quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

"Serei sempre seu confidente fiel se seu pranto molhar meu papel."




Enfim, tudo organizado.

A obra de um terraço que começou em maio do ano passado e que deveria ter acabado em dois meses se estendeu até janeiro deste ano. Não vou cansar o leitor com os percalços dessa empreitada e muito menos lamentar o prejuízo que tive. Quero apegar-me a essa sensação boa de completude que me fez largar um pouco o trabalho e escrever... 

A primeira coisa que fiz assim quando a obra efetivamente começou foi esvaziar o meu escritório e levar toda a minha biblioteca para a casa de papai. Quando eu quero proteger algo muito precioso ajo sempre dessa forma. Isso me custou um dia inteiro de trabalho e três viagens com o carro arriado de tantas historias, álbuns, filosofias, física, contos e poesias. Esvaziei todas as prateleiras e um armário na certeza que em dois meses teria toda a minha biblioteca de volta e um terraço pronto. A construção, porém, se estendeu por oito meses e o meu mal estar começou a aumentar exponencialmente com o passar dos dias por estar vivendo numa casa sem livros e sem passado, pois, tudo o que existe nesse mundo que conte parte da minha história em letras ou em imagens estava na casa dos meus pais.

Em janeiro, grazadeus, fim de obra. Comecei o ano organizando aos poucos o escritório. Meus amigos não entendem porque não me desfaço dos livros que já li e certamente chamariam-me de louca ao ver alguns cadernos que usei ainda na adolescência mantidos sob os cuidados de um armário que se mantém sempre fechado. Ao fazer essa “mudança” mais uma vez percebi o quanto sou incapaz de aliviar o peso das prateleiras das minhas estantes ou aumentar o espaço do móvel do escritório onde guardo alguns registros feitos por mim e também alguns rabiscos feito pelas crianças.

Manusear esse tipo de material é muito diferente de arrumar um cômodo qualquer da casa. Gastei dias separando meus livros conforme o assunto, o autor e a minha idade ao abri-los pela primeira vez e deixei para a última viagem as brochuras preenchidas com a minha letra. 

Engraçado. Às vezes guardamos coisas que sabemos que não terão mais nenhuma utilidade para a nossa vida a não ser... olhá-las de novo. E de alguma forma (que não tem nada ligado à praticidade) apegamo-nos a elas. Quem sabe porque ainda é permitido guardar uma lembrança boa e até uma leve tristeza que de tão leve consegue ser bonita a sua maneira; ou ainda, conceder a nós mesmos alguns minutos para confessarmos que sentimos saudades. Recordar um momento é também compreender que devemos ser felizes igualmente naquele instante, pois aquele instante também passará. Assumir a nostalgia é nos dar conta que houve momentos perfeitos que passaram, mas que não se perderam e se a lembrança deles tornar maior a nossa solidão que seja uma solidão menos infeliz.

A coisa poderia ter sido assim bem racional e equilibrada se Chico Buarque não tivesse nascido e a vida não estivesse passando tão rápido e se abrindo realmente num feroz carrossel. Diante de tantos livros e cadernos que jamais serão esquecidos num canto qualquer, cantei.  E foi assim, ao som desafinado de minha voz cantarolando “O Caderno”, entre muito pó, fungos e lágrimas que consegui organizar todo este cômodo da casa. 

Cá estou eu agora. Mais calminha. Queria no início desse texto justificar porque estou me sentindo tão bem vendo as paredes coloridas com os meus livros e um armário grande, denso e fechado. Mas que bobagem a minha, não? Coisas assim simplesmente são.

(Sem nenhuma explicação).





terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Feliz Ano Novo!!!



Adeus Ano Velho!
Feliz Ano Novo!!!

Já que os antigos diziam que fazer a barulheira é fundamental no início de um novo ciclo para despachar os maus espíritos para os cafundós do além, eu que não sou boba de ser racional nessa hora e não encarar a meia-noite de 31 de dezembro como um recomeço. Vou fazer o que faço de melhor: um furdunço daqueles para garantir que nada me falte e para afastar qualquer alma penada mal intencionada que me ronde. E essa é a hora que ninguém me reconhece porque sigo todas as crendices que estiverem ao meu alcance e apego-me a qualquer santo que estiver passando na hora. Oxalá, Jesus! Namumyouhourenguekyou! E aí, meu irmão, sai de perto e me deixa surtar em paz.

Felizmente somos otimistas, pelo menos nos últimos dias do ano.  Ainda bem que não paramos para meditar que na verdade não existe o Ano Bom, pois além de tudo não passar de uma convenção que se diferencia e muito ao longo do globo terrestre, 2012 será um ano como outro qualquer onde o que nos aborrece continuará nos tirando dos eixos e certos obstáculos persistirão intransponíveis.

Depois - ou mesmo antes, - os votos que fazemos a nós mesmos...afe... As metas que estabelecemos deslumbrando um futuro mais produtivo e mais magro, caloricamente falando, começam inutilmente a serem enumeradas. Nesse ano eu vou... Fôssemos nós mais realistas não perderíamos tempo com esses desvarios, pois dos quilos que já possuímos com sorte outros não serão acrescentados e dos planos de cada um pouquíssimos serão aqueles que irão se concretizar.

Mas esse tipo de pensamento não é nada acalentador, não é humano, deprime, enlouquece e não é a minha praia. Então, sublimemos esse amargo discurso. Não vamos abafar nossos sonhos e vamos nos dar sempre (pelo menos uma vez por ano e quando ele se encerra) uma nova chance!

-  Feliz Ano Novo!
-  Pra você também! Tudibom!!!


Desejamos o bem com exclamação porque assim manda a tradição. E fazemos nós muito bem em respeitá-la em prol do nosso humor. Enviamos votos de felicitações àqueles que amamos e àqueles que nada representam para nós porque imediatamente os recebemos de volta e as palavras tem poder! Acreditar que o ano que está entrando será um ano feliz, tal como acreditamos no dezembro do ano passado, faz um bem danado. E se este ano não foi um Feliz 2011, a quem importa agora? Passou. No mais, nada impede aos que nele se esbaldaram como, por exemplo, os corinthianos, de nos desejarem dias mais retemperados ainda. E lá vamos nós abarrotados de boas intenções distribuir abraços e sorrisos para quem está ao nosso lado e bons augúrios para todos os amigos do facebook e da nossa lista de email.

-  Que todos os seus desejos se realizem!!!
-  Os seus também!!!


Da minha parte, estou disposta a esquecer todo o prejuízo que tive por conta de uns malditos pedreiros que contratei em Maio para fazer um terraço aqui em casa. Ficarei somente com a lembrança do Luciano, o primeiro profissional que reveste muro que eu vi lendo na vida e que ficou emocionado diante à minha biblioteca que nem é lá grandes-coisa. Estou planejando muito para o ano vindouro, mas nada impossível. O de sempre. Miguel Pereira em Janeiro, fantasias para Fevereiro, me preparar para as águas de Março... Que possa eu continuar a fazer novamente o que venho fazendo já está pra lá de bom. Que não me falte o samba com os amigos, um bom livro para ler, inspiração para escrever, conversas para jogar fora, vontade de trabalhar, a cumplicidade no lar e o feijão com arroz para comer!

-  Saúde e paz!!!!
-  Pra você também!!!


E para que tudo aconteça nos conformes, há quem não me reconheça no último dia do ano. Tomo banho de arruda, encho a boca de lentilhas, visto-me com roupas brancas, coloco sementes de romã na carteira, troco as roupas de cama, imito índio do velho oeste, dou três pulinhos com o pé direito, subo degraus,  batuco na panela, ando igual chinês em círculos, me viro para Meca, como doze uvas, ponho seis moedas debaixo do tapete, recebo passe, peço a benção, canto pra subir e, finalmente, conto regressivamente bem alto quando o ponteiro dos minutos quase encosta no 12. Caraca! No 12!!! Essa virada promete...


FELIZ 2012, GENTE !!!



segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Defenestra-me?



Antigamente alguns homens olhavam com muita cautela e curiosidade, como fazem aqueles que sofrem de um amor platônico, alguma janela cuja fresta dava-lhes acesso à imagem de alguma moça interessante que se expunha de maneira descuidada. Seja na forma em que a jovem falava ao telefone com as pernas estendidas na cama e que de tempo em tempo levantava uma delas e ficava naquela posição em que as senhorinhas se bronzeiam deitadas sobre uma canga na areia da praia. Seja na forma em que a moça fazia as unhas do pé no sofá de sua sala enquanto via a novela das sete. Ou seja na forma em que escolhia um vestido para ir a alguma festa. Lá estava um apaixonado por esses gestos a observar na espreita a moça à distância de dois prédios. E quando a luz do banheiro se acendia...aaahh, ele ficava atordoado em seus devaneios com a demora do banho e via, em sua imaginação, a mocinha contraindo músculos que ela jamais sequer proferiria.

(Falo somente dos homens porque não faltam nesse mundo das letras poetas e cronistas machos e tarados que colheram da janela da frente inspirações para sua arte. (Mesmo porque homens no banheiro ou vendo televisão, nem nos dias de hoje, inspiram as mulheres para coisa alguma, ainda mais para a arte)).

Mas agora as ventanas são diferentes. Com a invenção do facebook as janelas observadas são as atualizações de status que fazem muitos apaixonados se assemelharem com os de outrora que incitavam a apetência munindo-se com binóculos e até lunetas quando clicam hoje, também no seu anonimato, uma imagem para ampliá-la e contemplá-la como fazemos diante de uma escultura. Embora os tempos sejam outros, os sentimentos permanecem os mesmos e os equívocos se equivalem. Da mesma maneira que uma senhora um tanto convexa do prédio da frente fingia-se irritada por achar que estava sendo espiada por aquele que tinha os olhos fixos na janela – que não era a dela,- não é raro alguém,  mergulhado nessa ilusão comum ao ego negligente, acreditar que está sendo admirado e sentir-se melhor e mais interessante. Por sua vez, assim como a moça de antigamente que enrolada na toalha, fechava a cortina não sem antes dirigir a vista para o 306 do edifício defronte - cujo morador desconhecia a sua existência, - existem aqueles que se expõem para uns e, sem querer, despertam a imaginação de outros. Colocam uma música para agradar os ouvidos de sua amada e quem 'curte' é outra pessoa.

Fosse Carlos Drummond vivo e estivesse antenado numa rede social, como eu estou de cá colhendo material para uma crônica, diante de tantos olhares desencontrados poderia ter escrito outra ‘Quadrilha’. João curtia Teresa que curtia Raimundo que curtia Maria que curtia Joaquim que curtia Lili que não curtia ninguém. João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes quem nem tinha entrado para o facebook.

Nem só de apaixonados e namoradeiras, porém, as janelas eram e são ocupadas tanto antigamente como nos dias atuais. Há aqueles que somente para espairecer olham, pelos buracos feitos nas paredes, o movimento da rua na esperança de ver algo interessante e se distrair com alguém lá embaixo fazendo algo excêntrico, de alguma pessoa reconhecer-lhe e oferecer-lhe um tchau animado pela coincidência de ambos estarem imersos em pensamento nenhum; de um amigo passar e balançar a mão fechada como um pêndulo apontando o polegar para a boca, gesto universal daqueles que tem sede. Ou ainda, para seu deleite, abrir e fechar os outros quatro dedos restantes mantendo o olhar fixo em você, acenando a necessidade de sua companhia.



sábado, 24 de dezembro de 2011

2012



Aos amigos eu desejo:


A cabeça fria, o pé quente e a mão na roda. A alegria presente, as roupas passadas, as crianças na escola, gavetas em ordem e paz na caixola!  Batucada bem batida, comida boa no prato, o trem no trilho, menos carros nas ruas, banhos de mar, pedalinhos na Lagoa; o Rio. Uma dança lenta e uma Internet rápida. A televisão desligada, o facebook na dose certa, a loucura extravasada.  O colesterol baixo, o salto alto, o misto quente e a água gelada. Atualizações de currículos, menos cecê, mais lá lá lá.


As palavras. O céu, o sol, o sim, a paz. A prosa, o café, o sonho, a rede, o gozo, a folia, o livro, a viagem. Bobiça, sanfona, varanda, paquera, cachaça, macumba, churrasco. Natureza, liberdade. Inteligência. O plástico-bolha.


Sobretudo, aos amigos eu desejo, a permanência.


Ao meu lado.




quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Out-ono



Precisamos buscar abrigo
Na estratosfera?
Porque vocês, verão
Nós? Primavera!







quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Fé na Kátia


Hoje Nara, minha filha de 13 anos, está fazendo prova final pela primeira vez na vida. Ao contrário de seu irmão mais velho Hideo que nem diante de uma possível reprovação perde o sono, Nara entrou em pânico e mesmo tendo estudado muito mais do que manda a cartilha, se julgou incapaz de tirar a mixaria de nota necessária para ser aprovada em matemática. Eis que uma novela mexicana fez-se presente em minha casa desde ontem com minha filha atuando no papel principal. Mãe, me ajuda. Mãe, tô desesperada. Mãe, vou morrrreeeeerrr. Jesuis... Nunca lidei com isso e não tinha a menor noção do que deveria fazer para melhorar a situação.

Atéia por parte de pai, não poderia recomendar que Nara orasse. Por falta de criatividade, reconhecimento, psicologia e quem sabe por falta de Deus eu falei:

- Afe, Nara, para de drama e vai estudar!

 Qual o quê...

- Mãe, eu já estudei tudo! Mãe, eu não sei nada! Mãe, vai me dar branco! Mãe, são 20 questões! Mãe, não vai dar tempo!  Mãe, isso! Mãe, aquilo! – Nara falava numa tal frequência que eu cheguei a temer pelos copos de requeijão aqui em casa.

- Vai ler Crepúsculo!  – Apelei.            

- Mãe, não consigo ler nada! Mãe, fala alguma coisa! Mãe, me acalma! Mãe, blá  blá blá... – e nesse frenesi ela teve um repente e se virou para mim e perguntou – Mãe, você ficava nervosa antes de fazer prova?

Caramba.  Só de pensar em prova me dá taquicardia. Até hoje fico desesperada. Choro. Vomito. Tenho dor de barriga. Ligo para minha mãe de cinco em cinco minutos. Tenho insônia e se durmo, pesadelo. Quando acordo desejo a morte.

- E o que você faz para se acalmar?- Perguntou-me curiosa minha filha, na esperança de encontrar com as minhas sábias palavras a cura para aquela exasperação.

- Ãh? Eu? Eu ligo pra Kátia.  

Kátia trabalhou como empregada doméstica na casa de mamãe e acompanhou toda a minha transformação de menina para mulher. Avisava-me quando mamãe chegava para eu sair do telefone e ir para o quarto correndo sentar-me à escrivaninha que estava cheia de livros abertos. Convencia mamãe a me deixar sair com as amigas mesmo sabendo que eu estava indo namorar escondido. Fritava um ovo e colocava no pão sempre que eu voltava da natação cheia de fome. Ouvia tudo o que eu tinha para dizer para meus namoradinhos antes de terminar o relacionamento com eles. Opinava sempre. Ensinou-me tudo o que eu sei sobre política. Fazia café fresquinho quando eu estava com dor de cabeça. Ensinou-me a não desperdiçar comida. Contava-me piadas sujas e pesadas... e mais um tantão de coisas Kátia fez por mim nessa vida, mas principalmente, em todas as provas que eu enfrentei nessa jornada, Kátia acendeu uma vela para mim e me dizia: “Fique calma, minha filha, a Kátia acendeu uma vela para você. Eu tenho certeza que vai dar tudo certo”. E nem havia mais necessidade de estudar depois disso. Era o lexotan que eu precisava e sempre foi assim.

Os anos passaram, casei-me, e Kátia veio trabalhar na minha casa.  Meu marido, porém, não suportou tamanha dedicação. Kátia se metia em tudo o que devia e não devia. Mandava na gente como se fosse um chefe brabo e surtava com a minha bagunça como sei lá, meu deus, vai entender a cabeça da Kátia...ela escondia tudo quanto é papel jogado pela casa entre meus livros e dizia que era para eu me disciplinar. Proibiu-nos de ter bicho de estimação. Se Nelson me tratasse com pouco carinho, mal ele dava às costas, ela vinha me convencer de que eu conseguiria algo melhor. Kátia não tirava férias porque dizia que amava botar ordem na minha casa e na minha vida.  Eu não sabia mais o que fazer com ela... Acabou que arrumamos uma outra casa para a maluca trabalhar e com uma boa desculpa e muito carinho consegui me desvencilhar desse afeto desmedido e deixá-la até financeiramente bem melhor do que quando trabalhava para mim.

A amizade, porém, continua até hoje e mesmo sem ser a minha empregada e termos perdido muito da convivência por conta disso, as velas da Kátia foram acesas, a meu pedido, em todos os concursos públicos que eu fiz e em todos os congressos e simpósios que eu já participei. E não exagero em dizer, que graças a ela eu cheguei aonde eu cheguei. Nos momentos mais tensos em que eu fui avaliada, antes de começar a falar ou a escrever, a imagem da Kátia acendendo a vela para mim, inexplicavelmente, me dava a paz necessária e que faltou para muitos dos meus concorrentes.

Nara ao ouvir toda essa história questionando se eu não havia tido sucesso porque sempre me matei de estudar e entendendo, ao longo da minha explanação, que o conhecimento é necessário mas, às vezes, não suficiente, pegou o meu celular e começou a ligar convulsivamente para Kátia. Ao perceber que do outro lado da linha o telefone tocava e ninguém atendia, Nara ficou mais nervosa. Eu, ainda desprovida de criatividade, psicologia e o diabo necessário para acalmar minha filha, mas percebendo que Nara não captou a história em sua plenitude, falei:

- Também não sei se ia adiantar no seu caso. A Kátia me ama e acho que isso é essencial para que a macumba funcione. – Abusei da sinceridade e a deixei pensando no quarto.

Hoje voltei do trabalho voando para dar tempo de levá-la para fazer a tal prova bem no meio da tarde. Ao vê-la entrar no carro em câmara lenta e com cara de paisagem sem poluição perguntei se ela estava pronta e preparada. Nara me olhou e disse seguramente que sim.  Contou-me que ontem mesmo, via skype, conversou com os primos de Florianópolis um tempão sobre essa história toda e hoje de manhã, Ian, meu querido sobrinho e afilhado, ligou aqui para casa e disse que ela poderia ficar tranquila. A vela havia sido acesa. Foi o que bastou para Nara recuperar a segurança e sobriedade.

E agora, enquanto minha filha está lá, super tranquilinha e confiante fazendo uma provinha de matemática cá estou refletindo sobre o quão sem importância é essa garantia de acreditar que entendemos alguma coisa. O quanto ‘viver ultrapassa qualquer entendimento’. E que poder incrível qualquer gesto de carinho tem em aquietar a nossa demência, não?


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terça-feira, 29 de novembro de 2011

Pilares


Sempre me esquivei de lugares onde as perguntas não tem respostas claras e busquei freneticamente um chão firme para poder pular corda sem medo de que a Terra se deslocasse pela frequência e pela força do impacto de meus pés. Mas toda busca até agora tem sido em vão e isso tem me deixado um pouco cansada. Em cada canto que amarrei o meu bode o chão tremeu e o bicho escapou sem grandes dificuldades. Estressei-me com a religião por não responder de forma clara a nenhuma pergunta que eu fizesse, desiludi-me com a certeza da matemática após ter sido apresentada ao teorema da incompletude de Gödel que disse e provou ser impossível definir um sistema de axiomas completo que seja simultaneamente consistente. Por tabela, comecei a olhar de lado para a minha física uma vez que esta se assenta fortemente na matemática.  Agora o meu mamífero herbívoro ruminante cavicórneo está amarrado num curso de pós-graduação em Filosofia cujos solos sofrem terremotos constantes. Quando eu vou acertar, afinal? Se houvesse por essas bandas uma montanha dessas da gente subir e ficar lá no topo meditando sobre a vida, refletindo sobre nossas escolhas, buscando respostas para tantas exclamações, descobrindo o porquê de termos percorrido por esse e não por aquele caminho, eu juro que pagaria para alguém ir lá para mim para voltar com a resposta somente para essa pergunta.

Mas agora que eu falei em chão, lembrei-me de algo que ocorreu quando morava em Pilares. Para ter sido ali, eu tinha menos de quatro anos, não sabia ler e nunca sequer havia pisado numa escola. Na verdade meus pais tentaram algumas vezes, mas ao chegar à porta agarrava-me ao pescoço de mamãe e não havia diretora com sorriso falso que me tirasse daquele colo. Então não menti. Nunca havia ‘pisado’ mesmo numa escola. Quando Tata, minha irmã mais velha, saía de mala, mochila e cuia para o Jardim-Escola Pequeno Céu eu ficava brincando com alguns vizinhos sentindo-me segura e feliz por ter mamãe sempre à distância de um berro.

Havia chovido de manhã e o nosso quintal, uma área que era comum a seis apartamentos, estava ainda um pouco molhado com algumas poças d´água, pois, ao contrário do que parecia (e muitos juraram a mãe mortinha debaixo do trem), o chão não era reto retinho retão. No início da tarde, o céu, para a nossa felicidade e graças à simpatia de Carmem que desenhou seis sóis no chão e jogou um pouco de xixi em todos eles, abriu. Após o cochilinho depois do almoço, as crianças começavam a aparecer devagar e, nesse dia, eu fui a primeira a acordar e sair para brincar depois de beber o nescau.

Ao fitar uma poça rasinha, levei um susto. O céu estava no chão. Lá no fundo bem fundo mesmo do chão! Como podia isso estar acontecendo? Se o céu foi parar no chão, o que ficou no lugar dele?  Olhei imediatamente lá para o alto. Não é possível... O céu ainda estava no céu! Olhando para cima e para baixo rapidamente como alguém que está brincando com o jogo dos sete erros, eu constatei, certamente com a mesma surpresa daquele que decompôs pela primeira vez a luz branca, a existência de dois mundos. Um de frente para o outro. Mas algo estranho está acontecendo... Quando aquela nuvenzinha se mexe lá em cima...aquela lá embaixo se mexe também...A imagem era igualzinha! Como pode dois mundos serem exatamente iguais?  Por que só do meu quintal a gente consegue ver isso? Quem é a menina do outro lado? Um misto de curiosidade e medo estavam se apossando daquela criança cheia de quatro anos, mas o primeiro sentimento foi mais forte. Bem devagarzinho e plena de coragem enfiei o meu dedo na poça. Nem minha unha que era toda roída até o sabugo entrou toda. Como pode? Rapidamente, levantei-me assustada com medo de ser sugada por aquele mistério. Vou chamar mamãe para ver isso... Ao  encher meus pulmões de ar para gritar manhê emudeci. Eram vários os buracos rasos e sem fundo no meu quintal! Nóssinhora me proteja... E se eu correr e pisar em um sem querer? Eu queria gritar, mas estava sem voz assim como ficam algumas pessoas quando veem mais que os próprios olhos.

Em pé sozinha no meio do meu quintal, cercada por tudo o que tem uma causa oculta nessa vida e morrendo de medo de cair em um daqueles buracos e mamãe nunca mais me ver, notei Carmelita e Roselita aparecendo naquele pequeno pátio. Vinham as duas correndo com um pedaço de pão recheado de goiabada pisando nas entradas daqueles túneis que vão para o além, esparramando água para todos os lados sem a menor noção do risco de cada passada e de tudo o que estava sendo destruído com aquela tremenda falta de cautela.  Fiz, em vão, um sinal para que elas parassem ou pelo menos tomassem mais cuidado. Em poucos segundos já estava sentindo o cheiro enjoativo de goiaba.

- Olha só o que eu descobri! – Falei eufórica apontando para o reflexo do céu na poça d´água.

As duas continuaram mastigando sem emoção enquanto olhavam para o chão molhado.

- O chão também tem céu! Na verdade, tem dois mundos num só! Tem uma criança ali dentro! Olha!

Porém, enquanto falava o Sol se escondeu por detrás de uma nuvem muito grande de forma que um mundo inteiro havia sumido bem embaixo do meu nariz só restando esse que todos já conhecem. Eu, sem saber ainda das leis que governam o fenômeno da reflexão, interpretei aquilo tudo que aconteceu como um milagre, tal qual a aparição de Nossa Senhora que ocorreu somente para três crianças, Jacinta, Lúcia e Francisco, em Portugal, como mamãe cansava de nos contar e que eu jamais esquecerei.

O céu seguiu nublado e sem chuvas pelo resto da tarde. As poças secaram rapidamente e a minha perplexidade se evaporou junto com a água. Nós andamos de velocípede, brincamos de pique, de amarelinha e acho que até pulamos corda. Mas, a noite algo se condensou. Eu não estava conseguindo dormir e chamei papai.

- Pai, será que aquela criança que me olhou do outro mundo está pensando em mim também? Amanhã você me ajuda a encontrar essa janela de novo no chão? – Indaguei.

Daí, claro, eu tive que explicar tudo para o papai. Ele estava rindo e achando que aquilo era coisa de criança. Papai, por sua vez, teve que explicar muita coisa também para mim já que eu estava angustiada e achando que ele não estava acreditando em nada do que eu estava contando.

Depois, lembro-me de papai falando ‘oyasumi’*  e me deixando ainda no escuro.

Então tudo aquilo que pensei foi fruto da minha imaginação? Nunca mais vou poder ver aquela criança que me olhou assustada do outro mundo? Não houve milagre? Todo aquele medo foi em vão? Aquele vislumbre todo foi porque eu sabia tão pouco?

Dormi chateada pensando nessas coisas. Incomodada por tudo ter se tornado tão pequeno. No dia seguinte, enchi com água meu balde de brinquedo, virei-o naquela ligeira concavidade do chão e chamei papai. Quem me garante que sou eu a menina verdadeira e ela o meu reflexo? Certamente não devem ter sido essas as minhas palavras, mas era isso que eu queria saber.

Papai olhou para o homem no chão acompanhado de uma menina segurando um balde vazio. Não sei o que ele pensou, não sei se ele queria livrar-se de um problema ou prender-me o máximo naquele desenlace. "Ninguém". Foi o que ele me respondeu. Ao ouvi-lo imediatamente espalhei a água para nossa segurança e fiquei feliz por viver de novo num lugar tão interessante.

Não sei por que me lembrei agora de toda essa história, mas algo estranho aconteceu depois de contá-la. Quem sabe a tal da montanha seja plana como uma página em branco de um editor de textos?

Cá estou eu descansada, caminhando saltitante com o meu baldinho cheio d´água e indo afrouxar o nó que dei ao amarrar o meu pequeno mamífero ruminante.

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* Boa noite em japonês


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