sábado, 15 de setembro de 2012

Ovos com Espírito de Porco



Como tem ovo ruim nesse mundo. Meodeos...


Gostou? Quer ver mais o que esses ovos aprontam pela minha casa e pelo mundo?





quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Raciocínio Lógico



Estou em São Paulo participando de um Congresso de História da Ciência e da Tecnologia na USP. Ontem foi o único dia que deu para eu passear a tarde e aproveitei para conhecer alguns pontos turísticos. Fui no famoso bairro da Liberdade, na famosa Praça da Sé, no famoso Teatro Municipal e me desesperei no famoso engarrafamento onde percebi que os paulistas acreditam que o ato de buzinar pode fazer o carro da frente se desintegrar. Cheguei ao hotel cheia de dores de cabeça...

Hoje, porém, não deu tempo para nada. Houve atividades o dia inteiro no congresso e, para piorar, a tarde foi a minha apresentação de forma que eu estava mega concentrada com medo de esquecer alguma coisa caso balançasse muito a cabeça. O trabalho era sobre o desenvolvimento da Física no século XVIII, mostrei que o assunto é confuso e que eu não estou entendendo bulhufas da dinâmica da coisa. Na verdade o que eu apresentei foi a minha ignorância sobre o assunto. Ainda assim acho que agradei aos três espectadores. Fui super fofa, coloquei uns memes na apresentação quebrando todos os paradigmas enquanto pesquisadora séria. Me aplaudiram de pé no final. Primeiro porque eu era a última a apresentar e já estava todo mundo de saco cheio e doido para ir embora, depois porque é de praxe bater palmas para qualquer pessoa que fale absolutamente qualquer bobagem em congressos. Mas isso são detalhes que ninguém precisa saber. 

Vamos ao que interessa e que me fez no final do dia vir aqui no meu blog para escrever. Voltando da USP quase chegando no hotel no início da noite passei por uma loja de roupas de mergulho. Como o dia foi tenso pensei: por que não? Não tenho roupa de mergulho e mergulhar deve ser bom. Vai que um dia eu precise, vai que um dia eu compre uma lancha ou vá a Miguel Pereira? Perdi uma oportunidade uma vez de curtir uma piscina lá só porque deteeeeesto água gelada. Eu via os amigos nadando, pulando na água sem medo, se divertindo a vera e a brinca* e morria de inveja. Taí. Ouvi dizer que essas roupas não deixam a gente sentir frio. Menos um problema na minha vida! Está tudo dando certo hoje!

Entrei na loja.

Veio o moço:
- O que a senhora deseja? - Perguntou o vendedor nada original.
- Eu desejo não sentir frio quando mergulhar. - Respondi claramente.
-A gente tem roupa de cinco milímetros. - Ele disse me olhando toda de cima a baixo.
- Muito engraçadinho, moço. Acho que sou maior do que isso.- Falei super antipática não gostando nem um pouco daquela brincadeira feita por um desconhecido.

Daí ele riu. Eu fiquei super aborrecida com a grosseria. Agradeci e dei-lhe as costas.

- Senhora, espere! Desculpe, deixe eu mostrar o que tenho aqui pra senhora. - Arrependeu-se, certamente, o vendedor.
- Eu quero essa grossa. De manga comprida. - Explanei decidida.
- Ok. Qual o seu tamanho?- Perguntou de novo o engraçadinho.
- Um metro e meio. - Falei séria.
- Eu estou falando se a senhora veste pê, eme ou gê, senhora. - O vendedor burro que não sabe nem perguntar sem ambiguidades, explicou-se.
- Pê. 
- Eu acho que a senhora é eme. - Perdeu completamente a noção o cara.
- Pois sim que sou eme! Pois sim! Me dá a pê da grossa. - Ordenei já doida para sair dali.
- A senhora não vai experimentar?

Qual o quê...A loja tinha pouco movimento e havia somente dois vendedores machos. No mais, eu ando "me achando" pelas ruas e desconfiando que todo homem que se aproxima de mim quer me estuprar. Síndrome de gostosa-ligada-nas-notícias. Avaliei o local e achei que corria altos perigos.

- Muito obrigada. O pê vai servir com certeza. - Mandei na lata a minha excelente forma física.
- Ok. Qual a forma de pagamento? - Finalizou o tarado.
- Quanto é? 

Eu sabia que tinha duas notas de cem reais na carteira e borracha é coisa barata. 

- Shyrtxlcentos reais. - Respondeu jack, o vendedor estripador.

Fala sério! Se fosse de seda vá lá! Mas de borracha? O outro vendedor se levantou e já estava embrulhando aquela goma elástica. Seria o maior mico falar que não queria mais. Estava vindo de um congresso. Com crachá e tudo. Toda de salto alto, meu povo.  O dia havia sido perfeito. O meu ego estava brilhando...Fala sério! Acabei dando o meu cartão de crédito e parcelei em trinta e seis vezes.

Assim que cheguei no hotel resolvi experimentar a nova aquisição que custou os olhos da cara e o orgulho da minha alma. Distendi três músculos tentando colocar a roupa. Tive que deitar na cama para fechar o zíper na frente do macacão. Fechei. Não consegui me levantar. Rolei e cai no chão. Com muito custo fiquei de pé. Fui até o espelho e tchanraaannnn! Adorei o que vi. Estava magéééérrima! Fiquei andando indo e voltando em frente ao espelho super feliz. Vou vestir a noite para o Nelson quando voltar amanhã pro Rio, pensei. Ele vai adorar a nova Elika Bunchen. Mas, a felicidade deu lugar a um giga desconforto. De repente a respiração começou a ficar comprometida e eu resolvi abrir o zíper todo de uma vez com medo de morrer. O barrigão pulou pra fora aliviado e eu comecei a expirar todo oxigênio do quarto ofegante achando que estava já raciocinando mal por falta desse gás comburente no cérebro. 

Quando fui tentar tirar o traje colante entrei em desespero. Não havia movimento ou manobra que eu fizesse com os meus braços capaz de desgrudar dos meus ombros aquele bando de látex. O cabelo estava encharcado de suor. Não sabia mais o que fazer.  Liguei para o meu marido que estava em casa com as crianças.

- Neeelso, socorro! Estou presa!- Eu disse assim que ele atendeu o telefone em casa.
- O que houve? Presa como? - Perguntou Nelson todo preocupado.
- Em mim mesma! Neeeeelson, socorro! - Gritei.

Depois de tudo explicado, veio a solução. O que seria de mim sem Nelsim?

-Liga para a recepção e diga que está precisando da ajuda de uma mulher. - Expressou-se super calmo e me passando altas tranquilidades.

E foi exatamente e imediatamente o que eu fiz.

- Alô? É da recepção? Meu querido, estou com um probleminha aqui e preciso de ajuda urgente. Pode mandar uma mulher pro meu quarto, por favor?

Em menos de três minutos chega a camareira. Puxei a moça pelo braço para ela entrar rápido. Mostrei o meu estado. Barrigão branco pra fora, suada, com aquela borracha  fundida ao meu corpinho-bagulho.

- Por que a senhora vestiu isso aqui? - Começou a moça fantasiada de avental e touquinha a querer saber demais da conta. 

- Me ajuda, moça, peloamordedeos, me ajuda! Puxa!- Coloquei as minhas costas nas mão dela. - Vai! Aí! Vai! Puxa! - Devia ter falado que queria uma mulher forte.

- Tô tentando, senhora. Por que a senhora fez isso? - Perguntou a fraquelóide.

- Puxa, moça! PUUXXAAA! Pode rasgar mas tira isso do meu corpo! 

Ploft. As muxibas vieram abaixo! Que alívio! Eu rodei os meus braços peladona como se fossem hélices de helicóptero na frente da mocinha de touca e avental que me olhava assustada. Eu estava extremamente feliz com a liberdade!

Mais calma, expliquei para ela que eu ia ser estuprada na loja e patati patatá. Ainda como vim ao mundo e em êxtase dei -lhe um abração toda suada  e ela foi embora sem ao menos esperar uma gorjeta.

É isso por hoje. Amanhã de manhã vou explicar para uma turma de futuros-padres porque não acredito em Deus mas tenho Fé na Kátia. E assim vou terminando os meus dias de intelectual aqui em Sampa.

Até a próxima!

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* Parafraseando Manoel de Barros.




quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A Falsa Rainha

Desenho feito pelo artista Sergio Ricciuto Conte.

No início deste ano, resolvi tratar as minhas fortes enxaquecas. Estava aberta à qualquer tipo de tratamento a despeito de minhas crenças. Acupuntura, lobotomia, shiatsu, pilates, chá de erva amarga, reza forte, banho de pipoca,...qualquer coisa contanto que me tirasse a dor. Acabei mesmo me resolvendo pelo lado tradicional. Postei no feicebuque que sentia dores, muitas dores, dores horríveis!!!, e pedi sugestões dos amigos conectados. Em menos de um minuto, um amigo de escola da época em que eu lia e achava bom Paulo Coelho, respondeu-me prontamente fornecendo um número de telefone para eu entrar em contato.
Não vou me estender muito aqui contando o nosso estranho reencontro, depois de bem, quase vinte anos sem nos vermos e nem ao menos trocar uma palavrinha nesse intervalo que apesar da dimensão tenha sido efêmero por distração. Apenas farei uma pequena observação do tamanho de um só parágrafo. É costume universal quando vemos uma criança depois de um certo intervalo dizer “Nossa! Como ele cresceu!”, por ficarmos realmente assustados menos com o desenvolvimento da criança do que com o constatar do passar do tempo que ocorre para nós; também. Algo mais, porém, ocorre quando reencontramos amigos de infância quer ele tenha virado padre, professor, político ou quer tenha se transformado em um doutor. Percebemos a transformação externa, mas não conseguimos ver um adulto como um outro qualquer na nossa frente. Ao vivermos esse reencontro, não há cabelos brancos e rugas residentes em nossos rostos que nos impeçam de enxergar o menino que ainda é e sempre será, para nós, o amigo reencontrado. Por outro lado, somente nesses reencontros percebemos também que há um lugar dentro da gente em que seremos eternamente infantis. Ver, então, uma criança de jaleco, medindo a minha pressão, auscultando o ritmo das minhas sístoles e diástoles, e olhando a minha íris com uma lanterninha supimpa foi uma experiência que exigiu manobras psicológicas que ninguém havia me ensinado. Enfim, a minha sorte é que Leonam era do tipo "cê-dê-éfe", ou para usar uma linguagem mais atual, meganerd. Sentava-se sempre lá na frente na sala de aula e não me dava lá tanta atenção naquela época. Vi isso como algo extremamente positivo e procurei só pensar durante a consulta em quanto ele sempre soube mais do que eu. Esse manejo mental evitou que eu pegasse aquele estetoscópio e dissesse para ele “agora é a minha vez de ver como você está!”.
O ponto que me fez vir aqui hoje é que Leonam, ou melhor, o doutor Leonam permitiu-me, sem querer, um outro tipo de viagem. Ele percebeu que a causa das minhas dores de cabeça era minhas noites pessimamente dormidas. Para tanto, prescreveu-me uma pílula mágica que alguns minutos depois de ingeri-la temos o sono dos deuses. E se eu já sonhava antes por madrugadas afora, agora por elas adentro ando vendo filmes de longa metragem projetados, diria Freud,  na tela do esconderijo secreto: o inconsciente. As dores passaram, mas ao custo de toda manhã eu ter que me olhar no espelho depois de tudo o que me é revelado. Como ocorreu na alvorada de hoje.
Sonhei que ia por uma rua bem íngreme sob a luz da lua cheia, quando a uma curva do caminho dou de cara com um casarão tipo um castelo por onde orbitavam morcegos. As luzes estavam todas acesas de forma que eu poderia ver o que se passava lá dentro. De longe parecia uma festa, de perto, uma orgia. Corpos seminus dançavam freneticamente, gargalhadas estridentes, espadas de brinquedo em riste e chapéus de Napoleão. Não era uma festa. Não era uma orgia. Tratava-se de um hospício. Sozinha,  prontifique-me de sair de lá o mais rápido possível quando de repente, não mais que de repente, surge à minha frente vindo do alto, talvez de uma árvore, um homem pensando estar vestido de homem-aranha. A máscara nada mais era do que uma cueca vermelha onde no buraco das pernas viam-se olhos esbugalhados. Ele ficou naquela posição com os joelhos dobrados e as pernas arreganhadas, uma palma da mão apoiada no chão, o pulso da outra apontando na minha direção. Queria me agredir, mas não sem antes, aparentemente, prender-me com uma teia. Era um louco fugido e eu estava em pânico. Ocorreu-me, então, uma ideia salvadora:
       - Como ousas a interromper o curso de uma Rainha? Fique de pé e volte de onde veio antes que eu mande os cavaleiros das... os cavaleiros das... os cavaleiros das Tilápias te prenderem!
      O maluco imediatamente cumprimentou-me, tal como saudamos uma majestade: curvando-se  e de cabeça baixa, gesto natural dos submissos. Isso feito, saiu pulando em direção ao castelo passando pelos ramos altos que saiam de troncos lenhosos. Comecei a rir no sonho, mas ri tanto e tão alto que o barulho rompeu a barreira onírica e materializou-se nos tímpanos de meu marido que imediatamente acordou e ficou me olhando assustado. Achando que eu estivesse sofrendo, despertou-me acariciando cautelosamente o meu colo.
      Tivesse eu ainda na terapia, ouviria que a doida que existe em mim é trazida num regime altamente rigoroso tal qual uma monarquia. O espelho que fala sem firulas o que vê disse-me que o diabo será o dia em que ela, a doida, descobrir que eu não sou rainha nenhuma. 
     A doida que existe em mim... os doidos que existem em todos nós...Olhando para todos que me rodeiam percebo que a civilização não é passível de sucesso dado que todos nós sequer conquistamos um mínimo de equilíbrio emocional sem muito esforço. A Bíblia já nos diz isso há séculos de forma simbólica. Perdemos no pecado a condição de sermos racionalmente harmoniosos, somos proibidos de ter a visão do paraíso.
        Continuando a olhar a mulher descabelada e com olheiras no objeto de vidro e de metal bem polido, percebi que a doida que existe em mim é responsável pelas emoções mais puras que a vida me deu. É ela, essa descompensada oligofrênica de cabelos  longos e alvoroçados, portadora de um vestido branco, curto e todo rasgado, usando um chapéu grandão cheio de adereços e que vive descalça, que vira e mexe salta de dentro de mim e grita sim! num  momento em que meu ser civilizado, com calças sociais, blusinhas fru-fru e sapatos scarpins ameaça a dizer não a alguma aventura. Foi essa doida quem se apaixonou inúmeras vezes pela mesma pessoa e permitiu que um outro, amado somente uma, fizesse-lhe o primeiro filho. Foi ela quem chorou quando criança, debatendo-se e assustando os vizinhos, a perda de um preá . Foi ela quem negou Jesus Cristo, o único homem equilibrado e perfeito que jamais existiu na face da terra, por temer o mesmo fim. É essa doida que não adormece dentro de mim e que, por isso, nunca me deixou ter uma noite completa de sonos, pois, sempre me desperta ao ficar reivindicando aos gritos, muito antes do amanhecer, o direito de correr contra o vento. Essa louca contida, refreada, domesticada, enrustida e subjugada é o legítimo sustentáculo da minha verdadeira personalidade, é a medida da minha condição feminina, heroína e pobre-coitada, branca por necessidade, santa para tantos por tanta obtusidade, soldado obediente, mas que um dia há de revoltar-se contra toda essa conveniente disciplina e libertar de vez de toda essa loucura quando descobrir que nunca fui e que jamais serei uma Rainha.
         As dores de cabeça praticamente não existem mais e creio que ao parar de tomar o remédio elas não voltarão, pois a pureza de minha debilidade, antagonicamente poderosa pela sua fragilidade e pela sua força, está perto de ser coroada com flores, de ser adornada com bijuterias e de ir para as ruas saltitante, orgulhosa do que vê todas as manhãs naquele que reproduz nitidamente as imagens que o defrontam.




terça-feira, 3 de julho de 2012

Feijoada com ou sem Cristo?



Passo sempre indiferente por essa Igreja na final da 24 de Maio, mas outro dia um cartaz em sua fachada me fez meditar. “Tradicional feijoada do Encontro de Casais com Cristo”. Inicialmente a reflexão foi voltada para a ambiguidade da frase. O evento poderia ser para prestigiar duas coisas diferentes: Uma, que Cristo se encontraria com os casais e a feijoada seria apenas um detalhe. A outra, que Cristo estaria presente já antes na feijoada (assim como durante, é claro), que os casais viriam ao Seu encontro e poderiam ainda, com moderação, sorver o alimento rico em ferro. Esses são pormenores da nossa língua portuguesa que nos tornam imprecisos mesmo com Cristo... Confesso que a primeira opção não me faria parar tudo que ando fazendo para estar aqui divagando com meus fiéis seis leitores. Já a segunda (e que conforme me disse uma integrante da paróquia é o que acontece todo ano) me fez ponderar.  Eu que nada bebo mas de tudo como, parei para questionar se não estaria perdendo uma feijoada divina por não ter nenhuma religião e, Deus que me perdoe, pensei até em uma conversão só para participar dessa farra.

Farra? Foi aí que comecei a pensar na possibilidade de permitir que a 'feijoada com Cristo' entre no meu estômago ao preço de deixá-Lo, antes, entrar na minha mente (ou vá lá, no meu coração). Colocando tudo na balança ruminei: O que seria afinal uma feijoada com Cristo? O que seria uma feijoada sem Cristo? Aquela que eu sempre como afinal...Ele está ou não presente? Não me lembro Dele ter sido convidado, mas também nunca vi ninguém impedindo a Sua entrada...

Quando pensamos nessa iguaria feita de feijão preto cozido com miúdos de porco, partes íntimas e gordurosas e quaisquer outras coisas nojentas, desde que contenham gordura suficiente e muita pele de qualquer quadrúpede, além de ingredientes trazidos pelo vento que a cozinheira diz ser folha de louro, não imaginamos gente triste ou com algum sentimento de culpa quer cozinhando quer  fazendo parte da degustação que pode levar horas. Não há espaço para o silêncio quando estamos diante desse manjar dos deuses e a falta de ruído jamais pode ser preenchida pela música clássica. Seria um sacrilégio. Não há quietude, sossego, calma e som de harpas.... Há de entrar pelos ouvidos uns ziriguinduns, telecotecos, balacobacos, borogodós e buruguduns para que a feijoada não fique sem sal. E nesse paticundum, pracatás, sabadás e badaiás, bailarinas vestidas de branco ou  de rosa clarinho com uma saia que parece feita de nuvem não tem vez! Ao nosso lado, compondo o prato, deve ter uma nega com salto alto, vestidinho estampado e bem curto sambando com o diabo no corpo. Risadas estridentes estimuladas pelas cervejas estupidamente geladas e ucas, açúcar, cumbucas de gelo e limão são imprescindíveis para engrossar o caldo (Saravá Chico!).  E nada de vinho pelo amor de deus!  

É. Definitivamente Cristo não pode fazer parte desse tipo de coisa e pensando bem, Ele nunca esteve presente em nenhuma feijoada em que fui.

O ponto é que não vejo como isso pode ficar mais divertido e gostoso se modificarmos algum ingrediente ou se acrescentarmos algo, ainda que esse um-tanto-a-mais seja supremo. Cristo nesse ambiente poderia ou ficar deslocado ou inibir nossas gargalhadas com dentes sujos à mostra ou pior! acabar se divertindo nesse meio. Deus me livre.

Isso posto, não irei a "Tradicional Feijoada do Encontro de Casais com Cristo" e agora, depois dessa meditação, não estou mais angustiada com uma certa sensação de perda. Estou bem mais tranquila. Stanislaw Ponte Preta, o Sérgio Porto, disse que uma feijoada só é realmente completa quando tem uma ambulância de plantão. Só quem já saboreou devidamente o pitéu percebe que a genialidade de Ponte Preta nessa proposição foi ter captado e expresso em poucas palavras a essência desse maravilhoso e fenomenal sustento. Percebo, então, sem me sentir uma perversa profana, que Jesus deve mesmo é ficar do lado de fora. Literalmente. Fazendo o que faz de melhor! Absolvendo-nos e guiando nossos passos até chegarmos ao nosso abençoado lar.




quarta-feira, 13 de junho de 2012

Não Curti


Entrei no elevador hoje no segundo andar do CEFET. Estava com preguiça de ir pela escada até o quinto. Dou de cara com um casalzinho emburrado. Em pleno 13 de junho que vem logo depois do dia 12 de junho, o dia em que mel em cima de cocada fica menos enjoativo do que as mensagens de amor no feicebuque.

- Rafa... – Ela disse logo que a porta se fechou.

- SSSHHHHH...- Fez o Rafa de cara feia olhando fixamente para baixo, exatamente para a minha pessoa, fazendo o sinal universal de cala a boca para a garota.

- Rafa, - insistiu a menininha fofa com cara de pobrezinha e com voz de meiguinha – eu só curti, Rafa...

- Só, Maria Eduarda, só curtiu? Só? Desde quando, Maria Eduarda, curtir seis vezes é ‘só’ curtir?!? – Caraca, Maria Eduarda havia pisado na bola legal. Todo mundo sabe que curtir uma vez é ser simpático, duas é ser colega, três, amizade, quatro, interesse, cinco, vem cá que eu tô facinha, seis?!?  Fala sério! Que decepção, Maria Eduarda! Que decepção!!!

- Mas você quer o que, Rafa? – perguntou a safada e sem-vergonha na maior cara de pau! Eu olhei rápido para o Rafa querendo só ver que tipo de homem ele era.

- O que eu quero, Maria Eduarda? O que eu quero? – Afe. Esse Rafa é do tipo que começa respondendo perguntando tudo duas vezes...- O que eu quero? Você ainda me pergunta? – Recriminei-o com um olhar severo. O meu andar estava chegando...Caraca, ômi, fala logo que quer que ela te respeite!, desembucha essa raiva direito ao invés de ficar perguntando igual um coió. Explica que ela fazendo esse tipo de coisa acaba com a sua masculinidância enquanto homem no feicebuque! Gasta esse latim, Rafa!

- Você quer que eu deixe de ter as minhas opiniões? Quer que eu me anule no feicebuque? – Maria Eduarda estufou o peito e falou balançando o queixo igualzinho um sino e com a mão na cintura. Como essas pessoas conseguem fazer isso com a cabeça? Sempre tentei e nunca consegui. Enquanto eu olhava a vaca da Maria Eduarda oscilando aquela fuça a porta do elevador se abriu.

Hesitei. Se eu saísse não poderia mais dar aquele apoio moral pro Rafa. 

Pensa rápido, Elika, pensa rápido!

- Vocês vão descer aqui? – Perguntei com firmeza, pensando em segui-los só até o Rafa dar um fora na Maria Eduarda.

- Não. – Respondeu a hexa-curtidora descarada.

- Não? Não??? Como não? – Pronto. Peguei a doença do menino. – Esse não é o último andar?

- É, mas estávamos descendo, daí a senhora entrou e apertou o quinto. Esses elevadores do CEFET são meio malucos. – Respondeu o coiócudo do Rafael que além de tudo não deixou a porta se fechar segurando-a para eu sair em segurança. Fofurésimo. – A senhora não vai descer aqui?

- Eh, bem, eu ia, mas acabo de me lembrar que tenho que ir ao banco. – Se tem uma coisa que eu admiro em minha pessoa é meu raciocínio com a velocidade da luz.

E a porta se fecha.

Silêncio.

Mais silêncio.

Como é que é, meu povo! Bóra discutir essa relação que meu tempo é curto!

E o elevador despencando em queda livre!

Que situação! Que situação em que fui me meter! Que estresse!Que estresse!

Comecei a rodar o meu anel do mindinho e a olhar sério pro Rafa com a minha testa tensa, linguagem universal dos que acham que Maria Eduarda pisou na bola e que ele tem toda razão de ficar chateado e deve exigir mais respeito da parte dela.

- Ok, Maria Eduarda, desculpa. É que eu sou meio inseguro mesmo...

A porta se abriu, meu queixo caiu e os dois saíram abraçadinhos. Isso que dá a gente se envolver emocionalmente com o problema dos outros. O acesso ao elevador começou se estreitar cada vez mais, meu nariz quase ficou preso... congelei sem entender nada... fiquei com a maior cara de bananada diet a um centímetro daquela fenda emborrachada.

 Como essa garotada de hoje é imatura. Vou te contar, viu...


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Se você se divertiu lendo esse texto, talvez goste desses também:

Dividindo pra poder Sobrar
Cromo somos xx!!!





quinta-feira, 31 de maio de 2012

Email para um 'Prezado Senhor'



Prezado Senhor,


Quem escreve aqui é a moça que bateu na traseira do seu carro na noite do dia 28 de maio quando voltava de um encontro no Museu da República onde foi lançado um livro escrito por uns tantos amigos. A noite seguia tranquila e com uma beleza leve tal qual um vôo de gaivota. Liguei o rádio assim que entrei no carro e como se tudo já não tivesse sido suficiente, ouvi Ney Matogrosso cantando que lá no fundo azul, na noite da floresta, a lua iluminou a dança, a roda, a festa. Ao me aproximar da Praça Tiradentes e ver o Teatro Carlos Gomes todo iluminado, distraí-me mais do que devia ainda na avenida Passos onde estava o seu carro parado em um sinal. Como poderia tê-lo visto se estava olhando para cima? O choque foi inevitável.

A lei é clara, prezado senhor, não há desculpas para aqueles que batem na parte de trás de carros parados em um sinal vermelho. Devo dizer que estou desolada com esse acontecimento, envergonhada até! e dou-lhe inteira razão de ter se irritado e brigado muito comigo na frente de tanta gente ainda que eu tivesse pedido de várias formas o seu perdão. Quem trabalha o dia inteiro, ganha o salário honestamente e sua tanto a camisa em horário comercial, tem todo o direito de ter uma volta para a casa sem maiores percalços. Eu sei bem disso, prezado senhor.

Trocamos imediatamente nossos números de telefone. Você fez questão de verificar os meus documentos e de anotar o número de minha habilitação, CPF, identidade, a placa do meu carro e ligar na mesma hora para o meu celular e ouvi-lo tocar na sua frente - certamente fazendo um mau julgamento a meu respeito. Não o condeno por isso, prezado senhor. Entendo perfeitamente o seu medo. Tanta gente ruim nesse mundo...

No dia seguinte, 29 de maio, ao final da tarde recebo o seu email com o orçamento do conserto de seu carro. 820 reais e mais umas despesas com táxi enquanto o seu carro estiver na oficina. Tudo bem, prezado senhor, todo esse despêndio será depositado na conta nº 3598X-9R da agência 086-R. O meu palio weekend adventure cuja placa é LBK 59X4 não colidirá mais dessa forma estúpida nem com um  ford ecosport xls 1,6 flex 2007 de placa LCJ 3XX8 nem com nenhum outro carro, pois, eu, portadora da identidade 09596XX-2, CPF 045527-X6 prometo olhar mais para frente, pelo menos enquanto estiver dirigindo. Eu, prezado senhor, que não passo de números para você reconheço que a vida poderia passar sem essas subtrações orçamentárias se as pessoas se limitassem a ficar dentro dos limites dos algarismos que a definem e que olhassem sempre e somente para a frente. Peço-lhe mais uma vez desculpas e prometo não lhe causar mais problemas. Conte com a minha palavra e com a minha carteira.

Mas... que me seja ao menos permitido sonhar com um outro rumo para essa nossa história... em que eu batesse na traseira de seu carro parado no sinal e tivesse a oportunidade de te dizer: amigo, meu nome é Elika, muito prazer em te conhecer! Desculpe-me, mas é que hoje estou extremamente feliz e distraída. Linda a iluminação desse teatro, não? Já viu esse espetáculo? E você dissesse: não. Mas poderia trazer a minha esposa e vermos juntos nesse final de semana. E eu pegasse o seu endereço para buscá-los, pois o seu carro estaria na oficina. E que fôssemos juntos ao teatro! Afinal... paramos ambos por causa dele e a vida é curta como a temporada de uma peça. E que ficássemos amigos e que você usasse o meu número de telefone para saber como se chega à minha casa para participar de umas daquelas saudáveis tardes de cantoria. E que brindássemos por eu não ter te machucado de forma alguma, bebêssemos sentindo a brisa no meu terraço e, enfim, celebrássemos a amizade entre os seres humanos, o amor e a paz entre nós.



sábado, 26 de maio de 2012

A História do Meu Novo Amor



Apaixonei-me assim que o vi. Foi mais forte que eu. Tenho que confessar. Nelson, meu marido, não estava por perto. Sorte do meu novo amor que teve meu olhar todo para ele logo na primeira vez que o vi. Desde então, tento me controlar, ocultar, não dar tanta bandeira, mas não consigo mais guardar isso só para mim. Tive uma longa conversa com o Nelson e ele me disse que já estava sentindo que eu não era só dele há tempos. Então, não faz mais sentido esconder de ninguém. Por isso hoje resolvi revelar para todos a história do meu novo amor.

Meu novo amor...Sempre me surpreende com uma flor escolhida meticulosamente, o gesto universal dos apaixonados. Outro dia, ao ver uma folha bonita, agora vejam, arrancou-a de uma planta que desconhece o nome, ofereceu-me com todo carinho e um beijo molhado (Como resistir?). Fica horas ao meu lado lendo. Emociona-se quando conto minhas histórias. Temos jantado juntos em alguns dias da semana. Dengoso, gosta que eu dê a comida na sua boca. Completamente infantil, muitos diriam, mas é capaz de me dar um carinho que Nelson jamais me ofereceu. Tem um ciúme que além de não me incomodar me fortalece como mulher. Possessivo como ele só. Se andamos na rua juntos ele (com uma certa prudência) pega com força na minha mão toda hora com medo de que me levem dele.

Coincidentemente, também curte um samba. Quando Nelson saía, não sei se é falta de respeito e sinceramente, cansei de me preocupar com isso, mas eu e meu novo amor ouvimos alguns CDs da coleção de meu marido em que rola um  ziriguidum. E como nos divertimos, meu deus. Quando nos conhecemos, Nelson trabalhava embarcado e nos quinze dias em que ele ficava na plataforma, que se dane o que vão pensar de mim, mas eu pensava se deveria chamar o meu novo amor para dormir ao meu lado. Quando eu não resistia, ele vinha sorrindo sempre e dormíamos abraçados a noite toda.  As amigas diziam que eu estava cometendo um erro pelo qual me arrependeria pelo resto da vida, que isso poderia causar danos irreversíveis ao meu casamento, como realmente aconteceu, mas eu simplesmente não conseguia fazer diferente e de nada me arrependo. Pois...

Meu novo amor... ah, meu novo amor perde com magnificência e um certo charme todos os meus marcadores de texto. Bagunça a minha vida. Totalmente irresponsável, me liga no meio de uma reunião para falar bobagens. Jamais pegou elevador sozinho. Toma banho comigo sempre quando Nelson não está em casa, anda pelado pelo quarto quando estamos sós para se exibir para mim e ainda me pede para eu cortar as suas unhas. Completamente sem noção e eu não consigo não achá-lo divertido.

Parece que gosta que eu cuide do corpo dele e de seu asseio. Mas também fica horas lavando as minhas costas, já lambeu muito meu joelho e sempre foi louco pelos meus seios. Agora anda com mania de olhar para meu corpo nu e fazer perguntas que me deixam um pouco constrangida. Pergunta-me porque uso maquiagem e diz que eu fico linda de qualquer jeito. Desmancha meu cabelo. Beija as minhas pernas e faz barulho com a boca no meu umbigo.  E eu rio como as que já não respondem mais por si.

Não sabe dirigir e adora andar de trem. Como todos os homens, gosta de futebol e de videogame. Um menino praticamente. Aliás, tenho que confessar...ele é bem mais novo que eu. Já tive vergonha por isso, mas superei. Faz bem para minha auto-estima.

Vaidoso. Não tem pelos pelo corpo. Não usa desodorantes. Não bebe. Corre todo dia. Tem uma alimentação toda balanceada. Olhos castanhos, cabelo pretinho e a pele bem clara. Lindo.

E, um detalhe mais íntimo, quando tem dor de barriga exige a minha presença ao lado dele. Eu o abraço, faço carinho na barriguinha lisinha, linda, canto uma musiquinha e tudo acontece. Ele pede sempre para eu limpá-lo de uma forma que eu não consigo dizer não. Problema universal dos que amam.

Tem um nome cujo significado para mim é bem apropriado: felicidade.

Nos conhecemos há cinco anos e o meu amor por ele só aumenta.

Yuki, meu filho, meu tudo.

J