sábado, 22 de maio de 2010

Cromo somos XX!


Essa é uma história verídica que ilustra como o mundo das mulheres se articula.

Há dois anos atrás, minha filha Nara completou dez anos. Minha sogra, senhora de muitas posses, resolveu dar uma festa. Mas uma festa daquelas que se aluga salão e tudo. Nada de bolinho em casa não. Coisa chique. Assim, pela primeira vez aqui em casa, comemoraríamos o nascimento de alguém sem ter que alugar mesas, colocar a lona azul no quintal para proteger os convidados das intempéries e comprar pratinhos e copos descartáveis. Era, definitivamente, uma festa de outro nível.

Porém, neste mundo há pessoas com noção e outras sem noção. Eu me enquadro no primeiro grupo. Minha sogra, pela própria definição desse grau de parentesco, no segundo.

- Elika, liga pro salão e marque um horário para a Nara no dia da festa. Quero minha neta lin-da. Manda a mulher fazer uns cachos no cabelo dela. Com o vestido que eu comprei minha neta vai ficar parecendo uma prin-ce-sa. Ah! E fala para a manicure passar um esmalte clarinho.

- Hum hummmm. – respondi.

Até parece. Pensei.

Minha filha só vai fazer dez anos! Que salão o quê! Minha sogra surtou de vez. Estava chocada com a ausência de discernimento de dona Greuza (sim, Greuza com G). Indignada liguei para minha mãe.

- Mãe, você não sabe a última da Greuza! Você acredita que...

Minha mãe é a pessoa certa nessas horas. No lugar das reticências aí em cima eu poderia falar qualquer coisa. Qualquer coisa que eu falasse ela ficaria chocada e estaria de prontidão ao meu lado, achando um absurdo seja lá o que fosse e me dando na hora alguma solução.

- Que absurdo, Elika! Não deixa não! Pode deixar que eu dou um jeito. No dia da festa eu arrumo o cabelo dela. Marca nada não!

Foi o que pensei e o que precisava ouvir. A vida seguiu. Minha sogra, virava e mexia, perguntava se eu havia marcado o salão e eu respondia hum hummmm. Daí ela gritava empolgadésima dizendo que não via a hora de ver a neta dela arrumada. Hum hummmm. Comigo é assim. Odeio ficar discutindo e corro por fora dando meu jeito. Eu e minha mãe, no caso.

No dia da festa, pela manhã, minha mãe apareceu aqui com uns bobs de cabelo e uma caixa de grampos. Chamou a Nara e com a bravura de um soldado foi a luta. Dividiu o cabelo da minha filha, começou a enrolá-los naqueles cilindros de plásticos vazados e no final, como num passe de mágica, tirou do bolso um spray. Eu quase bati palmas! Minha mãe é danada mesmo. Lembrou até do laquê! Depois colocou um lenço na cabeça da aniversariante e disse:

- No final da tarde eu volto.

A festa era a noite.

Era um dia daqueles de verão carioca. Um calor insuportável. Nara, que estava a cara da Dona Florinda, quis brincar na piscina o dia inteiro e eu, cheia de noção de tudo, passei o dia a impedi-la de cometer tamanha loucura. Comprei sorvete, vi filme com ela no ar condicionado...movi montanhas para fazê-la esquecer do diabo da piscina cheia de primos gritando descontroladamente e rindo alto. Que tanta graça tem em ficar numa banheira gigante jogando água uns nos outros?

Os convidados internacionais de Itajubá já haviam chegado. Estava quase na hora.

Minha mãe apareceu e com a segurança e a concentração de um atleta olímpico começou, seriamente, a tirar os grampos. Que ronquem os tambores! Não via a hora de ver minha filha linda e maravilhosa com os cabelos cacheadinhos como um anjinho sem ter que ficar duas horas no salão. Minha sogra tem cada ideia...

De repente não mais que de repente do riso fez-se o pranto, da calma fez-se o vento e do momento imóvel fez-se o drama.

Nara estava parecendo o Sidney Magal na época em que ele cantava Sandra Rosa Madalena!!!

- Se relá espeta! – Disse rindo a minha prima de Itajubá.

- Ai, jesuis, mãe! Greuza vai me matar se a Nara aparecer assim na festa-super-chique! E agora? Devia ter marcado o salão! Ai, jesuis! Que cabeça a minha acreditar que você sabia fazer cabelo! Mal penteia o seu...

Minha mãe, olhando séria a neta, disse-me aos berros:

- Calma! Você não esperou eu acabar! Calma! Eu ainda não acabei! Cala a boca e pegue o pente!

Que pente, mané, pente? Quem disse que pente entrava naquele ninho cheio de laquê! Aliás, que ideia de girico aquela de spray que deixa o cabelo duro. O jeito foi tentar desfazer os cachos com os dedos e o resultado final foi a imagem do Sidney Magal acabando de acordar de uma ressaca violenta. Ai, Jesuis crispim!

A sorte é que minha irmã Tatiana, a única que herdou os genes orientais zen do papai, diante daquele cenário esquizofrênico onde todos estavam vendo alguma coisa estranha no lugar da Nara, pegou a sobrinha e disse:

- Vai pra piscina.

Nara não precisou segunda ordem, saiu correndo dando cambalhotas e gritando urrú. Depois de cinco minutos, a tia-zen apareceu.

- Sai da piscina.

Dá-lhe banho, secador e baby liss (um cano que esquenta e modela os cabelos) e pronto! Minha filha estava perfeita, com uns cachinhos super delicados no cabelo. Parecendo uma boneca. Minha sogra ia ter um troço. E tudo isso sem precisar da ideia maluca de ir ao salão de beleza! Disse eu, triunfante, batendo a palma da minha mão direita na palma da mão direita de mamãe que, assim como eu, só ficou olhando a Tata fazer tudo.

No instante em que viu a Narinha arrumada chegando na festa, como previ, Greuza teve um piripaque de tão feliz que ficou ao ver a neta, completando seus dez aninhos (como o tempo passa rápido!) e dentro de um vestido ca-rís-si-mo que parecia ter sido feito especialmente para ela.

- Minha neta está lin-da, Elika!

- Hum hummmmmm. – Concordei emocionada e super feliz com a minha sogra.

Em menos de dez minutos de festa, os cachinhos se desfizeram e ninguém deu pela falta deles. Nem eu, nem Nara, nem minha mãe, nem minha irmã-zen  e muito menos minha sogra.

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Só lembrei-me dessa história agora porque estava aqui vendo alguns álbuns e deparei-me com essas fotos aqui:







quinta-feira, 20 de maio de 2010

Pronto. Virei Sogra.


Fico um pouco preocupada com essa conversa de que somos todos iguais. Marido é tudo igual. Filho é tudo igual. Empregada é tudo igual. Só o que muda é o endereço. Nada disso. Tento ser superior ao meu hardware. Procuro não ficar brigando com meu marido por causa de roupas jogadas pela casa, deixo as crianças à vontade com os brinquedos e policio-me para que meus filhos tenham uma certa liberdade. Posso até dar ordens, mas nada que me enquadre em uma só gaveta. Eu quero ser um armário inteiro com várias caixas corrediças e caber em todas elas ao mesmo tempo, mas jamais me encaixar em somente uma.

Ledo engano.

Hideo, meu filho de dezesseis anos, chegou da casa da namorada segurando um presente que havia acabado de ganhar. Um porta-retrato com a foto dos dois. Ela, apaixonada, está apoiando a cabecinha no ombro forte de meu filho. Uma graça. Quis ele levar o mimo para a casa do pai onde mora de segunda à sexta e eu disse não. Deixe que ele fique aqui enfeitando a cabeceira de sua cama. Era eu, gigante contra a minha  própria natureza, a fazer-lhe o pedido magnificente.

Numa tarde dessas de muita filosofia, devidamente acomodada no escritório daqui de casa com o peso de Heidegger nas mãos, ergui a cabeça para digerir algumas idéias recém adquiridas pela leitura e meus olhos inicialmente, olhando sem nada ver, miravam uma foto minha com meu filho, exposta num antigo e belo porta-retrato. Fechei os olhos para raciocinar sobre a natureza do Tempo que tanto incomodou Heidegger e que a mim, até então, é indiferente. Mas a imagem, captada por acaso pelos meus olhos abertos, parecia ter sido colada nas minhas retinas e a pergunta que se fez de repente na minha cabeça, deixou de lado (como aqueles que esvaziam uma mesa de trabalho com uma só braçada) toda a questão do Ser e do Tempo. O que este porta-retrato está fazendo aqui no escritório?

Levantei-me, peguei a nossa foto emoldurada e da mesma forma que ajeitamos um vaso de flor, inclinando o rosto para nos certificarmos de que o arranjo está na sua forma mais que perfeita, ajeitei-a juntamente com a outra, recém adquirida pelas mãos da namorada. Esta cabeceira sempre fora o seu lugar. Por um descuido meu, o objeto estava no local errado da casa. Como sou desligada com essas coisas de decoração...

Ontem, estava escovando os dentes quando Hideo me chamou assustado no seu quarto. Com o hálito refrescado e a boca limpa assim como a minha própria consciência, perguntei o que o afligia e ele simplesmente olhava para as duas gravuras que tinham em comum o seu rosto. Perguntou-me o significado de tudo aquilo. Eu, o projeto fajuto de armário, era eu que não estava entendendo o por quê de uma necessária tradução de algo tão óbvio. De uma frase tão clara. A foto não é sua, meu filho? Onde você quer que mamãe coloque a sua foto?

Mãe, você não está percebendo?

Neste momento, Nara, minha filha de doze anos, entrou no quarto. Perguntou qual era o problema da vez e Hideo apontou a nova decoração da cabeceira de sua cama. Nara olhou para mim e viu que eu estava pensando assim como aqueles que decifram um enigma. Simplesmente caiu na gargalhada e me deu um abraço bem mas bem forte mesmo.

Nara percebeu.

Eu percebi. Só depois.

Percebi  que, na verdade, aquele papo de armário e inumeráveis gavetas foi um delírio da minha parte. Percebi que essa conversa de livre-arbítrio é história. É mentira. A verdade, eu vou dizer agora, quando Deus nos fez, Ele nos colocou numa camisa de força. Não nos deu opção alguma. Bobagem acreditar que trilhamos o nosso caminho. Bobagem. Um lado meu dizia que a experiência de perceber que outras pessoas gostam e amam até(!) nosso filho é encantadora. O problema é que eu sou um polígono de 387 lados e todos os outros 386, num silêncio ludibriante, fizeram de mim um simples títere, no descuido de um fechar de olhos.

Com o inconsciente devidamente desmascarado e já cabendo exatamente numa só gaveta, estendi rapidamente os braços para tirar o porta-retrato que estava a mais naquela cama.

Mãe!



Pronto. Virei sogra.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Consulta ao Analista



Já fui neta e namorada. Hoje às vezes sou sobrinha e tia, quando posso. Filha sou todo dia, mãe até quando estou dormindo e esposa desde que me casei. Cunhada, raramente e prima, só quando viajo. Irmã eu gostaria de ser por mais tempo e nora por bem menos. Madrinha sou de dois e afilhada, de ninguém. Sogra vai ser um problema e não quero ser viúva. Pensando bem, não quero ser sogra também.

Temente à Deus fui somente na infância, ao Diabo, nunca. Professora sou somente pelas manhãs e a tarde sinto falta. Escritora serei um dia, doutora daqui a quatro anos e flamengo até morrer. Até parece. Dançarina nunca quis ser e caixa de supermercado só quando era criança. Boa aluna quando era bem menor e rebelde fui sem causa. Médica não serei nunca e gorda quando perder o controle. Míope eu sou desde os doze e mocinha também. Por fora, um pouco japonesa; por dentro, completamente negra. Sou cega de vez em quando e quando velha serei surda. Sou esperta. Mentira. Ingênua. Em tempo algum. Mentira. Não sei.

Confundo-me com o que falam a meu respeito.

Todos os cômodos da minha casa tem relógios, inclusive nos banheiros. Ser eu mesma tem me consumido muito tempo. Sempre quis fumar, beber eu não consigo, mas às vezes me inebrio. Não consigo dormir, comer e nem ir ao centro da cidade sem companhia. Minha força não está na solidão. Preciso sempre ser orientada e jamais busquei a independência.

Quando durmo sonho muito. Acordada, muito mais. A dor do parto não me incomodou e queria senti-la novamente. Tenho muitas dores de cabeça e essas sim me importunam. Quero chorar vendo uma ópera, mas enquanto não consigo assisti-la, rio de toda aquela presepada. Quando tomo banho me distraio com o vapor que ofusca o teto e se estou limpa, leio. Nunca vi A Escolha de Sofia e não vejo televisão. Escrevo sempre com a mesma lapiseira, mas mudo sempre de caligrafia. Não sei usar vírgulas e muito menos pincel. Sou incapaz de guardar nomes de diretores de cinema e de emprestar meus livros. Não entendo as diversidades do homossexualismo.

Não sou como me veem e muito menos o que digo.

Capta essa outra coisa que não falo porque eu a tenho ignorado. Eu não me entendo e preciso agir como se me entendesse. Fingir. Do mesmo modo que muitos fazem.

Sou, agora, aquilo que eu escrevo.








segunda-feira, 3 de maio de 2010

Surpresaaaaaaaa!!!!



Mãe, posso levar quatro amigas para passar o final de semana com a gente na casa de minha avó em Mangaratiba? É aniversário da Lulu e queremos fazer uma festa-surpresa para ela. Vai ser assim: papai me pega na escola e depois...

Pronto. Nara já estava com todo o esquema na cabeça e contava com a minha aprovação e com o meu apoio para tornar cada cena que ela havia visualizado, real. Eu só precisava falar com quatro mães (que nunca tinham deixado as filhas dormirem fora de casa), arrumar mais um carro (já que a Lulu não podia saber que as amigas iriam), fazer compras (bolo (de chocolate), comida (guloseimas), refrigerantes e esmaltes (da coleção (verão) da Impala)), chegar à escola 17:13h (antes? nem pensar!), não esquecer de levar as bolas (coloridas, bem coloridas) no carro (para que a Juju, a Cabeça e a Stephanie fossem enchendo no caminho) e convencer a minha sogra (que é neurótica com arrumação e limpeza) de que o quinteto de mocinhas (na verdade só uma já é mocinha) não daria trabalho nenhum. Ah! Não esquecer de chamar a tia Jú (porque a tia Jú é o que há). Tudo foi verbalizado assim mesmo, cheio de parênteses que eram falados de forma bastante enfática para que eu não me esquecesse do que tem dentro deles.

Pensei em dizer não, mas fui incapaz de fazê-lo. Ser responsável pelos meus filhos e mais quatro meninas mega-animadas estava me parecendo algo insano. A hipótese infinitamente pequena, porém, existente de que tudo pudesse dar certo somado ao rosto animadíssimo da Nara na minha frente foram o suficiente para abrir a porta sorrindo e deixar que a esquizofrenia fizesse a festa na minha cabeça.

Somente depois dos parabéns, cantados super euforicamente num tom altamente agudo, soube que o aniversário da Luisa seria daqui a um mês mais ou menos. Como temos pela frente dia das mães, prova de matemática e ensaio do teatro, o único final de semana que daria para fazer uma festa-surpresa era esse. Só depois que todas começaram a abraçar a Luísa  foi que a própria percebeu que aquela solenidade toda era para ela. Até eu me surpreenderia com uma festa assim, feita com tanta antecedência... Não houve dúvida de que tudo aquilo foi uma deliciosa desculpa para ficar mais tempo com as amigas.

Passar o final de semana com cinco menininhas que estão se despedindo da infância fez o efeito que dez anos de tratamento dermatológico para reduzir minhas linhas de expressão não conseguiram realizar. Não preciso me olhar no espelho hoje porque nele não me reconheço mais. A minha imagem agora está nas atitudes de minha filha. Foi lá o local onde, inesperadamente, a encontrei. Adorei a surpresa.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

"A memória é o único paraíso do qual não podemos ser expulsos" *

*Johann Paul Richter
Ando desmemoriada. Dizem que quando a idade vai chegando é assim mesmo. Mas que idade? Trinta e sete anos?!? Outro dia li uma pesquisa, não me lembro onde, que dizia que o cérebro dá tilte com excessos de informação e se tem algo de que nós, atualmente, temos overdose diária é isso. Informação. Internet, celular, televisão, telefones, rádios, pessoas... ficamos no meio de tudo isso tentando filtrar o que é importante. Fora isso, tenho que ficar atenta aos horários dos remédios do caçula, às datas de vencimentos das contas, aos horários do piano, da dança, do teatro, do inglês e da escola da minha filha, aos prazos de entrega dos originais de provas e aos textos super cabeludos de filosofia. O HD está lotadaço.

Não há o que fazer no meu caso. Boa alimentação, estudar uma outra língua, ler e fazer exercícios físicos regularmente é o que aconselham. Isso tudo eu já faço, levando em conta a minha definição de regularmente: uma vez por mês. E mesmo assim, ando esquecendo, por exemplo, de fechar a porta do carro com a chave. Outro dia lembrei de fechar, mas esqueci a chave pendurada bem na porta. Ontem, levantei-me rápido do computador por lembrar de que tinha algo importante a fazer. Entrei no banheiro, olhei-me no espelho, notei que não havia passado o fio dental, passei o fio dental e voltei pro computador. Minutos depois... pus-me de pé ligeiramente de novo, assustada, ao  certificar-me da mesma coisa que me fez sair da cadeira num passado pouquíssimo remoto e de que não tinha absolutamente nenhuma ligação com passar o diabo do fio dental.

O interessante é que, na contramão, tenho me lembrado de outras coisas assim do nada. Posso estar escrevendo, dirigindo, nas aulas de filosofia, no supermercado e de uma hora para outra...pronto. Pego-me rindo ou chorando sozinha devido a uma breve recordação de algum episódio visto, vivido ou ouvido que vem do além direto para a minha cabeça. Coisas bem nada a ver mesmo, como essas:

- Fafá de Belém cantando o Hino Nacional no Fantástico quando Tancredo Neves que foi eleito presidente morreu antes mesmo de se apresentar aos brasileiros como tal. A cantora que fez jus ao título de intérprete emocionou a todos que ouviram o hino ser cantado como ninguém cantou antes. Por isso foi processada na época, mas não importa. Foi lindo. E eu não me esqueci. Outro dia, fechei os olhos tentando me lembrar do nome do pedreiro que esteve aqui em casa e nesse mesmo instante comecei a ouvir a Fafá. Oooouuuu...viram do Ipiraaaanga as margens plááááááááciiidas. Assim, de repente. Fiquei toda arrepiada, com cara de boba, abri os olhos devagarinho e disse de sopetão em voz alta: Gelson!

- Quando era adolescente fui à Minas passar férias em Itajubá, terra natal de mamãe, com meu namorado (que hoje é meu marido) e alguns amigos. Ficamos na casa da madrinha de minha irmã mais velha, amicíssima de mamãe desde quando eram crianças. Nelson havia saído de bicicleta sozinho. Ficou um tempão fora e voltou pedalando com dificuldade por estar com um braço segurando o guidão e o outro, um quadro enorme. Ficamos curiosos para ver que quadro era aquele. Depois de tanto mistério, ele tirou o papel que protegia a imagem e mostrou pra gente super animado o quadro recém adquirido. E então, gostaram? Lú, nossa amiga, disse que havia adorado, mas fez uma observação: Não sabia, Neca, que você gostava do Sílvio Brito! O quadro, na verdade, era uma pintura super mal feita de John Lennon. Tudo bem que os dois são meio parecidos, mas não importa, o quadro foi vendido e comprado como sendo uma imagem do ex-beatle. A cara do Nelson ao olhar para a da Lú sorrindo para o quadro ... Vira e mexe eu tenho me lembrado dela assim do nada  e caido na gargalhada sozinha. Outro dia foi na fila do supermercado. Um moço até olhou para mim procurando, inutilmente, a graça. Em tempo, o quadro nunca foi pendurado em lugar nenhum.

- O cheiro, exatamente, o cheiro da sala dos meus avós nas tardes de sábado. Mais precisamente quando vovô tocava bandolim e tio Sebastião violão, sentados no sofá (Eles deviam fazer isso de segunda à sexta também, mas eu só os via nos finais de semana). Eles passavam horas tocando. O som era muito agradável, ver os dois tocando e se divertindo era um deleite, mas o aroma sempre presente naquela cena ... Puxa vida, tem me causado dores e produzido lágrimas assim...do nada. Quarta-feira passada, na UERJ, entrei no elevador super bem e foi só apertar o nono que senti o cheiro sem quê nem por quê. Cheguei lá em cima malmalmal de tanta saudade.

- Cenas do filme “A Noviça Rebelde” agora tem me perseguido. “Vejo”, quase todo dia, Julie Andrews ora ensaiando as crianças para cantarem quando o pai  delas chegasse de viagem, ora correndo e girando em torno de si mesma de braços abertos nas montanhas da Áustria, ora ensinando uma música que nos faz perder o medo (seja lá do que for) quando a cantamos ... essas cenas tem vindo à minha mente de uns tempos pra cá quando eu tomo banho. Agora é assim. De vez em quando, eu e The Sounds of Music nos amalgamamos debaixo do chuveiro.

- Glória Pires, no papel de Ana Terra, cavalgando na minissérie "O Tempo e O Vento" exibida na Rede Globo, baseada na obra homônima de Érico Veríssimo. Da história mesmo, lembro-me de pouca coisa, quase nada. Sei que se passava no Rio Grande do Sul e olhe lá. Lembrei-me exatamente da Ana em cima de um cavalo com os cabelos balançando e sendo penteados pelo vento quando entrei na Presidente Vargas outro dia e vi todos os sinais abertos. Verdes para mim. Todos eles! Acelerei o máximo que pude e nesse momento, sabe deus por quê, desliguei o ar, abri os vidros e de repente... eu era a Ana Terra em cima de um cavalo, sorrindo à toa, mas com os cabelos todos nos olhos e na boca.

Vai entender...


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E para quem nunca viu nem ouviu falar...com vocês: Sílvio Brito!



Argh!

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Acorda, Rosely Sayão!



Hoje de manhã, indo para o CEFET animadíssima e engarrafadíssima na rua Goiás, às seis e quarenta da manhã, liguei o rádio para ouvir as notícias do dia (anterior) pela bandi nils éfe eme.

Exatamente nesse horário, há uma conversa com uma tal de Rosely Sayão, uma psicóloga super conceituada que transforma os problemas mais cavernosos em coisinhas assim, super simples e fáceis de lidar. Os pais ligam para ela se descabelando e saem da conversa todos penteadinhos sabendo direitinho o que fazer.

Mãe esperta que sou de três filhos em idades completamente diferentes, sei exatamente o que deve ser feito com os filhos dos outros e, na maioria das vezes que a ouço falando e aconselhando, eu me sinto apta a trocar de lugar com essa tal de Rosely. Acho o trabalho dela super simples e as respostas muito óbvias. Por exemplo, se o filho só quiser comer doce na hora do almoço... o que fazer? Moleza, não? E quando o meu filho adolescente não larga o celular?, como limitar o horário do computador?, e se meu filho quiser sair e eu não tiver dinheiro??? Rosely, a psicóloga-cabeça, fala um blá-blá-blá lá afirmando sempre que os pais devem ser mais incisivos em casos como esses, o que traduzido para o vulgo quer dizer que essas coisas se resolvem facilmente no grito e quase nunca na conversa. Nem precisava estudar para ser uma Rosely Sayão. Tudo o que ela diz, ou melhor, dizia que deveria ser feito com essa molecada alheia é patente e eu, claro, concordava. Até que hoje...

Rosely, uma mãe aqui está desesperada porque o filhinho dela de quatro anos vai para a cama dela tooooooda noite. A mãe diz que pega o menininho, coloca de volta na cama, mas diz que ele volta! E esse procedimento acontece umas quatro ou cinco vezes até que a mãe cede e acaba dormindo mal por conta disso. O que fazer, Rosely? Perguntou Inês de Castro, a radialista. Eu, no carro, imaginando essa cena, sendo mãe de um garotinho de três anos que dorme segurando um carrinho, esbanjei sabedoria e respondi à mãe sem titubear: coloca um colchonete no quarto, senhora! Mega óbvio a resposta. Problema resolvido. Simples assim. Sem traumas e aborrecimentos. Próximo! Mas qual o quê! Rosely veio com um conselho pra lá de bizarro. Eu não a conheço pessoalmente nem sei como ela é fisicamente e nunca quis saber, mas hoje comecei a imaginar uma velha de cabelos grisalhos, longos e alvoroçados, portadora de um nariz grande com uma verruga na ponta e usando um chapéu grandão, roxo, em forma de cone falando no microfone. Inês, essa mãe tem que ser mais persistente. A criança tem que aprender que deve dormir sozinha. SO-ZI-NHA? Gritei eu no carro já suando me imaginando no lugar do menininho. Isso mesmo, Inês!, respondeu Rosely me confundindo com outra. O menininho tem que ver que não adianta ele ir para a cama dos pais e que a noite é cada um no seu quadrado, quer dizer, no seu quarto! Que absurdo! Mil vezes que absurdo. Fala sério, Rosely!

Eu, até eu!, que só fui dormir sozinha pela primeira vez quando fui a São Paulo há dois anos atrás (na verdade eu não consegui dormir, mas isso não vem ao caso), sei que todos os bichos do Universo dormem juntos. As galinhas, os macacos, os peixinhos e os passarinhos. Quando um se separa é porque acha que se garante e até onde eu saiba não é o caso nem do leão e nem do gavião! Aqui em casa, todos tem um quarto separado, mas se alguém se sentir inseguro pode vir que eu protejo. E quando meu marido viaja, eu faço questão, mesmo que eles não queiram, de protegê-los. Bóra dormir com a mamãe, galera. Se, por um acaso, eles dispensarem meu quarto eu pego um colchonete e fico de prontidão dormindo ao lado deles. Comigo é assim. Passo a maior segurança pra garotada.

Taaí. Hoje dona Rosely Sayão me decepcionou. Mandei um email para lá manifestando a minha indignação e me colocando à disposição para os ouvintes caso precisem de maiores esclarecimentos sobre o tema. Pelo que tudo indica, o email foi desprezadaço. Por isso vim pra cá, onde sou levada super a sério.



quarta-feira, 7 de abril de 2010

Nem Tanto ao Céu, Nem Tanto à Terra

Entrei numa loja de roupas íntimas e rapidamente aproximou-se uma vendedora perguntando se eu queria ver algo especial. Respondi com um sorriso debochado, pois, havia entrado numa loja que só vende um tipo de produto. Estou procurando calcinhas e sutiãs. Falei por falar, por impaciência, por TPM, por querer ficar logo sozinha de novo escolhendo mas, em seguida, ouvi:

- Sei. Mas a senhora quer ver coisas de esposa ou de amante?

E lá vamos nós.

Quando os filósofos debatem um determinado assunto, antes que a discussão se inicie é um hábito senão uma necessidade definir algumas palavras que serão mencionadas a fim de evitar maiores confusões. A pergunta me paralisou por alguns segundos, pois, na minha definição de esposa a palavra amante é indispensável.

Lembrei-me, no momento da pergunta inesperada da vendedora, de um texto que havia preparado para dar de presente para a minha filha quando ela se casasse se é que isso vai acontecer um dia. O texto versava principalmente sobre casamento, mas também mencionava o que é ser, na minha opinião, uma esposa. Não vou reproduzi-lo na íntegra aqui porque ele é enorme. Citarei apenas uma parte.

Nara, não há segredos para o casamento dar certo. Há muitas mentiras que acabam por nos enlouquecer caso acreditemos nelas. Falam, por exemplo, que casamento é um deus-nos-acuda, um deus-me-livre e até, agora veja, coisa de Deus. Ouve-se por aí ainda hoje que o amor é de família nobre e tradicional, enquanto o sexo vem da periferia e é chegado numa promiscuidade. Não é nada disso, querida. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra.

Comecemos por entender que homem nenhum jamais irá pertencer a uma mulher e vice-versa, independente do papel que assine ou do tamanho do ritual que sacramentará essa união. Somos livres, Nara. Mesmo dentro de um casamento. E ficaremos ao lado da pessoa com quem casamos por livre e espontânea vontade caso queiramos nos deparar com a tal da felicidade com uma certa frequência.

Se você foi escolhida para compartilhar a intimidade com alguém é porque você foi a pessoa que conseguiu conhecê-lo com maior facilidade e que, portanto, será a primeira a ser requisitada para ajudá-lo, caso ele precise. Você será amiga, contudo, também será amante. E para que isso não signifique que você tenha dupla personalidade deverá ser romântica ao desempenhar esses dois papéis. Mesmo nos momentos do sexo despudorado, minha filha.

Casamento tem que ter um quê de brincadeira de criança embora seja imprescindível que haja maturidade. As características que marcam um relacionamento maduro são infinitas porque os casais sempre estão se reinventando, mas vou citar algumas para que você entenda o que quero dizer: o silêncio feminino na hora do jogo, o olhar carinhoso dele ao te ver dormir com uma camisa que ele adora, dançar só para ele (mesmo que ele caia na gargalhada toda vez que você tentar excitá-lo com isso), ganhar (e dar) a primeira colherada do sorvete, abrir uma cerveja num final de tarde de domingo mesmo sem ter os amigos em casa, ele tentar te fotografar enquanto você anda a cavalo, lingeries novas, ...coisinhas assim que juntas e misturadas como se fossem uma coisa só são de suma importância. Fique atenta a elas. Muita gente as menospreza ou não lhes dão o devido valor.

(...)


Olhei para a vendedora e mesmo com pouco conhecimento ao seu respeito tive uma opinião formada. Para me fazer essa pergunta tratava-se de uma pessoa completamente diferente e distante de mim. Diria até que vivia em outro mundo. Estava com pressa e evitei discussão:

- As de amante, é claro.

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Poderia ter terminado por aqui e deixado que todos acreditassem (como eu acreditei por alguns segundos) que, de alguma forma, eu tivesse algo a mais que a vendedora. Sabedoria, sensibilidade, paz no coração, sei lá. Porém, quando ouviu minha resposta ela rebateu imediatamente:

- É o que todas respondem. Por isso tenho orgulho de ser mulher.

Entre o preconceito e a ironia da vida, mais uma vez: ponto para o segundo.



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E para aqueles que querem saber se comprei algo muito ousado ... nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Afinal, entrei na loja à procura de um presente para a minha mãe.

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