Mostrando postagens com marcador Crônicas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônicas. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A Falsa Rainha

Desenho feito pelo artista Sergio Ricciuto Conte.

No início deste ano, resolvi tratar as minhas fortes enxaquecas. Estava aberta à qualquer tipo de tratamento a despeito de minhas crenças. Acupuntura, lobotomia, shiatsu, pilates, chá de erva amarga, reza forte, banho de pipoca,...qualquer coisa contanto que me tirasse a dor. Acabei mesmo me resolvendo pelo lado tradicional. Postei no feicebuque que sentia dores, muitas dores, dores horríveis!!!, e pedi sugestões dos amigos conectados. Em menos de um minuto, um amigo de escola da época em que eu lia e achava bom Paulo Coelho, respondeu-me prontamente fornecendo um número de telefone para eu entrar em contato.
Não vou me estender muito aqui contando o nosso estranho reencontro, depois de bem, quase vinte anos sem nos vermos e nem ao menos trocar uma palavrinha nesse intervalo que apesar da dimensão tenha sido efêmero por distração. Apenas farei uma pequena observação do tamanho de um só parágrafo. É costume universal quando vemos uma criança depois de um certo intervalo dizer “Nossa! Como ele cresceu!”, por ficarmos realmente assustados menos com o desenvolvimento da criança do que com o constatar do passar do tempo que ocorre para nós; também. Algo mais, porém, ocorre quando reencontramos amigos de infância quer ele tenha virado padre, professor, político ou quer tenha se transformado em um doutor. Percebemos a transformação externa, mas não conseguimos ver um adulto como um outro qualquer na nossa frente. Ao vivermos esse reencontro, não há cabelos brancos e rugas residentes em nossos rostos que nos impeçam de enxergar o menino que ainda é e sempre será, para nós, o amigo reencontrado. Por outro lado, somente nesses reencontros percebemos também que há um lugar dentro da gente em que seremos eternamente infantis. Ver, então, uma criança de jaleco, medindo a minha pressão, auscultando o ritmo das minhas sístoles e diástoles, e olhando a minha íris com uma lanterninha supimpa foi uma experiência que exigiu manobras psicológicas que ninguém havia me ensinado. Enfim, a minha sorte é que Leonam era do tipo "cê-dê-éfe", ou para usar uma linguagem mais atual, meganerd. Sentava-se sempre lá na frente na sala de aula e não me dava lá tanta atenção naquela época. Vi isso como algo extremamente positivo e procurei só pensar durante a consulta em quanto ele sempre soube mais do que eu. Esse manejo mental evitou que eu pegasse aquele estetoscópio e dissesse para ele “agora é a minha vez de ver como você está!”.
O ponto que me fez vir aqui hoje é que Leonam, ou melhor, o doutor Leonam permitiu-me, sem querer, um outro tipo de viagem. Ele percebeu que a causa das minhas dores de cabeça era minhas noites pessimamente dormidas. Para tanto, prescreveu-me uma pílula mágica que alguns minutos depois de ingeri-la temos o sono dos deuses. E se eu já sonhava antes por madrugadas afora, agora por elas adentro ando vendo filmes de longa metragem projetados, diria Freud,  na tela do esconderijo secreto: o inconsciente. As dores passaram, mas ao custo de toda manhã eu ter que me olhar no espelho depois de tudo o que me é revelado. Como ocorreu na alvorada de hoje.
Sonhei que ia por uma rua bem íngreme sob a luz da lua cheia, quando a uma curva do caminho dou de cara com um casarão tipo um castelo por onde orbitavam morcegos. As luzes estavam todas acesas de forma que eu poderia ver o que se passava lá dentro. De longe parecia uma festa, de perto, uma orgia. Corpos seminus dançavam freneticamente, gargalhadas estridentes, espadas de brinquedo em riste e chapéus de Napoleão. Não era uma festa. Não era uma orgia. Tratava-se de um hospício. Sozinha,  prontifique-me de sair de lá o mais rápido possível quando de repente, não mais que de repente, surge à minha frente vindo do alto, talvez de uma árvore, um homem pensando estar vestido de homem-aranha. A máscara nada mais era do que uma cueca vermelha onde no buraco das pernas viam-se olhos esbugalhados. Ele ficou naquela posição com os joelhos dobrados e as pernas arreganhadas, uma palma da mão apoiada no chão, o pulso da outra apontando na minha direção. Queria me agredir, mas não sem antes, aparentemente, prender-me com uma teia. Era um louco fugido e eu estava em pânico. Ocorreu-me, então, uma ideia salvadora:
       - Como ousas a interromper o curso de uma Rainha? Fique de pé e volte de onde veio antes que eu mande os cavaleiros das... os cavaleiros das... os cavaleiros das Tilápias te prenderem!
      O maluco imediatamente cumprimentou-me, tal como saudamos uma majestade: curvando-se  e de cabeça baixa, gesto natural dos submissos. Isso feito, saiu pulando em direção ao castelo passando pelos ramos altos que saiam de troncos lenhosos. Comecei a rir no sonho, mas ri tanto e tão alto que o barulho rompeu a barreira onírica e materializou-se nos tímpanos de meu marido que imediatamente acordou e ficou me olhando assustado. Achando que eu estivesse sofrendo, despertou-me acariciando cautelosamente o meu colo.
      Tivesse eu ainda na terapia, ouviria que a doida que existe em mim é trazida num regime altamente rigoroso tal qual uma monarquia. O espelho que fala sem firulas o que vê disse-me que o diabo será o dia em que ela, a doida, descobrir que eu não sou rainha nenhuma. 
     A doida que existe em mim... os doidos que existem em todos nós...Olhando para todos que me rodeiam percebo que a civilização não é passível de sucesso dado que todos nós sequer conquistamos um mínimo de equilíbrio emocional sem muito esforço. A Bíblia já nos diz isso há séculos de forma simbólica. Perdemos no pecado a condição de sermos racionalmente harmoniosos, somos proibidos de ter a visão do paraíso.
        Continuando a olhar a mulher descabelada e com olheiras no objeto de vidro e de metal bem polido, percebi que a doida que existe em mim é responsável pelas emoções mais puras que a vida me deu. É ela, essa descompensada oligofrênica de cabelos  longos e alvoroçados, portadora de um vestido branco, curto e todo rasgado, usando um chapéu grandão cheio de adereços e que vive descalça, que vira e mexe salta de dentro de mim e grita sim! num  momento em que meu ser civilizado, com calças sociais, blusinhas fru-fru e sapatos scarpins ameaça a dizer não a alguma aventura. Foi essa doida quem se apaixonou inúmeras vezes pela mesma pessoa e permitiu que um outro, amado somente uma, fizesse-lhe o primeiro filho. Foi ela quem chorou quando criança, debatendo-se e assustando os vizinhos, a perda de um preá . Foi ela quem negou Jesus Cristo, o único homem equilibrado e perfeito que jamais existiu na face da terra, por temer o mesmo fim. É essa doida que não adormece dentro de mim e que, por isso, nunca me deixou ter uma noite completa de sonos, pois, sempre me desperta ao ficar reivindicando aos gritos, muito antes do amanhecer, o direito de correr contra o vento. Essa louca contida, refreada, domesticada, enrustida e subjugada é o legítimo sustentáculo da minha verdadeira personalidade, é a medida da minha condição feminina, heroína e pobre-coitada, branca por necessidade, santa para tantos por tanta obtusidade, soldado obediente, mas que um dia há de revoltar-se contra toda essa conveniente disciplina e libertar de vez de toda essa loucura quando descobrir que nunca fui e que jamais serei uma Rainha.
         As dores de cabeça praticamente não existem mais e creio que ao parar de tomar o remédio elas não voltarão, pois a pureza de minha debilidade, antagonicamente poderosa pela sua fragilidade e pela sua força, está perto de ser coroada com flores, de ser adornada com bijuterias e de ir para as ruas saltitante, orgulhosa do que vê todas as manhãs naquele que reproduz nitidamente as imagens que o defrontam.




domingo, 18 de março de 2012

Para Sempre Meninos


Apesar de muitos falarem que consideram um amigo como um irmão, nós, possuidores reais desse título de fraternidade, sabemos que no fundo não é a mesma coisa. Irmão é irmão. Não está ligado ao fato de "ter que ser o nosso melhor amigo". Ainda que tenham personalidades bem diferentes, que não se suportem e que você prefira manter certa distância, dois indivíduos quando educados exatamente pela(s) mesma(s) pessoa(s) estão unidos de uma tal forma que os fazem imprescindíveis na vida e na personalidade do outro. Esse amálgama ainda que seja ódio é o verdadeiro ‘amor fraterno’. Se for mesmo feito de amor e os irmãos tiverem sido criados na mesma ninhada, juntos e solidários ah... aí é capaz de perfumar fotografias!E foi esse perfume que fez cócegas ainda a pouco em meu coração a ponto de me fazer gargalhar e escrever.



Abri um álbum antigo na estante e transferi-me para aquela dimensão que  frequentamos sempre acompanhados mas que não nos permite levar nada do que temos no presente. Fui atingida por uma rajada de saudades ao ver a minha infância em preto e branco e dediquei-me a refletir sobre algo...e mais uma vez cá estou eu no topo da montanha olhando o horizonte pensando sobre como a minha vida sem os meus irmãos seria muito menos interessante.


Os cabelos podem ficar brancos, as rugas podem ter 'feito residências em nossos rostos', mas se temos pelo menos um irmão, haverá sempre um lugar dentro da gente em que seremos eternamente meninos. Ainda que a relação esteja longe de ser igual a uma planície serena e sim, cheia de altos e baixos esse amor jamais se desloca para uma área de risco – para onde vão sempre os outros tipos de amor. Frases inteiras são desnecessárias, pois o entendimento se dá muitas vezes pela troca de um sorriso que sabe lá - sabemos somente nós - que longínquas lembranças aquela troca de olhares desenterrou. E a despeito dessa tal natureza humana que é tão pérfida e traiçoeira, o amor de irmão nem sequer precisa ser verbalizado e ainda assim permanece evidente. Eles sabem sem sombras, faíscas e nódoas de dúvidas, e ninguém precisa ficar reafirmando nem em emails, nem em redes sociais públicas, nem em telefonemas, nem em blogs!, pois somente as coisas abaláveis precisam dessas evidências.


Certamente, mais pobre, mais amarga, mais só e menos Elika eu seria sem eles, os meus outros takimotos. Como viveria sem todo esse tesouro lapidado pelas horas aromáticas na infância e na adolescência que só nós, os irmãos, os nascidos em tempo hábil da carne de mãe e pai, sabemos onde está enterrado?








segunda-feira, 5 de março de 2012

Ah, eu queria tanto...


Eu queria postar algo tão engraçado no facebook que aquele meu amigo que está sozinho do outro lado naquele seu mundo cinza quando lesse a minha postagem risse, mas risse tanto que chegasse a chorar e  que ele mesmo ficasse admirado ouvindo sua gostosa gargalhada, e depois falasse para si próprio “meodeos, que coisa mais engraçada!”.  E, então, ele esquecesse um pouco da tristeza e fosse contar a minha historinha para a empregada. Ah, que minha história fosse como uma banana-split, irresistivelmente doce, colorida e tão bonita (que tem gente que até fotografa antes de comer) que depois de  prová-la, a vida de meu amigo tão recolhida, encarcerada e enuviada viraria pelo avesso. 

E que um marido que estivesse em casa mal-humorado, aborrecido com a mulher... que ele também fosse atingido pela minha postagem. O marido veria a minha “atualização”, leria e começaria a rir alto. A esposa, em outro cômodo, sorriria pensando que o seu amor finalmente compreendeu que tudo aquilo era uma grande bobagem. E ele a chamasse para mostrar a tela do computador onde tivesse algo de minha autoria. Ela inicialmente decepcionada pensaria em voltar para o quarto, mas ao dar as costas mudaria de ideia ao ouvir o som das risadas de seu marido. E que ficassem os dois rindo mais um pouco, e ao ouvir o riso do outro se lembrassem, então, dos tempos em que se apaixonaram quando riam sempre bem alto e tão juntos, e recuperassem os dois a alegria que o cotidiano cisma em tirar da gente.

Que o tempo que não passa nas salas de espera fosse insuficiente para o paciente mostrar a todos, que também estivessem impacientes, o que eu havia postado. Que uma mãe, aborrecida com seu filho o liberasse do castigo e lhe dissesse “por favor, se comporte! Eu te amo!” depois de ter lido a minha história super engraçada e o filho se comportasse porque queria ver a mãe alegre para sempre. Que no metrô lotado a minha postagem servisse para fazer do desconhecido, que te espreme e te incomoda, um novo amigo, pois ele não conseguiria não rir alto ao ver, pelo seu ombro, o que eu havia colocado no facebook, e sempre que vocês se encontrassem de novo caíssem na gargalhada só de lembrar como a amizade começou. Que as dores crônicas fossem curadas de tanta endorfina liberada ao verem o que eu fiz. Que os pastores, fascinados pela graça de minha obra, respeitassem seu rebanho. Que os patrões tratassem melhor seus empregados, que mais livros fossem abertos, que as farmácias falissem e as favelas fossem pacificadas porque todos que rissem muito lavariam sua consciência com as lágrimas de alegria que a minha postagem proporcionaria.

E que ao ser tão compartilhada, a minha atualização de status fosse traduzida por tradutores on lines diversos para línguas que nem sabemos que existem. Que um árabe qualquer arrancasse a burca de sua esposa só para conferir o seu sorriso quando ele lhe contasse o que alguém no Brasil escreveu. Que o frio da Alemanha e dos alemães fosse minimizado e mais cervejas fossem tomadas em uma alegre homenagem à besteira que eu havia inventado.

E quando me perguntassem por que eu escrevi aquilo eu desconversaria para esconder a triste verdade: que passei horas matutando uma forma de rapidamente reverter o desalento daquele amigo que anda compartilhando músicas lentas demais, fotos estranhas, que não consegue curtir mais nada e não se anima nem mais com as sextas-feiras...




domingo, 26 de fevereiro de 2012

Genealogia


Ela já era adulta quando eu havia nascido, mas ainda assim foi a minha grande companheira na infância. Enchi, muitas vezes, meu pequeno regador amarelinho para dar de beber à minha amiga.  Nunca brigou comigo nos momentos em que gravava meu nome, à ponta da faca - pega no piscar de olhos da mamãe -, em sua pele. Sabíamos que era uma coisa dolorosa, mas necessária, pois as grandes amizades são seladas sempre com algum ritual super macabro. Foi bem embaixo de seus olhos que papai enterrou Pituca, meu porquinho da índia de muita estimação e foi em seus ombros que eu chorei de soluçar.  Aquela mangueira cresceu bem antes de mim e foi em sua sombra que passei os anos mais lentos e ingênuos de minha vida. 


Havia uma piscina de plástico no nosso quintal. Eu mergulhava de olhos abertos com eles virados para o céu e ficava observando - até quando os pulmões aguentassem - aquela cabeleira verde refratada, borrada e muito engraçada. De vez em quando mamãe mandava cortar aquela juba verdejante. Vinham uns homens com escadas, serras, cordas e luvas. Deixavam o quintal coberto de galhos que nem ficava assim de cabelo o chão do cuafer da Ivonete, ali na esquina. Minha amiga usava um corte parecido com o do Michael Jackson quando era criança.

Em um de seus fortes braços, onde papai pendurou duas cordas e fez um balanço, ela não se cansava de me ver oscilar para lá e para cá e posso jurar ainda hoje que era ela quem algumas vezes me balançava. Acho até que posso jurar  mais um pouco. Eu pulei muita corda quando criança porque enquanto ora eu ora a Tata girava a corda numa extremidade, na outra era ela, a mangueira, quem segurava durante o tempo em que ora Tata ora eu pulava no meio cantando assim: Um homem bateu em minha porta e eu aaa-bri. Senhora e senhores, ponha a mão no chão (e a gente colocava a mão no chão muito rápido mesmo enquanto a corda estava passando lá no alto). Senhoras e senhores, pule num pé só (daí a gente pulava só com o direito, só com o direito!!! (agora percebo a falta de sentido e concordância na música)). Senhoras e senhores, dê uma rodadinha (bem, vocês já entenderam) e vá pro olho da ruuua-aa-aa! E quem fosse pro olho da rua direitinho podia fazer tudo de novo. Quando era a Tata a colocar a mão no chão a corda às vezes girava mais rápido. E eu jurava que não era eu.

Com um coração que não cabia no tronco, se preocupava muito em segurar os ninhos bem direitinho como as crianças seguram os pintinhos. E como aqueles que usam o indicador como um galho onde pousa um passarinho ou uma joaninha, ela vinha me mostrar os morcegos que dormiam de cabeça para baixo segurando bem firme em uma de suas ramificações. Sabe aquelas avós de antigamente que faziam biscoitos para nós, os seus netos? Então, a minha amiga, espelhando-se nelas, preparava com carinho as mais deliciosas mangas-espada que jamais comi igual em minha vida.

A mangueira ficou doente quando eu já estava formada e casada. Meus pais, que ainda moram na mesma casa, tiveram que mandar cortá-la antes que ela caísse de tão fraca que estava. Hoje vim aqui visitá-los e colocar um pouco Yuki na piscina  (agora de fibra) e ao ver o quintal iluminado por esse Sol que castiga o Rio e a nossa pele no verão, lamentei profundamente como os que perderam um ente querido. Yuki teve que esperar até que o astro-rei baixasse um pouco a bola.

Dei por mim que nunca mais as cigarras cantaram na casa de mamãe. Os pardais, as rolinhas, as maritacas, os bem-te-vis e até os morcegos  que sobrevoavam o meu quintal por uns tempos  assim que a árvore - não mais tão bela - foi cortada, parecem que perderam a esperança. Não vi mais ninguém adejando por aqui  hoje. 

Certifico-me nesse ar severo, quase triste, que todos nós morremos um pouco na sua ausência, minha saudosa amiga.



----------------------



Se esse texto te agradou, você pode gostar também de:




quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

"Serei sempre seu confidente fiel se seu pranto molhar meu papel."




Enfim, tudo organizado.

A obra de um terraço que começou em maio do ano passado e que deveria ter acabado em dois meses se estendeu até janeiro deste ano. Não vou cansar o leitor com os percalços dessa empreitada e muito menos lamentar o prejuízo que tive. Quero apegar-me a essa sensação boa de completude que me fez largar um pouco o trabalho e escrever... 

A primeira coisa que fiz assim quando a obra efetivamente começou foi esvaziar o meu escritório e levar toda a minha biblioteca para a casa de papai. Quando eu quero proteger algo muito precioso ajo sempre dessa forma. Isso me custou um dia inteiro de trabalho e três viagens com o carro arriado de tantas historias, álbuns, filosofias, física, contos e poesias. Esvaziei todas as prateleiras e um armário na certeza que em dois meses teria toda a minha biblioteca de volta e um terraço pronto. A construção, porém, se estendeu por oito meses e o meu mal estar começou a aumentar exponencialmente com o passar dos dias por estar vivendo numa casa sem livros e sem passado, pois, tudo o que existe nesse mundo que conte parte da minha história em letras ou em imagens estava na casa dos meus pais.

Em janeiro, grazadeus, fim de obra. Comecei o ano organizando aos poucos o escritório. Meus amigos não entendem porque não me desfaço dos livros que já li e certamente chamariam-me de louca ao ver alguns cadernos que usei ainda na adolescência mantidos sob os cuidados de um armário que se mantém sempre fechado. Ao fazer essa “mudança” mais uma vez percebi o quanto sou incapaz de aliviar o peso das prateleiras das minhas estantes ou aumentar o espaço do móvel do escritório onde guardo alguns registros feitos por mim e também alguns rabiscos feito pelas crianças.

Manusear esse tipo de material é muito diferente de arrumar um cômodo qualquer da casa. Gastei dias separando meus livros conforme o assunto, o autor e a minha idade ao abri-los pela primeira vez e deixei para a última viagem as brochuras preenchidas com a minha letra. 

Engraçado. Às vezes guardamos coisas que sabemos que não terão mais nenhuma utilidade para a nossa vida a não ser... olhá-las de novo. E de alguma forma (que não tem nada ligado à praticidade) apegamo-nos a elas. Quem sabe porque ainda é permitido guardar uma lembrança boa e até uma leve tristeza que de tão leve consegue ser bonita a sua maneira; ou ainda, conceder a nós mesmos alguns minutos para confessarmos que sentimos saudades. Recordar um momento é também compreender que devemos ser felizes igualmente naquele instante, pois aquele instante também passará. Assumir a nostalgia é nos dar conta que houve momentos perfeitos que passaram, mas que não se perderam e se a lembrança deles tornar maior a nossa solidão que seja uma solidão menos infeliz.

A coisa poderia ter sido assim bem racional e equilibrada se Chico Buarque não tivesse nascido e a vida não estivesse passando tão rápido e se abrindo realmente num feroz carrossel. Diante de tantos livros e cadernos que jamais serão esquecidos num canto qualquer, cantei.  E foi assim, ao som desafinado de minha voz cantarolando “O Caderno”, entre muito pó, fungos e lágrimas que consegui organizar todo este cômodo da casa. 

Cá estou eu agora. Mais calminha. Queria no início desse texto justificar porque estou me sentindo tão bem vendo as paredes coloridas com os meus livros e um armário grande, denso e fechado. Mas que bobagem a minha, não? Coisas assim simplesmente são.

(Sem nenhuma explicação).








terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Feliz Ano Novo!!!



- Adeus Ano Velho!
- Feliz Ano Novo!!!

Já que os antigos diziam que fazer a barulheira é fundamental no início de um novo ciclo para despachar os maus espíritos para os cafundós do além, eu que não sou boba de ser racional nessa hora e não encarar a meia-noite de 31 de dezembro como um recomeço. Vou fazer o que faço de melhor: um furdunço daqueles para garantir que nada me falte e para afastar qualquer alma penada mal intencionada que me ronde. E essa é a hora que ninguém me reconhece porque sigo todas as crendices que estiverem ao meu alcance e apego-me a qualquer santo que estiver passando na hora. Oxalá, Jesus! Namumyouhourenguekyou! E aí, meu irmão, sai de perto e me deixa surtar em paz.

Felizmente somos otimistas, pelo menos nos últimos dias do ano.  Ainda bem que não paramos para meditar que na verdade não existe o Ano Bom, pois além de tudo não passar de uma convenção que se diferencia e muito ao longo do globo terrestre, 2012 será um ano como outro qualquer onde o que nos aborrece continuará nos tirando dos eixos e certos obstáculos persistirão intransponíveis.

Depois - ou mesmo antes, - os votos que fazemos a nós mesmos...afe... As metas que estabelecemos deslumbrando um futuro mais produtivo e mais magro, caloricamente falando, começam inutilmente a serem enumeradas. Nesse ano eu vou... Fôssemos nós mais realistas não perderíamos tempo com esses desvarios, pois dos quilos que já possuímos com sorte outros não serão acrescentados e dos planos de cada um pouquíssimos serão aqueles que irão se concretizar.

Mas esse tipo de pensamento não é nada acalentador, não é humano, deprime, enlouquece e não é a minha praia. Então, sublimemos esse amargo discurso. Não vamos abafar nossos sonhos e vamos nos dar sempre (pelo menos uma vez por ano e quando ele se encerra) uma nova chance!

-  Feliz Ano Novo!
-  Pra você também! Tudibom!!!


Desejamos o bem com exclamação porque assim manda a tradição. E fazemos nós muito bem em respeitá-la em prol do nosso humor. Enviamos votos de felicitações àqueles que amamos e àqueles que nada representam para nós porque imediatamente os recebemos de volta e as palavras tem poder! Acreditar que o ano que está entrando será um ano feliz, tal como acreditamos no dezembro do ano passado, faz um bem danado. E se este ano não foi um Feliz 2011, a quem importa agora? Passou. No mais, nada impede aos que nele se esbaldaram como, por exemplo, os corinthianos, de nos desejarem dias mais retemperados ainda. E lá vamos nós abarrotados de boas intenções distribuir abraços e sorrisos para quem está ao nosso lado e bons augúrios para todos os amigos do facebook e da nossa lista de email.

-  Que todos os seus desejos se realizem!!!
-  Os seus também!!!


Da minha parte, estou disposta a esquecer todo o prejuízo que tive por conta de uns malditos pedreiros que contratei em Maio para fazer um terraço aqui em casa. Ficarei somente com a lembrança do Luciano, o primeiro profissional que reveste muro que eu vi lendo na vida e que ficou emocionado diante à minha biblioteca que nem é lá grandes-coisa. Estou planejando muito para o ano vindouro, mas nada impossível. O de sempre. Miguel Pereira em Janeiro, fantasias para Fevereiro, me preparar para as águas de Março... Que possa eu continuar a fazer novamente o que venho fazendo já está pra lá de bom. Que não me falte o samba com os amigos, um bom livro para ler, inspiração para escrever, conversas para jogar fora, vontade de trabalhar, a cumplicidade no lar e o feijão com arroz para comer!

-  Saúde e paz!!!!
-  Pra você também!!!


E para que tudo aconteça nos conformes, há quem não me reconheça no último dia do ano. Tomo banho de arruda, encho a boca de lentilhas, visto-me com roupas brancas, coloco sementes de romã na carteira, troco as roupas de cama, imito índio do velho oeste, dou três pulinhos com o pé direito, subo degraus,  batuco na panela, ando igual chinês em círculos, me viro para Meca, como doze uvas, ponho seis moedas debaixo do tapete, recebo passe, peço a benção, canto pra subir e, finalmente, conto regressivamente bem alto quando o ponteiro dos minutos quase encosta no 12. Caraca! No 12!!! Essa virada promete...


FELIZ 2012, GENTE !!!



segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Defenestra-me?



Antigamente alguns homens olhavam com muita cautela e curiosidade, como fazem aqueles que sofrem de um amor platônico, alguma janela cuja fresta dava-lhes acesso à imagem de alguma moça interessante que se expunha de maneira descuidada. Seja na forma em que a jovem falava ao telefone com as pernas estendidas na cama e que de tempo em tempo levantava uma delas e ficava naquela posição em que as senhorinhas se bronzeiam deitadas sobre uma canga na areia da praia. Seja na forma em que a moça fazia as unhas do pé no sofá de sua sala enquanto via a novela das sete. Ou seja na forma em que escolhia um vestido para ir a alguma festa. Lá estava um apaixonado por esses gestos a observar na espreita a moça à distância de dois prédios. E quando a luz do banheiro se acendia...aaahh, ele ficava atordoado em seus devaneios com a demora do banho e via, em sua imaginação, a mocinha contraindo músculos que ela jamais sequer proferiria.

(Falo somente dos homens porque não faltam nesse mundo das letras poetas e cronistas machos e tarados que colheram da janela da frente inspirações para sua arte. (Mesmo porque homens no banheiro ou vendo televisão, nem nos dias de hoje, inspiram as mulheres para coisa alguma, ainda mais para a arte)).

Mas agora as ventanas são diferentes. Com a invenção do facebook as janelas observadas são as atualizações de status que fazem muitos apaixonados se assemelharem com os de outrora que incitavam a apetência munindo-se com binóculos e até lunetas quando clicam hoje, também no seu anonimato, uma imagem para ampliá-la e contemplá-la como fazemos diante de uma escultura. Embora os tempos sejam outros, os sentimentos permanecem os mesmos e os equívocos se equivalem. Da mesma maneira que uma senhora um tanto convexa do prédio da frente fingia-se irritada por achar que estava sendo espiada por aquele que tinha os olhos fixos na janela – que não era a dela,- não é raro alguém,  mergulhado nessa ilusão comum ao ego negligente, acreditar que está sendo admirado e sentir-se melhor e mais interessante. Por sua vez, assim como a moça de antigamente que enrolada na toalha, fechava a cortina não sem antes dirigir a vista para o 306 do edifício defronte - cujo morador desconhecia a sua existência, - existem aqueles que se expõem para uns e, sem querer, despertam a imaginação de outros. Colocam uma música para agradar os ouvidos de sua amada e quem 'curte' é outra pessoa.

Fosse Carlos Drummond vivo e estivesse antenado numa rede social, como eu estou de cá colhendo material para uma crônica, diante de tantos olhares desencontrados poderia ter escrito outra ‘Quadrilha’. João curtia Teresa que curtia Raimundo que curtia Maria que curtia Joaquim que curtia Lili que não curtia ninguém. João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes quem nem tinha entrado para o facebook.

Nem só de apaixonados e namoradeiras, porém, as janelas eram e são ocupadas tanto antigamente como nos dias atuais. Há aqueles que somente para espairecer olham, pelos buracos feitos nas paredes, o movimento da rua na esperança de ver algo interessante e se distrair com alguém lá embaixo fazendo algo excêntrico, de alguma pessoa reconhecer-lhe e oferecer-lhe um tchau animado pela coincidência de ambos estarem imersos em pensamento nenhum; de um amigo passar e balançar a mão fechada como um pêndulo apontando o polegar para a boca, gesto universal daqueles que tem sede. Ou ainda, para seu deleite, abrir e fechar os outros quatro dedos restantes mantendo o olhar fixo em você, acenando a necessidade de sua companhia.



sábado, 24 de dezembro de 2011

2012



Aos amigos eu desejo:


A cabeça fria, o pé quente e a mão na roda. A alegria presente, as roupas passadas, as crianças na escola, gavetas em ordem e paz na caixola!  Batucada bem batida, comida boa no prato, o trem no trilho, menos carros nas ruas, banhos de mar, pedalinhos na Lagoa; o Rio. Uma dança lenta e uma Internet rápida. A televisão desligada, o facebook na dose certa, a loucura extravasada.  O colesterol baixo, o salto alto, o misto quente e a água gelada. Atualizações de currículos, menos cecê, mais lá lá lá.


As palavras. O céu, o sol, o sim, a paz. A prosa, o café, o sonho, a rede, o gozo, a folia, o livro, a viagem. Bobiça, sanfona, varanda, paquera, cachaça, macumba, churrasco. Natureza, liberdade. Inteligência. O plástico-bolha.


Sobretudo, aos amigos eu desejo, a permanência.


Ao meu lado.




quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Out-ono



Precisamos buscar abrigo
Na estratosfera?
Porque vocês, verão
Nós? Primavera!







quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Fé na Kátia


Hoje Nara, minha filha de 13 anos, está fazendo prova final pela primeira vez na vida. Ao contrário de seu irmão mais velho Hideo que nem diante de uma possível reprovação perde o sono, Nara entrou em pânico e mesmo tendo estudado muito mais do que manda a cartilha, se julgou incapaz de tirar a mixaria de nota necessária para ser aprovada em matemática. Eis que uma novela mexicana fez-se presente em minha casa desde ontem com minha filha atuando no papel principal. Mãe, me ajuda. Mãe, tô desesperada. Mãe, vou morrrreeeeerrr. Jesuis... Nunca lidei com isso e não tinha a menor noção do que deveria fazer para melhorar a situação.

Atéia por parte de pai, não poderia recomendar que Nara orasse. Por falta de criatividade, reconhecimento, psicologia e quem sabe por falta de Deus eu falei:

- Afe, Nara, para de drama e vai estudar!

 Qual o quê...

- Mãe, eu já estudei tudo! Mãe, eu não sei nada! Mãe, vai me dar branco! Mãe, são 20 questões! Mãe, não vai dar tempo!  Mãe, isso! Mãe, aquilo! – Nara falava numa tal frequência que eu cheguei a temer pelos copos de requeijão aqui em casa.

- Vai ler Crepúsculo!  – Apelei.            

- Mãe, não consigo ler nada! Mãe, fala alguma coisa! Mãe, me acalma! Mãe, blá  blá blá... – e nesse frenesi ela teve um repente e se virou para mim e perguntou – Mãe, você ficava nervosa antes de fazer prova?

Caramba.  Só de pensar em prova me dá taquicardia. Até hoje fico desesperada. Choro. Vomito. Tenho dor de barriga. Ligo para minha mãe de cinco em cinco minutos. Tenho insônia e se durmo, pesadelo. Quando acordo desejo a morte.

- E o que você faz para se acalmar?- Perguntou-me curiosa minha filha, na esperança de encontrar com as minhas sábias palavras a cura para aquela exasperação.

- Ãh? Eu? Eu ligo pra Kátia.  

Kátia trabalhou como empregada doméstica na casa de mamãe e acompanhou toda a minha transformação de menina para mulher. Avisava-me quando mamãe chegava para eu sair do telefone e ir para o quarto correndo sentar-me à escrivaninha que estava cheia de livros abertos. Convencia mamãe a me deixar sair com as amigas mesmo sabendo que eu estava indo namorar escondido. Fritava um ovo e colocava no pão sempre que eu voltava da natação cheia de fome. Ouvia tudo o que eu tinha para dizer para meus namoradinhos antes de terminar o relacionamento com eles. Opinava sempre. Ensinou-me tudo o que eu sei sobre política. Fazia café fresquinho quando eu estava com dor de cabeça. Ensinou-me a não desperdiçar comida. Contava-me piadas sujas e pesadas... e mais um tantão de coisas Kátia fez por mim nessa vida, mas principalmente, em todas as provas que eu enfrentei nessa jornada, Kátia acendeu uma vela para mim e me dizia: “Fique calma, minha filha, a Kátia acendeu uma vela para você. Eu tenho certeza que vai dar tudo certo”. E nem havia mais necessidade de estudar depois disso. Era o lexotan que eu precisava e sempre foi assim.

Os anos passaram, casei-me, e Kátia veio trabalhar na minha casa.  Meu marido, porém, não suportou tamanha dedicação. Kátia se metia em tudo o que devia e não devia. Mandava na gente como se fosse um chefe brabo e surtava com a minha bagunça como sei lá, meu deus, vai entender a cabeça da Kátia...ela escondia tudo quanto é papel jogado pela casa entre meus livros e dizia que era para eu me disciplinar. Proibiu-nos de ter bicho de estimação. Se Nelson me tratasse com pouco carinho, mal ele dava às costas, ela vinha me convencer de que eu conseguiria algo melhor. Kátia não tirava férias porque dizia que amava botar ordem na minha casa e na minha vida.  Eu não sabia mais o que fazer com ela... Acabou que arrumamos uma outra casa para a maluca trabalhar e com uma boa desculpa e muito carinho consegui me desvencilhar desse afeto desmedido e deixá-la até financeiramente bem melhor do que quando trabalhava para mim.

A amizade, porém, continua até hoje e mesmo sem ser a minha empregada e termos perdido muito da convivência por conta disso, as velas da Kátia foram acesas, a meu pedido, em todos os concursos públicos que eu fiz e em todos os congressos e simpósios que eu já participei. E não exagero em dizer, que graças a ela eu cheguei aonde eu cheguei. Nos momentos mais tensos em que eu fui avaliada, antes de começar a falar ou a escrever, a imagem da Kátia acendendo a vela para mim, inexplicavelmente, me dava a paz necessária e que faltou para muitos dos meus concorrentes.

Nara ao ouvir toda essa história questionando se eu não havia tido sucesso porque sempre me matei de estudar e entendendo, ao longo da minha explanação, que o conhecimento é necessário mas, às vezes, não suficiente, pegou o meu celular e começou a ligar convulsivamente para Kátia. Ao perceber que do outro lado da linha o telefone tocava e ninguém atendia, Nara ficou mais nervosa. Eu, ainda desprovida de criatividade, psicologia e o diabo necessário para acalmar minha filha, mas percebendo que Nara não captou a história em sua plenitude, falei:

- Também não sei se ia adiantar no seu caso. A Kátia me ama e acho que isso é essencial para que a macumba funcione. – Abusei da sinceridade e a deixei pensando no quarto.

Hoje voltei do trabalho voando para dar tempo de levá-la para fazer a tal prova bem no meio da tarde. Ao vê-la entrar no carro em câmara lenta e com cara de paisagem sem poluição perguntei se ela estava pronta e preparada. Nara me olhou e disse seguramente que sim.  Contou-me que ontem mesmo, via skype, conversou com os primos de Florianópolis um tempão sobre essa história toda e hoje de manhã, Ian, meu querido sobrinho e afilhado, ligou aqui para casa e disse que ela poderia ficar tranquila. A vela havia sido acesa. Foi o que bastou para Nara recuperar a segurança e sobriedade.

E agora, enquanto minha filha está lá, super tranquilinha e confiante fazendo uma provinha de matemática cá estou refletindo sobre o quão sem importância é essa garantia de acreditar que entendemos alguma coisa. O quanto ‘viver ultrapassa qualquer entendimento’. E que poder incrível qualquer gesto de carinho tem em aquietar a nossa demência, não?


--------------

Se você gostou desse poderá gostar também de:
Dividindo pra Poder Sobrar




terça-feira, 29 de novembro de 2011

Pilares


Sempre me esquivei de lugares onde as perguntas não tem respostas claras e busquei freneticamente um chão firme para poder pular corda sem medo de que a Terra se deslocasse pela frequência e pela força do impacto de meus pés. Mas toda busca até agora tem sido em vão e isso tem me deixado um pouco cansada. Em cada canto que amarrei o meu bode o chão tremeu e o bicho escapou sem grandes dificuldades. Estressei-me com a religião por não responder de forma clara a nenhuma pergunta que eu fizesse, desiludi-me com a certeza da matemática após ter sido apresentada ao teorema da incompletude de Gödel que disse e provou ser impossível definir um sistema de axiomas completo que seja simultaneamente consistente. Por tabela, comecei a olhar de lado para a minha física uma vez que esta se assenta fortemente na matemática.  Agora o meu mamífero herbívoro ruminante cavicórneo está amarrado num curso de pós-graduação em Filosofia cujos solos sofrem terremotos constantes. Quando eu vou acertar, afinal? Se houvesse por essas bandas uma montanha dessas da gente subir e ficar lá no topo meditando sobre a vida, refletindo sobre nossas escolhas, buscando respostas para tantas exclamações, descobrindo o porquê de termos percorrido por esse e não por aquele caminho, eu juro que pagaria para alguém ir lá para mim para voltar com a resposta somente para essa pergunta.

Mas agora que eu falei em chão, lembrei-me de algo que ocorreu quando morava em Pilares. Para ter sido ali, eu tinha menos de quatro anos, não sabia ler e nunca sequer havia pisado numa escola. Na verdade meus pais tentaram algumas vezes, mas ao chegar à porta agarrava-me ao pescoço de mamãe e não havia diretora com sorriso falso que me tirasse daquele colo. Então não menti. Nunca havia ‘pisado’ mesmo numa escola. Quando Tata, minha irmã mais velha, saía de mala, mochila e cuia para o Jardim-Escola Pequeno Céu eu ficava brincando com alguns vizinhos sentindo-me segura e feliz por ter mamãe sempre à distância de um berro.

Havia chovido de manhã e o nosso quintal, uma área que era comum a seis apartamentos, estava ainda um pouco molhado com algumas poças d´água, pois, ao contrário do que parecia (e muitos juraram a mãe mortinha debaixo do trem), o chão não era reto retinho retão. No início da tarde, o céu, para a nossa felicidade e graças à simpatia de Carmem que desenhou seis sóis no chão e jogou um pouco de xixi em todos eles, abriu. Após o cochilinho depois do almoço, as crianças começavam a aparecer devagar e, nesse dia, eu fui a primeira a acordar e sair para brincar depois de beber o nescau.

Ao fitar uma poça rasinha, levei um susto. O céu estava no chão. Lá no fundo bem fundo mesmo do chão! Como podia isso estar acontecendo? Se o céu foi parar no chão, o que ficou no lugar dele?  Olhei imediatamente lá para o alto. Não é possível... O céu ainda estava no céu! Olhando para cima e para baixo rapidamente como alguém que está brincando com o jogo dos sete erros, eu constatei, certamente com a mesma surpresa daquele que decompôs pela primeira vez a luz branca, a existência de dois mundos. Um de frente para o outro. Mas algo estranho está acontecendo... Quando aquela nuvenzinha se mexe lá em cima...aquela lá embaixo se mexe também...A imagem era igualzinha! Como pode dois mundos serem exatamente iguais?  Por que só do meu quintal a gente consegue ver isso? Quem é a menina do outro lado? Um misto de curiosidade e medo estavam se apossando daquela criança cheia de quatro anos, mas o primeiro sentimento foi mais forte. Bem devagarzinho e plena de coragem enfiei o meu dedo na poça. Nem minha unha que era toda roída até o sabugo entrou toda. Como pode? Rapidamente, levantei-me assustada com medo de ser sugada por aquele mistério. Vou chamar mamãe para ver isso... Ao  encher meus pulmões de ar para gritar manhê emudeci. Eram vários os buracos rasos e sem fundo no meu quintal! Nóssinhora me proteja... E se eu correr e pisar em um sem querer? Eu queria gritar, mas estava sem voz assim como ficam algumas pessoas quando veem mais que os próprios olhos.

Em pé sozinha no meio do meu quintal, cercada por tudo o que tem uma causa oculta nessa vida e morrendo de medo de cair em um daqueles buracos e mamãe nunca mais me ver, notei Carmelita e Roselita aparecendo naquele pequeno pátio. Vinham as duas correndo com um pedaço de pão recheado de goiabada pisando nas entradas daqueles túneis que vão para o além, esparramando água para todos os lados sem a menor noção do risco de cada passada e de tudo o que estava sendo destruído com aquela tremenda falta de cautela.  Fiz, em vão, um sinal para que elas parassem ou pelo menos tomassem mais cuidado. Em poucos segundos já estava sentindo o cheiro enjoativo de goiaba.

- Olha só o que eu descobri! – Falei eufórica apontando para o reflexo do céu na poça d´água.

As duas continuaram mastigando sem emoção enquanto olhavam para o chão molhado.

- O chão também tem céu! Na verdade, tem dois mundos num só! Tem uma criança ali dentro! Olha!

Porém, enquanto falava o Sol se escondeu por detrás de uma nuvem muito grande de forma que um mundo inteiro havia sumido bem embaixo do meu nariz só restando esse que todos já conhecem. Eu, sem saber ainda das leis que governam o fenômeno da reflexão, interpretei aquilo tudo que aconteceu como um milagre, tal qual a aparição de Nossa Senhora que ocorreu somente para três crianças, Jacinta, Lúcia e Francisco, em Portugal, como mamãe cansava de nos contar e que eu jamais esquecerei.

O céu seguiu nublado e sem chuvas pelo resto da tarde. As poças secaram rapidamente e a minha perplexidade se evaporou junto com a água. Nós andamos de velocípede, brincamos de pique, de amarelinha e acho que até pulamos corda. Mas, a noite algo se condensou. Eu não estava conseguindo dormir e chamei papai.

- Pai, será que aquela criança que me olhou do outro mundo está pensando em mim também? Amanhã você me ajuda a encontrar essa janela de novo no chão? – Indaguei.

Daí, claro, eu tive que explicar tudo para o papai. Ele estava rindo e achando que aquilo era coisa de criança. Papai, por sua vez, teve que explicar muita coisa também para mim já que eu estava angustiada e achando que ele não estava acreditando em nada do que eu estava contando.

Depois, lembro-me de papai falando ‘oyasumi’*  e me deixando ainda no escuro.

Então tudo aquilo que pensei foi fruto da minha imaginação? Nunca mais vou poder ver aquela criança que me olhou assustada do outro mundo? Não houve milagre? Todo aquele medo foi em vão? Aquele vislumbre todo foi porque eu sabia tão pouco?

Dormi chateada pensando nessas coisas. Incomodada por tudo ter se tornado tão pequeno. No dia seguinte, enchi com água meu balde de brinquedo, virei-o naquela ligeira concavidade do chão e chamei papai. Quem me garante que sou eu a menina verdadeira e ela o meu reflexo? Certamente não devem ter sido essas as minhas palavras, mas era isso que eu queria saber.

Papai olhou para o homem no chão acompanhado de uma menina segurando um balde vazio. Não sei o que ele pensou, não sei se ele queria livrar-se de um problema ou prender-me o máximo naquele desenlace. "Ninguém". Foi o que ele me respondeu. Ao ouvi-lo imediatamente espalhei a água para nossa segurança e fiquei feliz por viver de novo num lugar tão interessante.

Não sei por que me lembrei agora de toda essa história, mas algo estranho aconteceu depois de contá-la. Quem sabe a tal da montanha seja plana como uma página em branco de um editor de textos?

Cá estou eu descansada, caminhando saltitante com o meu baldinho cheio d´água e indo afrouxar o nó que dei ao amarrar o meu pequeno mamífero ruminante.

 -----------------------

* Boa noite em japonês


______________________________________________________________


Se esse texto te agradou você pode gostar também de ler:


Confissões de uma Ignorante
Consulta ao Analista
A Sombra do Tempo



quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Em luta pela dignidade humana!


Acordei diferente. Hoje será a passeata contra a redistribuição dos royalties da exploração do petróleo e eu decidi na segunda-feira que não posso morrer sem participar de uma passeata. Sinto muita inveja daqueles que já desfilaram com a cara pintada ou apenas gritando algo de cara limpa mesmo no meio de uma multidão. Muito lindo as pessoas andando com os braços direitos levantados e punhos fechados que se movimentam no ritmo de brados retumbantes, segurando faixas, cantando Geraldo Vandré...nossa, acho isso o máximo e sinto até vergonha de nunca ter feito nada parecido. Mas resolvi que seja lá o que forem esses royalties, eles são é nossos. O Rio é nosso! O petróleo é nosso! Abaixo a injustiça!!! Se o impacto é nosso, os royalties também! Vou arrebentar nessa passeata. Estou até me vendo fazendo parte da história. Maneiro.

Senti, porém, pela manhã um desconforto semelhante ao que experimentei na minha abençoada infância quando comungava sem antes me confessar. Precisava resolver uns probleminhas para ir com a consciência tranquila lutar por esse Rio maravilhoso. Ter me lembrado disso hoje me deixou até feliz, confesso. Moro, no entanto, no subúrbio carioca, na parte calma de Madureira. Tenho umas multas para pagar e o Itaú mais perto do meu domicílio fica em Cascadura. O panorama não era dos mais animadores, ainda mais sabendo que não há mais estacionamento em lugar algum do planeta quanto mais em Cascadura. Restavam-me duas opções: ir de ônibus ou ir a pé. Julguei que uma caminhada me faria bem. Precisava me preparar fisicamente para a tarde.

Saí de casa às dez. Entupi-me de protetor solar e lá fui eu com a honra daqueles que não se envergonham dos seus erros e os reconhece sem orgulho, é claro, perante seja lá quem for. Com uma multa vencida por andar na faixa de ônibus em plena avenida Brasil (sem querer), com várias taxas de incêndio atrasadas desde 2009 e mais tantos outros pecados que couberam entre as folhas de um livro de Rubem Braga, caminhei com meu nariz em pé e protegido do Sol. Atravessei aquele viaduto todinho pensando em como o Rio precisa de mim e questionei como esse pobre subúrbio vai sobreviver sem esses Royalties... A falta de beleza dessas bandas nunca me fez sentir tão bem disposta.

De casa até o Itaú, ‘o banco do Rio’, eu vi tanta coisa... Eu vi uma mulher procurando o isqueiro na bolsa com o cigarro pendurado na boca enquanto esperava o trem na estação, eu vi um homem sentado todo agasalhado debaixo do sol e bem no vão central do viaduto, eu vi uma mulata bonita de cabelos longos e de salto alto sorrindo quando os homens da construção fizeram fiu fiu. Vi três pessoas vestidas de iogurte, puxando um carrinho-iogurte vendendo iogurte no saco a uma bagatela de centavos. Eu vi um carrinho de mão cheio de aipim-manteiga na calçada, vi uma mulher vestida de branco que media a pressão por um real. Vi o bicheiro. Vi um açougue cheio de carne pendurada, um coelho pelo avesso também suspenso, e vários frangos assando dentro desse mesmo estabelecimento. Vi uma loja fedorenta de artigos de macumba. Vi a imagem do capeta. Vi uma churrasqueira feita de um tonel por duzentos e noventa e nove reais. Vi um homem com um saco preto enorme de lixo cheio de bucha dentro. (Cinco buchas dois real). Vi o Natal no Amigão. Vi um senhor que conserta panela de pressão sentado consertando uma pipoqueira. Vi duas senhoras com óculos conferindo o troco na porta de uma farmácia. Vi várias pessoas acima do peso comendo pastel e bebendo caldo de cana. Vi dois chineses. Vi vários senhores na praça jogando cartas e conversa fora. Vi crianças também na praça matando aula e mexendo nos celulares. Também na praça, vi um menino no balanço, descalço e com um vidro de cola em uma das mãos. Vi um punhado de coisa nessa praça. Vi umas roupas secando no banco (da praça). Procurei o dono daqueles parcos trajes. Não o vi. Vi uma mulher que fazia artesanato nos panos de prato. Bordava o nosso nome em vinte minutos, um troço de doido. Vi muitos pombos e nenhum passarinho.

Enfim, vi o Itaú.

Até aí, eu estava super animada para lutar contra a injustiça e em defesa do Rio. Mas...

Entrei.

Fiquei quarenta minutos na fila, li seis crônicas do Rubem Braga e quando cheguei no caixa, a moça de unhas decoradas me falou que eu teria que tirar uma segunda via da multa vencida no terminal eletrônico lá embaixo. Fui lá embaixo. Toquei a tela várias vezes e consegui. Apertei sim quando a máquina perguntou se eu queria impresso. Tirei o papel. Subi. Esperei mais um tanto. Quanto ao outro documento, eu teria que conversar com a gerência lá embaixo, disse a moça de unhas decoradas e de cabelos alisados. Fui lá embaixo. Dirigi-me até o local onde cinco mulheres bem vestidas trabalhavam em mesas bem grandes. Li mais cinco crônicas. Desisti de ler. Fui mandar mensagens no celular. O guarda brigou comigo. Não pedi desculpas e ainda passei a frente de duas velhinhas que estavam na fila conversando e nem perceberam que foram chamadas. Perdi a noção. Peguei a porcaria de um número com a gerente que estava com uma bolsa certamente falsificada da Louis Vuitton na mesa. Subi. Aguardei mais um tanto assim de uma crônica e meia. A moça de unhas decoradas, de cabelos alisados e de sobrancelhas ultra-finas disse agora tá tudo certo. Olhei bem dentro daquelas lentes de contato coloridas. Senti necessidade de urrar. Tive vontade de jogar um balde d´água naqueles cabelos.  E eu também queria chutar as mesas e jogar todas as cadeiras longe. Precisa falar um tantão de palavrão aos berros. Visualizei os estudantes da USP me ajudando a quebrar tudo aquilo. Tentei sair de lá correndo e fiquei presa na porta giratória na saída! Tive que mostrar as chaves, o celular interdito e aaaaah como eu queria mostrar uma arma.

Fiz sinal pro ônibus e ele passou direto. Voltei andando, ou melhor, voltei correndo. Era mais ou menos como se tivesse apertado a tecla 'voltar' de um controle de DVD na velocidade 4x. Saco de bucha, homem-iogurte, bonecão do capeta, bicheiro, mulher de branco, mendigo, chinês, Natal no Amigão,... aquele pesadelo todo de novo.  Nem  o pedaço de madeira preso no asfalto com pregos para consertar um vazamento fez-me mudar o meu novo foco que está agora no meu umbigo. Precisava me isolar o mais rápido possível e evitar todo e qualquer contato social.

Agora? A minha luta agora será para resgatar a minha dignidade!  E isso não se faz de uma hora para a outra.

Paciência. Não será hoje que farei parte da história. 

______________________________________________

Se esse texto agradou, você pode gostar também de:


Capitão Nascimento e Dona Maria José
Dividindo Para Poder Sobrar
Ying Yang Yuki Nara
O Fim do Grande Mistério de Ricardo Fragoso