió. Explica que ela fazendo esse tipo de coisa acaba com a sua masculinidância enquanto homem no feicebuque! Gasta esse latim, Rafa!

- Você quer que eu deixe de ter as minhas opiniões? Quer que eu me anule no feicebuque? – Maria Eduarda estufou o peito e falou balançando o queixo igualzinho um sino e com a mão na cintura. Como essas pessoas conseguem fazer isso com a cabeça? Sempre tentei e nunca consegui. Enquanto eu olhava a vaca da Maria Eduarda oscilando aquela fuça a porta do elevador se abriu.

Hesitei. Se eu saísse não poderia mais dar aquele apoio moral pro Rafa. 

Pensa rápido, Elika, pensa rápido!

- Vocês vão descer aqui? – Perguntei com firmeza, pensando em segui-los só até o Rafa dar um fora na Maria Eduarda.

- Não. – Respondeu a hexa-curtidora descarada.

- Não? Não??? Como não? – Pronto. Peguei a doença do menino. – Esse não é o último andar?

- É, mas estávamos descendo, daí a senhora entrou e apertou o quinto. Esses elevadores do CEFET são meio malucos. – Respondeu o coiócudo do Rafael que além de tudo não deixou a porta se fechar segurando-a para eu sair em segurança. Fofurésimo. – A senhora não vai descer aqui?

- Eh, bem, eu ia, mas acabo de me lembrar que tenho que ir ao banco. – Se tem uma coisa que eu admiro em minha pessoa é meu raciocínio com a velocidade da luz.

E a porta se fecha.

Silêncio.

Mais silêncio.

Como é que é, meu povo! Bóra discutir essa relação que meu tempo é curto!

E o elevador despencando em queda livre!

Que situação! Que situação em que fui me meter! Que estresse!Que estresse!

Comecei a rodar o meu anel do mindinho e a olhar sério pro Rafa com a minha testa tensa, linguagem universal dos que acham que Maria Eduarda pisou na bola e que ele tem toda razão de ficar chateado e deve exigir mais respeito da parte dela.

- Ok, Maria Eduarda, desculpa. É que eu sou meio inseguro mesmo...

A porta se abriu, meu queixo caiu e os dois saíram abraçadinhos. Isso que dá a gente se envolver emocionalmente com o problema dos outros. O acesso ao elevador começou se estreitar cada vez mais, meu nariz quase ficou preso... congelei sem entender nada... fiquei com a maior cara de bananada diet a um centímetro daquela fenda emborrachada.

 Como essa garotada de hoje é imatura. Vou te contar, viu...


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Se você se divertiu lendo esse texto, talvez goste desses também:

Dividindo pra poder Sobrar
Cromo somos xx!!!





quinta-feira, 31 de maio de 2012

Email para um 'Prezado Senhor'



Prezado Senhor,


Quem escreve aqui é a moça que bateu na traseira do seu carro na noite do dia 28 de maio quando voltava de um encontro no Museu da República onde foi lançado um livro escrito por uns tantos amigos. A noite seguia tranquila e com uma beleza leve tal qual um vôo de gaivota. Liguei o rádio assim que entrei no carro e como se tudo já não tivesse sido suficiente, ouvi Ney Matogrosso cantando que lá no fundo azul, na noite da floresta, a lua iluminou a dança, a roda, a festa. Ao me aproximar da Praça Tiradentes e ver o Teatro Carlos Gomes todo iluminado, distraí-me mais do que devia ainda na avenida Passos onde estava o seu carro parado em um sinal. Como poderia tê-lo visto se estava olhando para cima? O choque foi inevitável.

A lei é clara, prezado senhor, não há desculpas para aqueles que batem na parte de trás de carros parados em um sinal vermelho. Devo dizer que estou desolada com esse acontecimento, envergonhada até! e dou-lhe inteira razão de ter se irritado e brigado muito comigo na frente de tanta gente ainda que eu tivesse pedido de várias formas o seu perdão. Quem trabalha o dia inteiro, ganha o salário honestamente e sua tanto a camisa em horário comercial, tem todo o direito de ter uma volta para a casa sem maiores percalços. Eu sei bem disso, prezado senhor.

Trocamos imediatamente nossos números de telefone. Você fez questão de verificar os meus documentos e de anotar o número de minha habilitação, CPF, identidade, a placa do meu carro e ligar na mesma hora para o meu celular e ouvi-lo tocar na sua frente - certamente fazendo um mau julgamento a meu respeito. Não o condeno por isso, prezado senhor. Entendo perfeitamente o seu medo. Tanta gente ruim nesse mundo...

No dia seguinte, 29 de maio, ao final da tarde recebo o seu email com o orçamento do conserto de seu carro. 820 reais e mais umas despesas com táxi enquanto o seu carro estiver na oficina. Tudo bem, prezado senhor, todo esse despêndio será depositado na conta nº 3598X-9R da agência 086-R. O meu palio weekend adventure cuja placa é LBK 59X4 não colidirá mais dessa forma estúpida nem com um  ford ecosport xls 1,6 flex 2007 de placa LCJ 3XX8 nem com nenhum outro carro, pois, eu, portadora da identidade 09596XX-2, CPF 045527-X6 prometo olhar mais para frente, pelo menos enquanto estiver dirigindo. Eu, prezado senhor, que não passo de números para você reconheço que a vida poderia passar sem essas subtrações orçamentárias se as pessoas se limitassem a ficar dentro dos limites dos algarismos que a definem e que olhassem sempre e somente para a frente. Peço-lhe mais uma vez desculpas e prometo não lhe causar mais problemas. Conte com a minha palavra e com a minha carteira.

Mas... que me seja ao menos permitido sonhar com um outro rumo para essa nossa história... em que eu batesse na traseira de seu carro parado no sinal e tivesse a oportunidade de te dizer: amigo, meu nome é Elika, muito prazer em te conhecer! Desculpe-me, mas é que hoje estou extremamente feliz e distraída. Linda a iluminação desse teatro, não? Já viu esse espetáculo? E você dissesse: não. Mas poderia trazer a minha esposa e vermos juntos nesse final de semana. E eu pegasse o seu endereço para buscá-los, pois o seu carro estaria na oficina. E que fôssemos juntos ao teatro! Afinal... paramos ambos por causa dele e a vida é curta como a temporada de uma peça. E que ficássemos amigos e que você usasse o meu número de telefone para saber como se chega à minha casa para participar de umas daquelas saudáveis tardes de cantoria. E que brindássemos por eu não ter te machucado de forma alguma, bebêssemos sentindo a brisa no meu terraço e, enfim, celebrássemos a amizade entre os seres humanos, o amor e a paz entre nós.



sábado, 26 de maio de 2012

A História do Meu Novo Amor



Apaixonei-me assim que o vi. Foi mais forte que eu. Tenho que confessar. Nelson, meu marido, não estava por perto. Sorte do meu novo amor que teve meu olhar todo para ele logo na primeira vez que o vi. Desde então, tento me controlar, ocultar, não dar tanta bandeira, mas não consigo mais guardar isso só para mim. Tive uma longa conversa com o Nelson e ele me disse que já estava sentindo que eu não era só dele há tempos. Então, não faz mais sentido esconder de ninguém. Por isso hoje resolvi revelar para todos a história do meu novo amor.

Meu novo amor...Sempre me surpreende com uma flor escolhida meticulosamente, o gesto universal dos apaixonados. Outro dia, ao ver uma folha bonita, agora vejam, arrancou-a de uma planta que desconhece o nome, ofereceu-me com todo carinho e um beijo molhado (Como resistir?). Fica horas ao meu lado lendo. Emociona-se quando conto minhas histórias. Temos jantado juntos em alguns dias da semana. Dengoso, gosta que eu dê a comida na sua boca. Completamente infantil, muitos diriam, mas é capaz de me dar um carinho que Nelson jamais me ofereceu. Tem um ciúme que além de não me incomodar me fortalece como mulher. Possessivo como ele só. Se andamos na rua juntos ele (com uma certa prudência) pega com força na minha mão toda hora com medo de que me levem dele.

Coincidentemente, também curte um samba. Quando Nelson saía, não sei se é falta de respeito e sinceramente, cansei de me preocupar com isso, mas eu e meu novo amor ouvimos alguns CDs da coleção de meu marido em que rola um  ziriguidum. E como nos divertimos, meu deus. Quando nos conhecemos, Nelson trabalhava embarcado e nos quinze dias em que ele ficava na plataforma, que se dane o que vão pensar de mim, mas eu pensava se deveria chamar o meu novo amor para dormir ao meu lado. Quando eu não resistia, ele vinha sorrindo sempre e dormíamos abraçados a noite toda.  As amigas diziam que eu estava cometendo um erro pelo qual me arrependeria pelo resto da vida, que isso poderia causar danos irreversíveis ao meu casamento, como realmente aconteceu, mas eu simplesmente não conseguia fazer diferente e de nada me arrependo. Pois...

Meu novo amor... ah, meu novo amor perde com magnificência e um certo charme todos os meus marcadores de texto. Bagunça a minha vida. Totalmente irresponsável, me liga no meio de uma reunião para falar bobagens. Jamais pegou elevador sozinho. Toma banho comigo sempre quando Nelson não está em casa, anda pelado pelo quarto quando estamos sós para se exibir para mim e ainda me pede para eu cortar as suas unhas. Completamente sem noção e eu não consigo não achá-lo divertido.

Parece que gosta que eu cuide do corpo dele e de seu asseio. Mas também fica horas lavando as minhas costas, já lambeu muito meu joelho e sempre foi louco pelos meus seios. Agora anda com mania de olhar para meu corpo nu e fazer perguntas que me deixam um pouco constrangida. Pergunta-me porque uso maquiagem e diz que eu fico linda de qualquer jeito. Desmancha meu cabelo. Beija as minhas pernas e faz barulho com a boca no meu umbigo.  E eu rio como as que já não respondem mais por si.

Não sabe dirigir e adora andar de trem. Como todos os homens, gosta de futebol e de videogame. Um menino praticamente. Aliás, tenho que confessar...ele é bem mais novo que eu. Já tive vergonha por isso, mas superei. Faz bem para minha auto-estima.

Vaidoso. Não tem pelos pelo corpo. Não usa desodorantes. Não bebe. Corre todo dia. Tem uma alimentação toda balanceada. Olhos castanhos, cabelo pretinho e a pele bem clara. Lindo.

E, um detalhe mais íntimo, quando tem dor de barriga exige a minha presença ao lado dele. Eu o abraço, faço carinho na barriguinha lisinha, linda, canto uma musiquinha e tudo acontece. Ele pede sempre para eu limpá-lo de uma forma que eu não consigo dizer não. Problema universal dos que amam.

Tem um nome cujo significado para mim é bem apropriado: felicidade.

Nos conhecemos há cinco anos e o meu amor por ele só aumenta.

Yuki, meu filho, meu tudo.

J





sexta-feira, 27 de abril de 2012

Os Porões de Vovó



A minha avó reclamava de que noutros tempos, quando as moradias tinham jardins e não umas jardineiras, um quintal e não uma área interna...que havia um porão nas casas, túmulo dos objetos que não mais nos serviam. Os museus particulares de cada família. Hoje - dizia minha avó queixosa há trinta anos atrás - no máximo temos um baú e toda a nossa história tem que caber nele! O espaço e o tempo dedicados para as recordações tem diminuído com o incansável rotacionar do nosso planeta, constatava vovó receosa com o meu futuro.

Vai que o medo de dona Anna tenha sentido... Pensando bem, há poucos anos atrás, por exemplo, quando não havia os celulares, tínhamos sempre uma agenda telefônica onde guardávamos, é claro, os números de telefone das casas de nossos amigos, parentes, médicos e quem mais fosse pintando pela nossa vida. Essa agenda assim como nós, com o passar do tempo, acabava rápido, mas no caso do bloquinho cheio de nomes e de números o problema se resolvia facilmente: era só comprar um novo.  Aqueles menos apegados à organização, enquanto não comprassem uma agenda mais moderninha, usavam o espaço das últimas letras para os joões em excesso na vida. Havia, então, o momento não raro e quase que ritualístico de “passar a agenda a limpo”. Enganam-se, porém, aqueles que acreditam que essa era uma simples tarefa que exigia tão pouco raciocínio e que causasse tão pouca emoção como o apertar de um control C seguido de um control V. Não, meu querido e jovem leitor que só troca o chip de celular. Às vezes parávamos com a caneta na mão e olhávamos para o céu ainda que dentro do nosso quarto. Será que devo passar o Beto para a nova agenda? Puxa, doutor Clodoaldo morreu, gostava tanto da secretária dele... Caramba... o Eric...! Como será que ele está? Ele tinha a voz tão bonita... Eram tão comuns essas travas que havia até quem ligasse para um amor devidamente não correspondido usando a desculpa de que estava passando a agenda a limpo e... bem, se lembrou dela por acaso e resolveu dar uma ligadinha. Mas o engraçado, é que voltando o olhar novamente para as duas agendas, a velha e a nova, decidíamos, mesmo diante da certeza de que jamais ligaríamos de novo para o Anderson ou para a Aninha, que ainda assim eles iriam para a nova agenda. Simplesmente pelo fato de que ao olhar para aqueles nomes éramos remetidos a algum passado com açúcar. Um pretérito perfeito!, cuja lembrança valia a pena sentir pelo futuro afora. E, acreditem!, fazíamos isso sem ao menos sentirmos uma mágoa ou sofrermos pelo fato dessa doce recordação não ter tido o potencial de se tornar presente (Ainda que no fundo, bem lá no fundo, somente por sermos perversos, perguntássemos “ E se...?”).

E era assim que por apenas ter nos dado um bom e duradouro instante de ternura, de desejo, de saudade... que um determinado nome possuía uma força própria que nos dava uma pequena e absurda pena de deixá-lo simplesmente ali na velha agenda. 

Os tempos são outros, mas os sentimentos permanecem os mesmos. Há hoje os celulares com chips e o facebook. Resgatamos no meio dessa desarrumação feroz da vida os amigos de infância e da adolescência. Não negamos os ‘pedidos de amizade’ daquela amiga que te ensinou a dar um laço no tênis na escada da cantina. Agora, no entanto, essa imagem dentro de nós co-habita com as fotos dela na Disney, em Londres e na Lapa, com o cabelo de uma cor diferente, e com seus dois filhos calçados com sapatos de velcro. E, diante a necessidade imperiosa da distração que me obriga checar o facebook, certifico, com o mesmo temor de vovó, a força do impacto da suavidade de suas fotos, meu velho amigo, contra a minha memória. Tenho a impressão de que, caso não tenhamos um certo cuidado, ‘reencontrar’ pode se tornar um sinônimo de ‘perder’ e mesmo que ganhemos muito nesse reencontro virtual, o proveito não compense. O problema é que entre acompanhar o seu presente e fazer parte dele há uma pequena diferença. E que entre 'ver e ser visto' e 'lembrar e ser lembrado' essa desconformidade se agiganta e dependendo do tamanho pode ser fatal.

Eu agora, cheia de cronologia,  me pergunto se o futuro que vovó temia era esse. Falo isso porque no passar a limpo das agendas, imaginava eu, de vez em quando, que em algum lugar do mundo havia alguém que naquele determinado momento estivesse também pensando com a caneta em riste se o meu nome merecia ou não ser passado para a nova agenda. Se havia por Deus ao menos uma hesitação...ou quem sabe uma curiosidade: A Elika... por onde andará essa menina? Essa flor de maracujá? Eu não pensava somente nos amores avassaladores da minha adolescência, mas também nas amizades que outrora foram verdadeiras e que jurávamos até que seriam para sempre. Imaginava meu nome sendo escrito e ufa! Que alívio... O que devo fazer hoje para que meu nome merecesse esses segundos de reflexão de todos que me rodeiam? Eu, cheia somente de adolescência, pensava e pensava ... Sim, fazia sentido a minha preocupação!, porque ainda hoje ao abrir uma gaveta onde guardo um tanto assim de papéis e cartas escritos pelos amigos percebi como alguns ainda vivem intensamente dentro de mim. E, assim como cada um de nós morríamos um pouco quando alguém, no tempo e na distância, perdia o ímpeto do pensar em nós e jogava o nosso nome no lixo com a velha agenda (deus me livre...), será que não estamos nos matando por tanta exposição sem reflexão? sobrepondo tanta atualidade à saudade?

Quanta bobagem vovó até hoje me faz pensar.





domingo, 18 de março de 2012

Para Sempre Meninos


Apesar de muitos falarem que consideram um amigo como um irmão, nós, possuidores reais desse título de fraternidade, sabemos que no fundo não é a mesma coisa. Irmão é irmão. Não está ligado ao fato de "ter que ser o nosso melhor amigo". Ainda que tenham personalidades bem diferentes, que não se suportem e que você prefira manter certa distância, dois indivíduos quando educados exatamente pela(s) mesma(s) pessoa(s) estão unidos de uma tal forma que os fazem imprescindíveis na vida e na personalidade do outro. Esse amálgama ainda que seja ódio é o verdadeiro ‘amor fraterno’. Se for mesmo feito de amor e os irmãos tiverem sido criados na mesma ninhada, juntos e solidários ah... aí é capaz de perfumar fotografias!E foi esse perfume que fez cócegas ainda a pouco em meu coração a ponto de me fazer gargalhar e escrever.



Abri um álbum antigo na estante e transferi-me para aquela dimensão que  frequentamos sempre acompanhados mas que não nos permite levar nada do que temos no presente. Fui atingida por uma rajada de saudades ao ver a minha infância em preto e branco e dediquei-me a refletir sobre algo...e mais uma vez cá estou eu no topo da montanha olhando o horizonte pensando sobre como a minha vida sem os meus irmãos seria muito menos interessante.


Os cabelos podem ficar brancos, as rugas podem ter 'feito residências em nossos rostos', mas se temos pelo menos um irmão, haverá sempre um lugar dentro da gente em que seremos eternamente meninos. Ainda que a relação esteja longe de ser igual a uma planície serena e sim, cheia de altos e baixos esse amor jamais se desloca para uma área de risco – para onde vão sempre os outros tipos de amor. Frases inteiras são desnecessárias, pois o entendimento se dá muitas vezes pela troca de um sorriso que sabe lá - sabemos somente nós - que longínquas lembranças aquela troca de olhares desenterrou. E a despeito dessa tal natureza humana que é tão pérfida e traiçoeira, o amor de irmão nem sequer precisa ser verbalizado e ainda assim permanece evidente. Eles sabem sem sombras, faíscas e nódoas de dúvidas, e ninguém precisa ficar reafirmando nem em emails, nem em redes sociais públicas, nem em telefonemas, nem em blogs!, pois somente as coisas abaláveis precisam dessas evidências.


Certamente, mais pobre, mais amarga, mais só e menos Elika eu seria sem eles, os meus outros takimotos. Como viveria sem todo esse tesouro lapidado pelas horas aromáticas na infância e na adolescência que só nós, os irmãos, os nascidos em tempo hábil da carne de mãe e pai, sabemos onde está enterrado?