terça-feira, 16 de março de 2010

Saber amar não é amar. Amar não é saber.*

*Marcel JouhandeauHoje fui surpreendida pela manchete “Escritora afirma que as mulheres podem aprender a adestrar seus maridos”. Fiquei curiosa. Não porque Nelson precise de adestramento, aliás, não acredito que algum marido precise, mas o que me instigou foi o fato de constatar que aquilo não era brincadeira. Era de verdade. A autora se diz com a chave para salvar um casamento ruim. Cansada das atitudes do próprio marido, ela resolveu adotar alguns truques usados para adestrar cachorros, golfinhos e baleias. E o resultado, garante Amy Sutherland, foi sensacional. Em dois meses, seu marido ficou mais amoroso e menos briguento. A reportagem adiantava algumas dicas e recomendava fazer o teste em casa.

Coincidentemente, neste final de semana, por insistência de minha manicure, assisti ao filme “Prova de Fogo” que, de uma maneira não muito diferente da adestradora de maridos, nos dá a solução para os difíceis problemas que aparecem naturalmente devido à união legítima de um homem com uma mulher. União com pessoas de mesmo sexo não se enquadra nem no livro de Amy (que ensina como se relacionar com uma “espécie” diferente) e muito menos no filme que Marilene me indicou, pois este tinha como principal função propagar a religião evangélica e, como todos sabemos, homossexuais, para os homens machos de Deus, é obra do demônio.

Peguemos, primeiramente, algumas dicas preciosas do livro "O que a baleia Shamu me ensinou sobre vida, amor e casamento" (acreditem, esse é o título do livro). Amy nos aconselha a parar de reclamar ou gritar, devemos tratar os maridos à base de carinho e compreensão, ou seja, fazer o adestramento positivo. Para eles, as reclamações geram falta de comunicação e agressões. Devemos, aponta a autora, identificar a “raça” dos nossos parceiros, ou seja, identificar se gostam de futebol, ou se são loucos por carros e corridas, ou se são cinéfilos, coisas assim, pois, entender como seu marido funciona é o primeiro passo do adestramento e segue dizendo que devemos respeitar a natureza da raça. Outra coisa que Amy atenta é que devemos ignorar o comportamento ruim já que os homens, assim como os cachorros, são motivados pelos elogios. Por isso, também não podemos esquecer de sempre elogiar, elogiar e elogiar. De quebra, devemos oferecer sempre brindes. Lembre-se que cachorros adoram petiscos e como é tudo a mesma coisa... e, para finalizar essa inacreditável lista, a autora nos diz para ter muita paciência. Seguindo esses e mais outros passos explicados detalhadamente no seu livro, o seu casamento vai ser a sua principal fonte de orgulho e alegria.

O filme que como já disse propaga uma religião cristã faz a propaganda de um livro que virou febre na comunidade evangélica: “A Arte de Amar” ou algo que o valha. Não seria em nada diferente do livro de Amy senão fosse a omissão do paralelo que se faz entre os homens e os animais adestráveis. Cada página é uma dica valiosa de como agradar ou não se irritar com o próximo e todas juntas se resumem em aprender a respeitar a pessoa com quem convivemos. No filme é mostrado de forma incisiva que só conseguiremos aplicar, sem dificuldades, as 40 páginas do livro e alcançar a paz que merecemos se deixarmos que Deus entre em nossas vidas.

Dispenso tudo isso e ainda acho graça. Não preciso de manual para lidar com qualquer pessoa que seja normal. Aprendi a respeitar não porque li em algum livro ou porque algum pastor ou padre tenha falado que Jesus se alegraria se eu assim o fizesse, mas sim porque sempre fui respeitada dentro de casa. O contrário disso, que só fui aprender na rua, não foi bom e por isso mantenho distância. Com o amor não foi diferente. Já nasci sabendo amar porque desde o instante em que nasci fui amada e conforme fui crescendo e conhecendo pessoas exercitei, naturalmente, e cada vez mais intensamente, a tal arte.

Sei que tive sorte por sempre ter vivido num lar harmonioso e que minha posição, ao sair julgando as pessoas que recorrem a esse tipo de livro ou religião, é muito cômoda. Porém, fica registrado o meu lamento pela infelicidade daqueles que leram a manchete e foram se inteirar da notícia por necessidade de ter um casamento sem maiores encalços e, principalmente, por aqueles que saem de casa para ouvir um pastor lhes ensinar, em troca de algo que possa sujar ou perecer, como alcançar a paz dentro de um lar.

Em tempo (se há o direito ao grito porque não gritar?), tanto seguindo o manual escrito por uma maluca quanto por um Deus evangélico não conseguiremos alcançar felicidade plena alguma, pois, ambos acabam afirmando de uma forma ou de outra que o amor é uma soma de compreensões. Isso sim é a receita para vivermos sufocados! A verdade é que eu também, ao certo, não sei definir esse sentimento. Suspeito, entretanto, que somente amamos verdadeiramente quando nos deleitamos com a felicidade do outro e conseguimos reunir, mesmo que com algum ou muito esforço, em um mesmo total, todas as nossas incompreensões.

12 comentários:

  1. É muito interessante o talento que a senhora tem, professora. Parabéns. Gostei muito do texto. Não porque fala de maridos, mas sim, por causa da relação que a senhora estabelece entre viver bem e tolerar os defeitos da outra pessoa. Genial. Abraços.
    João Pestana

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  2. Adorei professora, aposto que a senhora deu dicas importantes neste post, principalmente em:

    ...devemos tratar os maridos à base de carinho e compreensão...

    ...identificar se gostam de futebol, ou se são loucos por carros e corridas, ou se são cinéfilos, coisas assim...

    ... respeitar a natureza da raça.

    ...devemos ignorar o comportamento ruim.

    ...não podemos esquecer de sempre elogiar, elogiar e elogiar.

    ...devemos oferecer sempre brindes.

    ... ter muita paciência.

    Anderson Kleiton

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  3. Adorei Professora :D

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  4. Mãe , adorei seu texto!

    Beijos,
    Narinha

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  5. Anderson Kleiton,

    Vc é um fanfarrão!

    :-D

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  6. Maravilhoso texto, Elika! Penso que você faz a diferença: pela pessoa atenta, pela palavra eleita, pela ideia acesa!
    Parabéns!
    Ps: Adorei, igualmente, os quadros!!!

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  7. O mistério do amor é esse. Dentro de todos os autores que trataram do assunto, o que mais me convenceu foi um austríaco, engenheiro, lógico e com um poder de convencimento incrível. E ele disse o mesmo que você. Amor é algo que vem de nós e ao receber o fluxo do exterior, entra no peito e volta mais e mais fortalecido. Quando não recebe nada, não morre, apenas entra em descanso, para atacar novamente, quando menos se espera. É isso. Como ficou bom o seu texto. Beijos.

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  8. O que faz com que pessoas acreditem que, sem religião dentro de si, outras pessoas sejam inferiores a elas?

    O que faz com que pessoas acreditem poder adestrar os outros?

    Estranha forma de vida denominada mundo.

    Bj

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  9. Este comentário foi removido pelo autor.

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  10. O que faz uma pessoa (uma só, sozinha) ser feliz?
    E um par então?
    Tem coisas, que pelo jeito, nasceram sem receita e sem manual. E se alguem disser que achou, eu desconfio.
    Lembro que meu irmão, quando era criança, fez uma tartaruga modelada com massinha que, de tão realistica, recebeu diversos elogios. Na sua modéstia insuperável, ele respondia: Difícil mesmo deve ser fazer uma de verdade. Parece que é assim mesmo. Escrever manuais é fácil, tem gente que gosta, até bate palmas. Mas difícil mesmo é escrever de verdade, que nem você.
    Obrigado pelo presente que é passar por aqui.

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  11. Adorei, Elika! Maravilhoso texto! Sua reflexão sobre o filme como a reportagem está perfeita. De fato, vivemos em um momento em que o homem busca por respostas para todo o tipo de questionação. Entretanto, infelizmente, a ignorância e a falta de bom censo, conseqüências de uma busca desenfreada, tem feito com que a esperteza domine o mundo. E por isso vemos a todo momento exemplos como estes. Bjs

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  12. Elika!
    Bom voltar aqui e vê o seu ponto de vista entre a manchete o texto e o filme.
    Gosto muito do jeito como você analisa.
    Abraço!

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