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terça-feira, 12 de março de 2013

Conclave sem clave



Na semana passada o mundo comemorou o Dia Internacional da Mulher. Lindas postagens no feicebuque nos parabenizando, outras nem tanto fazendo piadinhas machistas e outras tantas mostrando a importância do dia para reflexão do papel feminino na sociedade.

Hoje inicia-se o conclave e em todos os jornais só se fala disso. O mundo olhando uma chaminé.


Quantas mulheres vemos nas imagens mostradas na televisão ou estampadas nos jornais? Nenhuma. Curioso isso. Ainda que sejam madres, freiras e tenham um vida dedicada à Igreja, elas, as mulheres, não têm direito a voz e nem a voto dentro da convenção clerical em lugar nenhum no mundo e muito menos em Roma.  Há mulheres lá dentro, mas apenas para cozinhar, lavar e quem sabe até prestar algum serviço sexual! (Dadas as notícias dos últimos tempos não há mais o absurdo).

Agora vejam: a ex-freira brasileira Ivone Gebara, que possui doutorado em filosofia e teologia, sofreu um processo de silêncio obsequioso (pena decretada pelo Vaticano a religiosos que publicam livros contrários aos dogmas da igreja) na década de 80. Tal castigo a obrigou a renunciar os seus votos de freira. O que ela queria? Mais participação! Fala sério...



Aff. Esses homens com chapéus vermelhos não poderiam, além da escolha do novo papa, repensar as estruturas de governo e os privilégios medievais que a comunidade católica ainda oferece??? Aí sim, eu veria alguma beleza nesse ritual, por ora, impossível....

Vou dar uma de Galileu que perguntou aos seus opositores: O que Aristóteles acharia de tudo isso? É claro que Aristóteles, inteligente que só, compreenderia os argumentos do filósofo italiano e concordaria que essa parada da Terra ser o centro não cola mais. Se querem imitar Aristóteles comecem pela inteligência, ma che cazzo!!! Pois, então, imitando Galileu, pergunto-me: O que Jesus Cristo acharia se estivesse vendo isso tudo? Como procederia Jesus nas atuais situações? Seria contra o preservativo? Os anti-conceptivos? Acharia correto proibir as mulheres de participar de grandes decisões da Igreja? Teria medo delas? O que Jesus acharia desse monopólio? E desse juridicismo e desse clericalismo? Dessa violência espiritual e dessa hipocrisia? Obrigaria Jesus o celibato? Proibiria Jesus a comunhão aos recasados? Que diria Jesus sobre as relações sexuais antes do casamento? Como procederia Jesus em relação ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso? O que acharia Jesus vendo os bispos bebendo vinhos caríssimos em taças de ouro decidindo quem será o novo líder da Igreja e proibindo não só as mulheres, mas todo o seu rebanho de participar dessa decisão???

Esses que se dizem cristãos são os que menos parecem entender sobre Jesus. Ao que ele foi, é (sim, para muitos ele é como Elvis, está vivo em nós), quis e quiçá quer! 

Se a Igreja, e agora me remeto à todas as Igrejas Cristãs, é a comunidade dos que de fato acreditam em Cristo, não seria mais coerente ser o exemplo e pregar a mensagem cristã não em primeiro lugar aos outros, mas a si mesma e, portanto, não pregar apenas, mas cumprir as exigências de Jesus?

Pois muito bem, sabe o que eu acho que diria Jesus se acompanhasse, como eu, essas notícias todas de conclave pra cá, sem clave pra lá? Jesus diria:

Pai, perdoa-lhes, porque eles não sabem o que fazem.


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- O que esses palhaços estão fazendo aí, mãe? - Perguntou-me Yuki, meu caçula de seis anos, apontando pra televisão que mostrava os cardeais entrando na Capela Sistina protegidos pelos guardas em riste.


- Que isso, meu filho?

É... eu estou pegando muito pesado. Devo estar falando alto pela casa o que penso e o menino está aprendendo a se dirigir as pessoas dessa forma...desrespeitosa... Que feio, Elika. Que feio... É hora de rever tudo de novo... ver meu filhinho se dirigindo aos...se dirigindo aos...se dirig...  

- Yuki, meu filho, de quem vc está falando, afinal???

- Desses palhaços do patati patatá, mãe! Não são eles aí em pé durinhos olhando os padres?

Não é que parece???

- Eu pensava que vc estivesse se referind... esquece, meu filho, esquece. Esses aí não são os palhaços não, tá?



terça-feira, 4 de outubro de 2011

O Bem, O Mal e Eu com Tudo Isso.


Pensei muito se deveria compartilhar essa história. Afinal, muitos podem se afastar de mim depois de ouvi-la ou pior, por curiosidade e por preocupação se aproximar. Mas fato é que certos acontecimentos na vida são como um bolo de aniversário que só cumpre seu destino se for dividido entre amigos. Então, não vejo outra opção senão contar a vocês o que aconteceu comigo na semana passada, mesmo sabendo que as consequências dessa partilha podem ser desastrosas.

Era para ter sido uma segunda-feira como tantas outras. Marilene viria até aqui em casa fazer as minhas unhas no início da tarde e depois disso eu voltaria para meus livros para continuar minha pesquisa sobre o desenvolvimento da física no século XVIII. Como ocorre em todas às vezes que nos vemos, perguntei sobre como anda a vida e a sobrinha de minha manicure enquanto minhas cutículas eram subtraídas pelo ligeiro alicate.

- Como vai a vida, Marilene? Lorena vai bem?

- Lorena está cada dia mais abençoada. – Marilene, como ela mesma me explicou, é de Deus e quem é Dele responde assim quando a pessoa vai bem. No entanto, parece que a benção tinha sido mal dada por esses dias e Marilene continuou. – Mas, ela anda com diarréia e vomitando.

- Desde quando? – Perguntei preocupada lembrando do rotavírus que Yuki pegou esse ano e que quase o desidratou em um dia.

- Desde que apagou a vela da macumba semana passada. Eu e Janete tava conversando numa esquina e quando vimos ela já havia soprado a vela. Para você vê. Como criança é ingênua. Não percebe o mal que pode causar mexendo nessas coisa.

Eu cansei de ouvir bobagens desse tipo da Marilene e sempre dizia hum hummmm para não me estender no assunto. Nós, ateus, agimos estranhamente com as pessoas religiosas respeitando o que elas tem de sagrado. A nossa descrença por esse motivo é muitas vezes silenciosa.  Evitamos um confronto de ideias para não machucar ou tirar o chão de quem vive em "solos firmes".

O problema é que agora envolvia a Lorena e eu não me contive.

- Marilene, ingênua é você! Essa menina precisa ir ao médico! Já ouviu falar em dengue, vírus, rotavírus, hepatite, meningite e patati patatá? – Eu falei patati patatá porque eu não me lembrava mais nome de doença nenhuma.

- Você não acredita no Diabo não, Elika? – Marilene segurava o alicate em riste, mas eu só pensava na Lolô doente e não me intimidei.

- Marilene, eu não acredito em Deus vou acreditar no Diabo? Olha aqui, eu vou te dar um soro com sabor de tutti frutti para você dar para a Lolô e você vai fazer assim assim e assim! – Na verdade assim assim e assim pode ser substituído, na cabeça do leitor, por um discurso surreal sobre o que acontece com as crianças que não vão ao médico quando mexem com a macumba de terceiros.

A unha ficou com a graça de Deus muito boa e Marilene foi embora depois de ter me prometido que cuidaria da Lorena direitinho.

Voltei rapidamente ao trabalho no meu escritório, mas percebi que algo estranho acontecia. Eu tinha que fazer uma força descomunal para manter meu livro aberto. A mesma que fazemos quando passamos pelas portas que foram feitas para ficarem fechadas. Se perdermos o contato, elas se fecham sozinhas. Jamais uma obra impressa aqui em casa se comportou com tamanha antipatia. O que estava acontecendo com o Cassirer? Ao forçar a leitura novamente, o livro pulou da mesa e caiu todo aberto no chão. Abaixei-me rapidamente para apanhá-lo e na primeira tentativa ele escapou de minhas mãos parecendo um peixe ensaboado. Estranho... Tentei de novo. Foi, então, que vi algo parecido com as patas traseiras de um cavalo aparecerem de repente ao lado do livro estatelado no chão. O meu olhar foi subindo lentamente acompanhando aquelas pernas cobertas com pelos vermelhos donde já se via uma capa também rubra por trás delas que deveria estar amarrada no pescoço, ainda longe do meu campo visual. Continuei vagarosamente a aumentar a distância entre o meu queixo e meu colo. Passei pelos joelhos que eram meio de gente meio de bicho, pelo sexo coberto por uma sunga preta, depois pela barriga muito parecida com essas que vemos em modelos masculinos que fazem propaganda de cueca em outdoors e, finalmente, cheguei ao rosto que possuía dois chifres na testa.

Eu estava diante do Capeta.

- Vade retro, Satanás! – Gritei, por reflexo, essa frase católica medieval.

Confesso que me deu um certo medo ao olhar diretamente por aquelas íris felinas, mas também estava muito preocupada e irritada com o estado que o Diabo havia deixado meu livro que nem sequer ainda estava em minhas mãos.

- Que história é essa de você não acreditar em mim?- Perguntou-me o Belzebu com um bafo de onça.

- Ora. Deixe de conversa besta!- Falei após pegar rapidamente o livro no chão e começar a  ajeitar as folhas amassadas pela falta de cuidado com que ele havia sido arrancado de mim e arrastado por todo o piso do escritório.

- Há o Bem e há o Mal. Isso é tão claro, Érika, que fico possesso quando vejo alguém que despreza essa diferença! Quem você pensa que é para ainda ficar falando pros outros que Eu não existo?

Dei as costas pro Diabo.

- Você é uma ignorante, menina! - Satã falava com ardor.- Você não sabe nada de mim e fica me desprezando! Pois eu vou te dizer, eu fiz uma revolução contra Deus, tá? Perdi? Perdi! Fui vencido? Fui! Mas NUNCA mais O afrontei de novo! Agora? Eu estou doido para derrotá-Lo!  Você vai ver, Erika. Vou expulsá-Lo do paraíso. Ele e todos aqueles anjinhos sem-graça! E aquelas virgens infelizes! E daí, Erika, você vai ver que EU existo pra valer! Você vai ver as atrocidades que hei de cometer! – O Diabo estava cada vez mais irritado com meu desprezo e começou a falar mais alto. - Você é uma idiota, Erika! Você conhece por um acaso o meu passado? Eu era o mais inteligente da minha turma, o mais bonito, o mais amigo, o mais tudo, sabia disso? E Ele que me expulsou. Aí foi o Seu erro porque eu estudei mais ainda, corri por fora como vocês dizem e estou pronto de novo para uma nova guerra!

- Lucífer, deixe de ser chato e burro! Mas se quer fazer isso eu te pergunto: o que você acha que vai acontecer depois? O que você pensa em fazer com as pessoas que dedicaram a vida  à Deus?

- Vão todos pro inferno para deixarem de ser imbecis! Tomarei conta do paraíso, substituirei os anjinhos pelos capetinhas e as santas pelas mais belas putas! Daí você verá a diferença. - Respondeu-me sem pestanejar.

- Reflita um pouco, seu Demônio. Olhe o mundo ao seu redor! Se existe o Bem e o Mal, como você afirma, e se houve briga no passado... o vencedor foi Ele? Se Esse Deus fosse bondoso e todo-poderoso por que não fez exclusivamente o bem?  Como podemos justificar o câncer, os micróbios, a difteria e milhares de outras doenças que atacam as crianças? Já contou a quantidade de pedófilos nesse mundo? Quantos inocentes morrem por causa dos ciclones, dos terremotos, da pestilência e da fome? Jamais considerarei bondoso um ser que, tendo poder de criar um mundo sem dor, cria deliberadamente o contrário!

- É, pensando bem... – Refletiu Satanás - se ele deixou a Amy Winehouse que tinha uma voz divina chegar no estado que chegou... Imagina com o resto. - Delirou. - Mas eu vou assumir esse volante e vamos ver se você não acreditará no Meu potencial, sua incrédula ridídula!!!

- E você acha que tomando o poder vai fazer melhor do que isso ou vai conseguir piorar essa situação? Acha que vai mudar alguma coisa? Pois saiba, seu Satã, que nada vai mudar.

- Farei novas leis, sua idiota. Aliás, nem vou precisar. Só trocarei nas leis que estão em vigência, o sim pelo não e o não pelo pode.

- E a idiota sou eu? O povo continuará desobedecendo  ou  se confundindo mais ainda com essas regras, não percebe? Veja os Dez Mandamentos! Parece claro para você? Pois, então, me responda, Satã: eu deveria honrar a vontade de meus pais se eles me pedissem para quebrar algum dos outros mandamentos? Posso roubar para prevenir um assassinato? É certo quebrar o sábado santo ou mentir para salvar a vida de alguém? Se fizer novas regras ou modificar as que já existem tudo vai continuar na mesma. O bem e o mal serão sempre relativos!

O Demônio ficou olhando pro teto com a mão no queixo pontudo. Depois de uma longa reflexão, falou:

- Puxa, eu estava tão animado. Agora estou confuso...você acha mesmo que a minha luta será em vão? Acha mesmo que não devo tentar? O meu exército estava com uma animação do capeta! Pronto para a Guerra, Érika. Acha que devo dispensá-los depois desse trabalho infernal que tive? O que eu faço agora, Érika?

- Quer saber? Faça o que você quiser, faça o diabo a quatro, vá pro diabo que te carregue, mas me deixe estudar pelo amor de deus!

Belzebu percebeu que havia perdido seu tempo comigo. Bufou descontente. Foi para a janela do escritório, ajeitou a capa como se estivesse preparando para alçar vôo.

Percebi, então, que aquele pobre-diabo tinha mesmo esperança de modificar alguma coisa nesse mundo. Assim como os monges budistas. Quem sabe ele tem razão? Quem sabe há o Bem e há o Mal? Quem sabe o que realmente está acontecendo com o mundo? E ainda, como cansa de me lembrar o meu orientador: Quem sou eu para afirmar alguma coisa?

Antes que ele fosse embora precisava tirar isso tudo a limpo.

- Espere, Satã, por favor. Preciso saber de uma coisa.

- Fala, querida.- Disse ao virar somente a cabeça em minha direção.

- A vela que a Lorena apagou ... tem alguma coisa a ver com tudo o que ela está passando?

- Vela? Que vela, Érika?

- Esquece. Pode ir.

Mesmo com a capa toda aberta não o vi voar. Pelo contrário. A gravidade atuou no coitado como atua numa pedra. Ouvi lá de cima um barulho de algo pesado se chocando com o chão. Coloquei imediatamente o pescoço para fora da janela e olhei para baixo. Vi somente meu cachorro olhando assustado para mim.

E foi exatamente isso que aconteceu.

Eis o pedaço do bolo de aniversário que te ofereço hoje. Perdoe-me se não coloquei a cereja.


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Se esse texto te agradou você pode gostar também de:

Os 10 Mandamentos de Elika para Deus





terça-feira, 6 de julho de 2010

Ciclo Sem Fim


Nara tem sentido medo ultimamente. E como consequência de qualquer medo anda tendo umas visões. Minha filha que eu julguei pronta para viver quando completara oito anos, tamanha era sua independência e determinação, agora, pré-adolescente, cisma em ter a mãe ao lado na hora de dormir a anda dando uns gritos estridentes pela casa como se realmente estivesse vendo fantasmas.

Achei estranho e resolvi apurar o caso com a delicadeza de uma bailarina e a esperteza de Sherlock Holmes. Enfim, coisas que só as mães sabem fazer.

- Nara, desembucha logo e diz o que está acontecendo. – Essa sou eu, como sabem. Quando sou firme e não sei ao certo o que fazer, eu falo desse jeito aí.

- Ai, mãe, você nem vai acreditar, mas a Aline é espírita e a Erica estava me explicando que quando a gente morre, a gente fica por aí, sabe? Quer dizer, uns ficam, outros voltam em uma outra pessoa, sei lá, mãe, uma confusão. E a Izumi disse que é espírita também porque estava fazendo um trabalho sobre o nosso bisavô que morreu na guerra e começou a sentir umas coisas. Daí, a professora disse que ela estava sentindo o espírito dele e ela que anda meio mística ultimamente falou para mim que era espírita agora. Ai, mãe, eu acho que sou espírita também porque ando vendo umas coisas que eu não quero ver...

- Deixa de bobeira, Nara! – Disse eu tentando usar sem sucesso o que aprendi nos livros de Içami Tiba.

Expliquei depois, mais comedida, que algumas crianças da roça juram de pé junto que já viram mula-sem-cabeça, que quando estou sozinha em casa e com medo de ladrão qualquer vento batendo na janela me assusta, que os católicos veem a Nossa Senhora numa nuvem...

- ... e tem mais, madame, se for sair por aí dizendo que é espírita tem que saber sobre o que está falando!

Eu, na verdade, estava despreparada como os pais pegos de surpresa quando os filhos perguntam de onde vem os bebês. Por  mais que eu tenha um parecer bem definido sobre o tema, eu não me sinto preparada para discutir ainda, com profundidade,  questões dessa natureza com um filho.  Achei o debate precoce. Mas, o que eu não queria decididamente naquele momento  é que  Nara formasse uma opinião somente com o que chegasse pelos ouvidos. Em se tratando de algo tão importante, que será o alicerce para a  visão que se terá de mundo e consequentemente para a vida, é preciso experimentar por todos os sentidos. Beber de várias fontes não como os jogadores bebem água no intervalo de uma partida, mas sim como os enólogos que visualizam o vinho no copo, sentem o aroma, verificam a textura para enfim, só depois, degustá-lo.

Não posso me esquecer de que esteja ou não essa explicação correta, não há dúvida de que a religião tem tido o papel de fazer com que as pessoas se contentem com o que possuem e com o que deixam de ter de uma hora para a outra. Todos, em maior ou menor grau, viveriam bem menos angustiados sendo religiosos. Vai que Nara precise disso...

- Toma aqui. - E dei a ela, com a mesma vontade e insegurança de uma criança que devolve o brinquedo do amigo, o Livro dos Espíritos de Allan Kardec. Nara ficou olhando assustada para a capa.

- Quem foi esse cara?- Perguntou minha filha apontando o desenho do rosto do autor estampada na capa e desprezando completamente a minha vontade silenciosa de adiar a discussão.

Antes de responder a essa pergunta, descontrolei-me ao ver a Nara folheando, curiosa, o livro que eu mesma havia acabado de colocar em suas mãos.

- Presta atenção, mocinha, num fato interessante: quando alguém tem uma experiência religiosa que provoca a sua conversão, é sempre para a religião ou para uma das religiões mais comuns em sua própria comunidade. E há tantas possibilidades, Narinha ...por exemplo, é muito raro por essas bandas daqui que alguém tenha uma experiência religiosa que leve à conversão para uma religião em que a principal divindade tenha a cabeça de um elefante!

- Cruzes, mãe! Que doideira!

- É, mas fique você sabendo que na Índia existe um deus meio rosa de cabeça de elefante que tem muitos devotos! Por que a Virgem Maria não aparece lá na China onde não há tradição cristã pronunciada? Por que os detalhes da crença religiosa não ultrapassam as barreiras culturais? Se você quiser muito saber a Verdade, é necessário ficar esperta, mocinha. Quando compramos um carro usado não basta lembrar que precisamos de um carro. Afinal de contas, ele tem que funcionar! Não basta que o vendedor seja simpático, carismático e bem articulado. Mesmo diante de uma figura dessas, chutamos os pneus, abrimos o capô, verificamos o odômetro...ou até chamamos um amigo que entenda de carros mais que a gente! Fazemos tudo isso por uma coisinha assim, como um carro. Em questões sobre a origem do mundo, a natureza dos seres humanos, como devemos nos comportar? Lembre-se disso ao ler essas páginas, ok?

E no momento que estava falando tive uma epifania que subitamente me acalmou. Meu coração desacelerou com a entrada lenta do ar que preencheu ao máximo meus pulmões e os deixou com a mesma demora.

- Nara, minha filha, na verdade eu acho que a busca é válida e que deva ser praticada sempre, mas não com o intuito de descobrir a resposta e ficar com a sensação arrogante de que a possui perante os outros que ainda não a encontraram. Mesmo porque eu acho que se algum dia chegarmos a ponto de imaginar que compreendemos a fundo quem somos e de onde viemos, teremos fracassado. Buscar não é impor ao Universo ou a Deus nossas predisposições emocionais, mas aceitá-Los com coragem e receber com humildade o que a nossa exploração revelar. A propósito, esse cara da capa foi o fundador do espiritismo. Allan Kardec, Nara. Nara, Allan Kardec. Agora que vocês dois já se conhecem , vão conversar em outro lugar, por favor.

Verbalizei a minha vontade de ficar só e fui respeitada da mesma hora. Nara pegou o livro pelos braços como se abraçasse um amigo. Agora lá estão eles iniciando uma grande discussão e cá estou eu refletindo sobre o que ando fazendo com meus filhos.



sexta-feira, 16 de abril de 2010

Acorda, Rosely Sayão!



Hoje de manhã, indo para o CEFET animadíssima e engarrafadíssima na rua Goiás, às seis e quarenta da manhã, liguei o rádio para ouvir as notícias do dia (anterior) pela bandi nils éfe eme.

Exatamente nesse horário, há uma conversa com uma tal de Rosely Sayão, uma psicóloga super conceituada que transforma os problemas mais cavernosos em coisinhas assim, super simples e fáceis de lidar. Os pais ligam para ela se descabelando e saem da conversa todos penteadinhos sabendo direitinho o que fazer.

Mãe esperta que sou de três filhos em idades completamente diferentes, sei exatamente o que deve ser feito com os filhos dos outros e, na maioria das vezes que a ouço falando e aconselhando, eu me sinto apta a trocar de lugar com essa tal de Rosely. Acho o trabalho dela super simples e as respostas muito óbvias. Por exemplo, se o filho só quiser comer doce na hora do almoço... o que fazer? Moleza, não? E quando o meu filho adolescente não larga o celular?, como limitar o horário do computador?, e se meu filho quiser sair e eu não tiver dinheiro??? Rosely, a psicóloga-cabeça, fala um blá-blá-blá lá afirmando sempre que os pais devem ser mais incisivos em casos como esses, o que traduzido para o vulgo quer dizer que essas coisas se resolvem facilmente no grito e quase nunca na conversa. Nem precisava estudar para ser uma Rosely Sayão. Tudo o que ela diz, ou melhor, dizia que deveria ser feito com essa molecada alheia é patente e eu, claro, concordava. Até que hoje...

Rosely, uma mãe aqui está desesperada porque o filhinho dela de quatro anos vai para a cama dela tooooooda noite. A mãe diz que pega o menininho, coloca de volta na cama, mas diz que ele volta! E esse procedimento acontece umas quatro ou cinco vezes até que a mãe cede e acaba dormindo mal por conta disso. O que fazer, Rosely? Perguntou Inês de Castro, a radialista. Eu, no carro, imaginando essa cena, sendo mãe de um garotinho de três anos que dorme segurando um carrinho, esbanjei sabedoria e respondi à mãe sem titubear: coloca um colchonete no quarto, senhora! Mega óbvio a resposta. Problema resolvido. Simples assim. Sem traumas e aborrecimentos. Próximo! Mas qual o quê! Rosely veio com um conselho pra lá de bizarro. Eu não a conheço pessoalmente nem sei como ela é fisicamente e nunca quis saber, mas hoje comecei a imaginar uma velha de cabelos grisalhos, longos e alvoroçados, portadora de um nariz grande com uma verruga na ponta e usando um chapéu grandão, roxo, em forma de cone falando no microfone. Inês, essa mãe tem que ser mais persistente. A criança tem que aprender que deve dormir sozinha. SO-ZI-NHA? Gritei eu no carro já suando me imaginando no lugar do menininho. Isso mesmo, Inês!, respondeu Rosely me confundindo com outra. O menininho tem que ver que não adianta ele ir para a cama dos pais e que a noite é cada um no seu quadrado, quer dizer, no seu quarto! Que absurdo! Mil vezes que absurdo. Fala sério, Rosely!

Eu, até eu!, que só fui dormir sozinha pela primeira vez quando fui a São Paulo há dois anos atrás (na verdade eu não consegui dormir, mas isso não vem ao caso), sei que todos os bichos do Universo dormem juntos. As galinhas, os macacos, os peixinhos e os passarinhos. Quando um se separa é porque acha que se garante e até onde eu saiba não é o caso nem do leão e nem do gavião! Aqui em casa, todos tem um quarto separado, mas se alguém se sentir inseguro pode vir que eu protejo. E quando meu marido viaja, eu faço questão, mesmo que eles não queiram, de protegê-los. Bóra dormir com a mamãe, galera. Se, por um acaso, eles dispensarem meu quarto eu pego um colchonete e fico de prontidão dormindo ao lado deles. Comigo é assim. Passo a maior segurança pra garotada.

Taaí. Hoje dona Rosely Sayão me decepcionou. Mandei um email para lá manifestando a minha indignação e me colocando à disposição para os ouvintes caso precisem de maiores esclarecimentos sobre o tema. Pelo que tudo indica, o email foi desprezadaço. Por isso vim pra cá, onde sou levada super a sério.



terça-feira, 16 de março de 2010

Saber amar não é amar. Amar não é saber.*

*Marcel JouhandeauHoje fui surpreendida pela manchete “Escritora afirma que as mulheres podem aprender a adestrar seus maridos”. Fiquei curiosa. Não porque Nelson precise de adestramento, aliás, não acredito que algum marido precise, mas o que me instigou foi o fato de constatar que aquilo não era brincadeira. Era de verdade. A autora se diz com a chave para salvar um casamento ruim. Cansada das atitudes do próprio marido, ela resolveu adotar alguns truques usados para adestrar cachorros, golfinhos e baleias. E o resultado, garante Amy Sutherland, foi sensacional. Em dois meses, seu marido ficou mais amoroso e menos briguento. A reportagem adiantava algumas dicas e recomendava fazer o teste em casa.

Coincidentemente, neste final de semana, por insistência de minha manicure, assisti ao filme “Prova de Fogo” que, de uma maneira não muito diferente da adestradora de maridos, nos dá a solução para os difíceis problemas que aparecem naturalmente devido à união legítima de um homem com uma mulher. União com pessoas de mesmo sexo não se enquadra nem no livro de Amy (que ensina como se relacionar com uma “espécie” diferente) e muito menos no filme que Marilene me indicou, pois este tinha como principal função propagar a religião evangélica e, como todos sabemos, homossexuais, para os homens machos de Deus, é obra do demônio.

Peguemos, primeiramente, algumas dicas preciosas do livro "O que a baleia Shamu me ensinou sobre vida, amor e casamento" (acreditem, esse é o título do livro). Amy nos aconselha a parar de reclamar ou gritar, devemos tratar os maridos à base de carinho e compreensão, ou seja, fazer o adestramento positivo. Para eles, as reclamações geram falta de comunicação e agressões. Devemos, aponta a autora, identificar a “raça” dos nossos parceiros, ou seja, identificar se gostam de futebol, ou se são loucos por carros e corridas, ou se são cinéfilos, coisas assim, pois, entender como seu marido funciona é o primeiro passo do adestramento e segue dizendo que devemos respeitar a natureza da raça. Outra coisa que Amy atenta é que devemos ignorar o comportamento ruim já que os homens, assim como os cachorros, são motivados pelos elogios. Por isso, também não podemos esquecer de sempre elogiar, elogiar e elogiar. De quebra, devemos oferecer sempre brindes. Lembre-se que cachorros adoram petiscos e como é tudo a mesma coisa... e, para finalizar essa inacreditável lista, a autora nos diz para ter muita paciência. Seguindo esses e mais outros passos explicados detalhadamente no seu livro, o seu casamento vai ser a sua principal fonte de orgulho e alegria.

O filme que como já disse propaga uma religião cristã faz a propaganda de um livro que virou febre na comunidade evangélica: “A Arte de Amar” ou algo que o valha. Não seria em nada diferente do livro de Amy senão fosse a omissão do paralelo que se faz entre os homens e os animais adestráveis. Cada página é uma dica valiosa de como agradar ou não se irritar com o próximo e todas juntas se resumem em aprender a respeitar a pessoa com quem convivemos. No filme é mostrado de forma incisiva que só conseguiremos aplicar, sem dificuldades, as 40 páginas do livro e alcançar a paz que merecemos se deixarmos que Deus entre em nossas vidas.

Dispenso tudo isso e ainda acho graça. Não preciso de manual para lidar com qualquer pessoa que seja normal. Aprendi a respeitar não porque li em algum livro ou porque algum pastor ou padre tenha falado que Jesus se alegraria se eu assim o fizesse, mas sim porque sempre fui respeitada dentro de casa. O contrário disso, que só fui aprender na rua, não foi bom e por isso mantenho distância. Com o amor não foi diferente. Já nasci sabendo amar porque desde o instante em que nasci fui amada e conforme fui crescendo e conhecendo pessoas exercitei, naturalmente, e cada vez mais intensamente, a tal arte.

Sei que tive sorte por sempre ter vivido num lar harmonioso e que minha posição, ao sair julgando as pessoas que recorrem a esse tipo de livro ou religião, é muito cômoda. Porém, fica registrado o meu lamento pela infelicidade daqueles que leram a manchete e foram se inteirar da notícia por necessidade de ter um casamento sem maiores encalços e, principalmente, por aqueles que saem de casa para ouvir um pastor lhes ensinar, em troca de algo que possa sujar ou perecer, como alcançar a paz dentro de um lar.

Em tempo (se há o direito ao grito porque não gritar?), tanto seguindo o manual escrito por uma maluca quanto por um Deus evangélico não conseguiremos alcançar felicidade plena alguma, pois, ambos acabam afirmando de uma forma ou de outra que o amor é uma soma de compreensões. Isso sim é a receita para vivermos sufocados! A verdade é que eu também, ao certo, não sei definir esse sentimento. Suspeito, entretanto, que somente amamos verdadeiramente quando nos deleitamos com a felicidade do outro e conseguimos reunir, mesmo que com algum ou muito esforço, em um mesmo total, todas as nossas incompreensões.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Leia a Bíblia, tia Jú!


Esta gravura é uma ilustração de uma passagem da Bíblia: Abraão a ponto de matar seu filho Isaac.


Ando sem paciência com as igrejas de uma forma geral, mas a igreja Evangélica tem me tirado do sério. Tento fugir dos evangélicos, mas hoje em dia, como todos podem perceber, eles estão por todas as partes nos forçando a “aceitar Jesus” como se alguma vez na vida eu o recusasse e obrigando-me a ler as Sagradas Escrituras como se eu eu já não a tivesse lido.

A falta de leitura e o excesso de novela da grande parte da população carioca sempre me incomodaram. Nos três anos em que fui professora da rede estadual do Rio de Janeiro convivi com a triste realidade de lidar com um grande número de pessoas que não lêem nem bula de remédio e, óbvio, gastava infinitamente mais tempo para fazê-los entender coisas simples que outros, ainda que com pouca leitura (mas pelo menos com pouca), entendiam. Ah sim, antes que me esqueça, sempre que perguntava (e perguntava sempre) o que eles estavam lendo, quando havia alguém lendo alguma coisa dizia que era a Bíblia. Ótimo! Dizia eu! Pelo menos vai questionar o que está escrito nas Sagradas Escrituras, pensava. Mas quando ia discutir determinadas passagens, verificava que elas eram todas desconhecidas. Dizia que lia mas era mentira.

Fato é, constatado e facilmente percebido, que os evangélicos em sua maioria nada lêem. Muito menos a Bíblia que é um livro super grosso e sem gravuras. O que me agride é que essas pessoas seguem um determinado pastor que prega, sempre segurando a Bíblia, que aquilo que Nela está escrito é a palavra do Senhor e deve ser seguido. Em cima disso, fazem o discurso lavando cerebralmente e facilmente seus fiéis, já que nada lêem, arrancando deles o que conseguir. A eficiência dos pastores é medida pela quantidade de bens materiais que conseguem arrancar de seus fiéis que, por sua vez, provam o tamanho de sua fé com o que lhe é oferecido.

Marilene, minha manicure, e tia Jú, irmã de minha sogra, são evangélicas. Ambas seguem um pastor e estão na promessa de ler a Bíblia desde que “aceitaram Jesus”. Devido à convivência e o fato de gostar muito das duas, tenho que ouvi-las sempre. Sinto-me, no entanto, na obrigação de alertá-las sobre o fato de que a Bíblia tem que ser realmente lida como tantos outros livros mas não deve ser encarada como A Verdade. Quando digo isso elas se estremecem, se assustam, pedem, inutilmente, piedade pela minha alma.

A maioria de nós não provoca sofrimento desnecessário; acreditamos na liberdade de expressão e a protegemos mesmo quando discordamos do que está sendo dito; pagamos nossos impostos; não traímos, não matamos, não cometemos incesto, não fazemos aos outros aquilo que não queremos que façam conosco. Alguns desses bons princípios podem ser encontrados em livros sagrados, concordo com vocês duas, mas enterrados junto com um monte de coisas que nenhuma pessoa decente gostaria de seguir. Enfim, as Sagradas Escrituras, definitivamente, NÃO fornecem regras para distinguir os bons princípios dos ruins!

Agora quem resolveu salvar essas duas das trevas fui eu. Peguei a Bíblia, separei algumas partes para mostrar o que nenhum pastor mostra e muito menos discute. Para provar que não estou mentindo deixo para quem quiser a referência de onde tirei cada passagem.

Comecemos no Gênesis com a adorada história de Noé. A lenda dos animais entrando na arca aos pares é linda, mas a moral da história de Noé é assustadora. Deus condenou os seres humanos e resolveu (com exceção de uma família) afogar todos eles, incluindo as crianças, e também, por via das dúvidas, o resto dos animais (presumivelmente os inocentes).

Apesar de muitos teólogos (mas nenhum evangélico) já entenderem que não se interpreta o livro do Gênesis em termos literais um número assustadoramente grande de pessoas ainda interpreta as Escrituras, incluindo a história de Noé, de forma literal. Na destruição de Sodoma e Gomorra, foi Ló, sobrinho de Abraão, o escolhido para ser poupado junto com a sua família por ser especialmente correto. Dois anjos foram enviados a Sodoma para avisar a Ló e dizer que ele saísse da cidade antes da chegada do enxofre. Ló recebeu os anjos com hospitalidade, e então, todos os homens de Sodoma reuniram-se em torno da casa dele e exigiram que Ló entregasse os anjos para que eles pudessem sodomizá-los: “Onde estão os homens que vieram para sua casa esta noite? Traze-os para que deles abusemos”(Gênesis, 19,5). A bravura de Ló ao recusar-se a ceder à exigência sugere que Deus deve até ter tido razão ao considerá-lo o único homem de bem de Sodoma. Mas a auréola de Ló fica manchada com os termos de sua recusa: “Rogo-vos, meus irmãos, que não façais mal; tenho duas filhas, virgens, e vo-las trarei; tratai-as como vos parecer, porém nada façais a estes homens, porquanto se acham sob a proteção de meu teto” (Gênesis, 19,7-8).

Por mais estranha que a história possa parecer, ela certamente nos indica alguma coisa sobre o respeito reservado às mulheres nessa cultura inteiramente religiosa. No final, a oferta que Ló fez da virgindade de suas filhas mostrou-se desnecessária, pois os anjos conseguiram afastar os opressores cegando-os por milagre. Eles então advertiram Ló para que partisse imediatamente com a sua família e seus animais porque a cidade estava prestes a ser destruída. A família inteira escapou, com exceção da pobre mulher de Ló, que o Senhor transformou num pilar de sal por ter cometido a ofensa de olhar para trás para ver os fogos de artifício.

As duas filhas de Ló fazem uma breve reaparição na história. Depois da mãe delas ter sido transformada num pilar de sal, elas moram com o pai numa caverna, no alto de uma montanha. Carentes de companhia masculina, adivinha (!), elas decidem embebedar o pai e copular com ele. Ló não percebeu quando sua filha mais velha chegou a sua cama, mas não estava bêbado demais para engravidá-la. Na noite seguinte as duas filhas combinaram que era a vez da mais nova. Novamente Ló estava bêbado e engravidou a mais nova também (Gênesis, 10, 31-36). Se essa família tão perturbada era a melhor que Sodoma tinha a oferecer em termos de princípios morais, dá até para entender o enxofre punitivo mandado por Deus!

A história de Ló e os sodomitas ressoa de forma assustadora no capítulo 19 do livro dos Juízes, quando um levita (padre) não identificado viajava com a concubina em Jebus. Eles passaram a noite na casa de um velho hospitaleiro. Enquanto jantavam, os homens da cidade chegaram e bateram à porta, exigindo que o velho entregasse seu convidado “para que dele abusemos”. Praticamente com as mesmas palavras de Ló, o velho disse: “Não, irmão meus, não façais semelhante mal; já que o homem está em minha casa, não façais tal loucura. Minha filha virgem e a concubina dele trarei para fora; humilhai-as e fazei delas o que melhor vos agrade; porém a este homem não façais semelhante loucura”(juízes 19, 23-24). Acho o termo “humilhai-as” especialmente aterrador. Divirtam-se humilhando e estuprando a minha filha e a concubina desse padre, mas mostrem o devido respeito por meu convidado, que, afinal de contas, é homem. A concubina não teve a mesma sorte que as filhas depravadas de Ló.

O levita a entrega à multidão que a estupra coletivamente a noite inteira: “E eles a forçaram e abusaram dela toda a noite até pela manhã; e , subindo a lava, a deixaram. Ao romper da manhã, vindo a mulher, caiu à porta da casa do homem, onde estava o seu senhor, e ali ficou até que se fez dia claro”(Juízes 19, 25-26). De manhã o levita encontra a concubina prostrada na porta e diz: “Levanta-te e vamos”. Mas ela não se moveu. Estava morta. Então ele “tomou um cutelo e, pegando a concubina, a despedaçou por seus ossos em doze partes; e a enviou por todos os limites de Israel”. Sim. Você leu certo. Pode olhar em Juizes 19, 29. Mas a história não é tão maluca quanto parece. Havia um motivo: provocar uma vingança. E deu resultado, pois o incidente causou a guerra de desforra contra a tribo de Benjamim, na qual, como o capítulo 20 de Juízes ternamente registra, mais de 60 mil homens foram mortos. Essa história é tão parecida com a de Ló que não dá para não especular se algum fragmento do manuscrito sem querer não se misturou em algum escritório esquecido de um monastério.

Esses episódios desagradáveis não passam de pecadilhos se comparados à infame lenda do sacrifício de filho de Abraão, Isaac. Deus determinou que Abraão transformasse seu filho querido em oferenda em forma de fogo. Abraão construiu um altar, colocou lenha sobre ele e amarrou Isaac sobre a lenha. A faca assassina já estava em suas mãos quando um anjo interveio drasticamente, com a notícia de uma mudança de planos de última hora: Deus estava apenas brincando, no fim das contas, estava apenas testando a fé de Abraão. Ufa! Mas, como uma criança conseguiria se recuperar de tamanho trauma psicológico? Essa lenda que se assemelha a um filme de terror é um dos exemplos citados por vários pastores sobre a força da fé.

Mais uma vez muitos podem dizer que as Escrituras não devem ser encaradas ao pé da letra. Mas sim, Elas são encaradas como fatos literais e como exemplos a serem seguidos. Quem me disse isso foi Marilene e tia Jú fervorosamente. E mesmo se não for como fato literal, como já me cansou de alertar a minha mãe, como devo encarar todas essas histórias? Como uma alegoria? Alegoria de quê? Certamente de nada digno de louvor. Como lição moral? Mas que tipo de princípio moral podemos tirar dessas histórias, pastor? Ah, mas tem outras histórias lindas nas Escrituras...você está sendo radical! Alertou-me um pastor quando fui questioná-lo com meus 17 anos e com a minha Bíblia devidamente lida. Se é assim, pastor, precisamos ter algum critério independente para decidir quais trechos são morais: um critério que venha de onde vier, não pode vir da própria escritura.

Mas, minha filha, voltemos a história que tanto te incomoda, continuou o pastor, não foi bom que Deus tenha poupado a vida de Isaac no último minuto? Ah sim, seu pastor, isso prova que Deus realmente é bom, mas a onisciência cai por terra já que Ele não foi capaz de entrar na cabeça de Abraão e poupar a criança do trauma. Mas tudo bem, vou te mostrar outra história com um final menos feliz. Em Juízes, capítulo 11, o líder militar Jefté fez uma troca com Deus combinando que, se Deus garantisse a vitória de Jefté sobre os amonistas, Jefté sacrificaria, sem falta, na fogueira, “aquele que sair primeiro da porta da minha casa e vier ao meu encontro, voltando eu.” Jefté tinha mesmo a intenção de derrotar os amonistas e voltou para a casa vitorioso. Como era de se esperar, sua filha, única filha, saiu de casa para recebê-lo e, que pena, foi a primeira a sair pela porta. Jefté rasgou suas roupas, compreensivelmente, mas não havia nada que pudesse fazer. Deus estava ansioso pela oferenda prometida, e dadas às circunstâncias, a filha, respeitosamente, concordou em ser sacrificada. Ela só pediu permissão para ficar dois meses na montanha para lamentar a sua virgindade. Ao fim desse período ela voltou, obediente, e seu pai a cozinhou. Deus não achou por bem intervir nesse caso.

Mostrei esses trechos à Marilene e à tia Jú. Poderia mostrar outros já que minha Bíblia está toda grifada mas o rosto delas me mostrou que já era o bastante.

Refletiram. Ponto para mim.
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Parece que o presidente dos Estados Unidos pensa como eu. Fica aqui o vídeo para quem quiser conferir:

domingo, 7 de junho de 2009

Os 10 Mandamentos de Elika para Deus

Este texto teve como motivação o desastre do vôo 447 (a gota d'água).



Quando eu era criança eu ia à Igreja todos os domingos. Fiz catecismo e Primeira Comunhão. Mas não era toda semana que eu comungava. Às vezes, esquecia-me de confessar e com a vida plena de pecados ainda não contados para o padre, presbítero ou bispo, não era digna de receber o corpo de Cristo. Para ter direito a experimentar um pedaço de algo feito de água, farinha de trigo sem fermento e nem sal e que pesa menos de um grama, tinha que contar meus poucos segredos para um homem que nesse momento atuava em nome de Jesus e que me dava em seguida uma penitência. Depois de rezar um determinado número de Ave-Marias e Pais-Nossos, os danos causados pelos meus pecados eram reparados aos olhos do Senhor. Graças a Deus.

Como toda criança que frequentava a Igreja, eu morria de medo do Papai do Céu. Temia despertar sua ira e Ele acabar me mandando queimar no fogo do inferno. O padre com seus sermões elaborados especificamente para o público infantil das manhãs de domingo, fez-me crer que as Escrituras e o Antigo e o Novo Testamento eram um guia confiável para o que deveríamos acreditar. Não eram meramente documentos religiosos. Eles nos proporcionavam um relato verdadeiro sobre e história da Terra, que se ignorássemos seria por nossa própria conta e risco.

Como nunca neguei fogo para a leitura, não era raro aos 11 anos estar lendo uma Bíblia que tia Isa nos deu. Ela era escrita especificamente para as crianças. No Êxodo 20:2-17 encontrei os Dez Mandamentos. Fiquei curiosíssima, na época, pelo fato deles terem sido originalmente escritos por Deus em tábuas de pedra e entregues ao profeta Moisés. As famosas Tábuas da Lei. Este, ao apresentar os mandamentos do amor a Deus (os quatro primeiros) e ao próximo (os outros seis), traçava, para o povo eleito e para cada um em particular, o caminho duma vida liberta da escravidão do pecado. Como já disse em outros textos, sou um bom soldado. Bastava seguir aquelas 10 regras e estaria livre de ser fritada pela eternidade. Simples assim.Vejamos o que eu tinha que saber e fazer:

1- Eu Sou o SENHOR, o teu Deus
2- Não terás outros deuses além de mim
3- Não tomarás em vão o nome do SENHOR, o teu Deus
4- Lembra-te do dia de sábado, para santificá-lo
5- Honra teu pai e tua mãe
6- Não matarás
7- Não adulterarás
8- Não furtarás
9- Não darás falso testemunho contra o teu próximo
10- Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo.

Mesmo sem hoje pertencer à nenhuma religião, posso dizer que diante dessa tábua eu sou quase uma santa. Supondo que exista verdade nessa história de Moisés, que nos dizia também que a tábua original foi quebrada e que Deus teve que fazer uma outra, percebo que há, mesmo que pequena quando comparada com toda a Sua obra, uma certa fraqueza no Nosso Senhor. Por que a primeira tábua não era inquebravel? Ele devia estar tão preocupado com o que ia escrever sobre a tábua que passou despercebido o fato dela poder ser destruída assim que chegasse à Terra. Aquilo me fez pensar se em outras situações mundanas, Deus também não teria dado uma piscada mais longa e as negligenciado sem querer.

Até hoje, quando vejo ou ouço certas coisas, me pergunto: será que Deus estava dormindo? Mas, agora, lembrando-me dessa passagem bíblica, decidi ter uma outra postura. Ao invés de ficar brigando com Ele, resolvi que posso ajudá-Lo. Retribuindo a preocupação e a atenção que Ele teve comigo em deixar por escrito o que eu deveria e não deveria fazer, hoje, faço o mesmo. Deixo por escrito 10 mandamentos para que erros, com certeza ocorridos pelo fato Dele estar ocupado com coisas mais importantes, não tornem a acontecer. Tenho certeza de que se alguém tivesse dado esses toques antes algumas desgraças não teriam acontecido.

1- O Senhor pode fazer com que alguns aviões caiam. Mas está terminante proibido de fazê-lo quando o destino for Paris.

2- Jamais mate torcedores de enfarto quando o time pelo qual torcem ganhar a partida. E em hipótese alguma na hora do gol. Todos tem o direito de saber o que é a felicidade; embora, já entendamos que nem todos tenham o direito de ser feliz.

3- Nunca devemos ter medo de salvar o próximo. Para tanto, fique atento nesse momento para que a vida de heróis seja preservada.

4- Toda burrice poderá continuar sendo imperdoável. Mas cuidado! Crianças geralmente não são burras e a ingenuidade deve ser estimulada na infância e não castigada.

5- Os artistas merecem mais cuidados. Talvez a distância esteja Te enganando pois, de longe, todos somos iguais. Eles só devem ser levados embora após terem esgotado toda a sua produção por aqui.

6- Defina melhor “mulher do próximo”. As leis dos homens mudaram e isso pode estar nos confundindo. São as mulheres que são mantidas como reféns? São as que dependem financeiramente do homem? As casadas no civil e no religioso? Que namoram por mais de dois anos? Ou somente as que são felizes com seus parceiros?

7- Esclareça de novo, por favor, o dia da semana para ser santificado. Algumas religiões mudaram o dia para Domingo e tem um bando de puxa-saco querendo ir à Igreja ou ficar rezando todo dia e o dia inteiro achando que vai Te agradar mais ainda. Explique melhor que basta um dia e determine com clareza qual deve ser.

8- Fique mais atento nas florestas para que elas não sejam palcos frequentes de crimes hediondos como estupros (Outro dia, a vítima foi uma criança deficiente, não sei se Você soube desse caso). Creio que a mata dificulte uma fiscalização feita só de cima. Portanto, desça de vez em quando.

9- Evite temporais quando a noite for de lua cheia. Precisamos de mais poetas.

10- Devolva-nos o Elvis.



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Quando estava terminando de escrever os 10 mandamentos minha mãe (que mora a 20 metros de minha casa e já foi, outrora, uma católica fervorosa) me ligou dizendo que havia acabado de fazer um chá. Ao chegar lá, ela me perguntou o que eu estava fazendo em casa já que estava tão quieta (eu ligo para ela de quinze em quinze minutos e fazia uma hora que não ligava). Disse que estava escrevendo e sobre o que estava escrevendo. Nada detalhado. Falei só da idéia principal do texto.

Você sabe que os 10 mandamentos (na verdade os 6 últimos) se resumem em um só, né, Elika? Antes que eu respondesse, ela emendou: Amai ao próximo como a ti mesmo. Pensando bem, mãe, agora que você falou isso, os meus 10 também podem ser resumidos em uma única frase. É, minha filha, e qual é? Perguntou mamãe com um orgulho precipitado. Não nos sacaneie. E mordi a torrada.

Após ouvir minha resposta, mamãe, inutilmente, levou a mão direita, respectivamente, à testa, entre os peitos, ao ombro esquerdo e finalmente ao ombro direito.