quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Por que não enfeita?

Vira e mexe eu solto essa pergunta por aí. Para entendê-la e usá-la como eu é preciso saber em que contexto ela foi espontaneamente mencionada pela primeira vez.

Eu devia ter uns doze anos, talvez treze, quem sabe mais?, quando fui visitar uns tios e primos  em Itajubá, terra natal de Dona Ruth, a senhora minha mãe. Vovô e vovó estavam lá firmes e fortes e raro era um final de semana em que não aparecíamos para vê-los. Só de filho parido vovó teve dezesseis sem contar os que foram se chegando trazidos pelos ventos e pelas mãos de um destino que teima em ser bondoso. Todos muito cristãos cresceram e se multiplicaram uns por sete, outros por quatro, nenhum por dois. Tenho mais primos do que sapatos! Essa história é sobre um deles: o Leonardo. Numa dessas viagens até Minas, lá pelos idos de 1980, ouvi minha tia Neusa nervosa de vergonha  contando essa história para mamãe que acabara de chegar.

Meu priminho de cinco anos (na época priminho... hoje: pai de família, dentista cheio de posses e morador  da Bahia) foi visitar uma amiga da minha tia Neusa. A visita foi rápida mas não o suficiente para livrar a tia de uma saia-justa. Leonardo ficou encafifado com três borboletas azuis de plástico  de tamanhos diferentes colocadas diagonalmente na parede ao lado da porta da sala sendo a menor borboleta a última  daquela fila e a maior, a primeira. As senhoras até acharam graça do menino olhando fixamente o adereço.

- Pra quê que serve isso?- perguntou o menino sem tirar os olhos do adorno.

- Para enfeitar, meu filho.- Respondeu minha tia pacientemente. As duas amigas riram da doce curiosidade  da criança.

- Então...por que não enfeita???

De repente, do riso fez-se o pranto, da calma fez-se o vento e do amigo próximo o distante. Minha tia disse que nunca mais teria cara para voltar lá na casa da amiga que sorriu só com a boca após a pergunta infeliz do mal-educado do Leonardo!

Bom, a história foi essa e até hoje quando vejo algo como as borboletas que não conseguem cumprir o seu destino refaço a pergunta desconcertante ou em voz alta ou em pensamento mesmo. Esse post será sempre atualizado a partir de hoje e gostaria de receber contribuições de quem quiser me ajudar nessa empreitada. Para compartilhar os meus momentos “Por que não enfeita?” andei tirando algumas fotos, salvando outras quando via por esse i-mundo e agora as coloco no blog.

Então...por que não enfeita???




Desfile de moda...nunca entendi isso...

Coisa mar linda esse jogo de copos!

POR QUE NÃO ENFEITA???
"Por que não enfeita?" não está ligado à uma classe social. Pessoas de posses são mestres nessa arte.





No mesmo condomínio três (TRÊS!!!) cristos!

Nem se estivesse com a camisa do Flamengo enfeitaria!
"Obra de Arte" na frente da UERJ (2011). Por que??? Por que é arte????

domingo, 19 de dezembro de 2010

Natal na minha cozinha!

Ah não! Acredita que esses ovos estão na maior animação para o Natal? Não, né? Por isso eu fotografo. Para ninguém falar que estou mentindo...

clique na imagem para ampliar

clique na imagem para ampliar
 Que a animação dos meus ovos esteja presente na noite de Natal de todos vocês!

Dá até pena de fazer rabanada... 

sábado, 18 de dezembro de 2010

Os Ovos e a História da Física

Caramba!!!! Sabem quem está lendo o meu livro e está adorando? Se eu contar ninguém acredita! Por isso resolvi fotografar!




Clique na imagem para ampliar.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Ying-Yang-Yuki-Nara

crianças quinta na praçaHoje não teve jeito. Eu tento evitar, procuro passar longe, manter uma certa distância, mas hoje não teve jeito mesmo. Tive que ir ao shopping em pleno mês de Dezembro! E ainda com Nara e Yuki! Era para ser algo bem rápido mesmo, tipo vapt-vupt, entrar e sair, ping- pong, ying-yang, fuivoltei. Nara precisava de um biquíni para ir ao Rio Water Planet amanhã comemorar os treze anos da melhor amiga. Era só isso. Um biquíni.

Coloquei Yuki rapidinho num parquinho fechado cheio de monitoras que andam descalças num chão acolchoado e colorido e saí correndo com a Nara para escolher a roupa de mergulho, pirueta e escorregadas radicais. Peguei o Yuki uma hora e meia depois (!) e ele fez o maior escândalo para sair daquele bem-bom. Parece criança esse meu filho caçula. Muito imaturo. Não entende a finitude da minha paciência e da minha conta bancária. Yuki, o dinheiro da mamãe acabou. A-ca-bou! Vamos embora correndo senão a mulher vai chamar o moço que vai expulsar a gente daqui! Gastei meu latim à toa, de nada adiantou uma explicação super clara e detalhada sobre o funcionamento do mundo. Comecei a tirar meus sapatos bufando para correr atrás dele e pegá-lo à força quando a Nara se meteu e gritou de onde estávamos mesmo que eles iam tomar o maior sorvetão do mundo se eles saíssem dali naquele exato instante. Sorvete? Mané, que sorvete? Nara, tá maluca? Temos que vol... pronto. Yuki já estava ao meu lado calçando os chinelos todo animado. Ele e mais um punhado de crianças que, bem feito, tinham que ficar lá mais um tempão brincando.

O sorvete não estava no script, assim como tanto tempo no parquinho também não e nem a quantidade de biquínis experimentados. Mas tudo bem, Nara vai arrasar amanhã e eu já estava mesmo precisando naquela altura de um sundae duplo.

Indo a caminho do estacionamento depois de nos entupirmos de tanto sorvete, quem a gente viu? Quem estava lá no shopping? Quem? Bem sentadão dando tchau. Quem? Ele mesmo. Papai Noel. Perguntei ao Yuki se ele queria falar com o bom velhinho. Assim, depois de pegarmos uma filinha básica e de ver muitas crianças mega assustadas sendo forçadas pelos pais sem a menor noção de psicologia, a se aproximar mais, a sorrir, e até a sentar no colo do coitado do homem já todo suado, chegou a vez do meu filho.

Yuki se aproximou timidamente. Eu toda cheia de cuidado e com todo jeitinho fui puxando a mãozinha dele em direção ao Papai Noel (!!! Papai Noel!!!!). Conforme o homem rechonchudo começou a fazer perguntinhas, Yuki foi se soltando.

Qual o seu nome? Qual o seu time? Quer ganhar o que de Papai Noel?

Depois dessa última pergunta então... ele até soltou a minha mão para explicar com gestos tudo o que ele queria. Um helicótupelú que faz ttatatatataaa, um carrão bem glandão de contlole remoto, um avião que voa láááááá longe e mais um caminhão que carrega carros, e mais...e mais....e mais...

Papai Noel, todo fofo e politicamente correto, perguntou se ele havia obedecido mamãe. Yuki me olhou assustadaço, e disse baixinho para ele que havia ficado de castigo uma vez, mas que pediu desculpas e ficou bem bonzinho depois. E foi chegado o momento da despedida. Papai Noel pediu um beijo e um abraço bem forte, Yuki deu tudo o que Papai Noel pediu e Papai Noel, todo simpático, deu para o Yuki um pirulito no final. Tudo muito legal. Mas, outra coisa fora do script do dia: Yuki olhou para o pirulito, para o Papai Noel, para o pirulito...nessa hora, eu pressentindo o que não se passava naquela cabecinha, segurei a mãozinha dele e comecei a tirá-lo de perto do seu barba-branca-me-poupe!, mas Yuki botou pé firme, começou a fazer biquinho, depois abriu o berreiro e desembestou a reclamar reclamar reclamar. Pu quê? Pu quê? Pu quê só um pilulito pla mim? Pu quê??? Eu num ti disse que pedi desculpa?

Até ele se acalmar para eu conseguir explicar que hoje era só o dia de anotar os pedidos, que Papai Noel virá à nossa casa na noite de Natal, que o pirulito não era presente, era só um negocinho sem significado nenhum que Papai Noel dava para todo mundo seja bom ou ruim nessa vida, tenha pedido desculpas ou não pra mamãe...olha, foi brabo. As crianças na fila estavam num misto de ansiedade e pânico vendo o escândalo do Yuki que apontava com a mão esquerda o pirulito que segurava com a direita e que revezava o olhar úmido entre o doce e alma do Papai Noel.

Eu já estava a ponto de contar toda a verdade para o Yuki que seguia inconformado. As duendes empurrando a gente para sair da frente do Papai Noel, o diabo do homem já chamando outra criança sem ainda resolver a crise do meu filho, a minha paciência já no beleléu, meu coração batendo tresloucadamente ... peguei o pirulito da mão do Yuki, apontei para o Papai Noel e antes que eu falasse uma poucas e boas para ele, a Nara gritou de longe. Yuki, vamos ver os carros no kart! Que kart, mané, kart? Nara, a gente tá in... Yuki saiu correndo animado e fomos ver (rapidinho, viu?) qual era daqueles carrinhos barulhentos.

Finalmente, depois de sei lá quantas horas dentro de um shopping, as crianças cansaram de tudo aquilo e pude voltar para a casa sem precisar prometer nada além da casa mesmo.

(Leve, estranhamente leve depois dessa tarde, sentei aqui na biblioteca e comecei a fazer um trabalho do curso de filosofia. Porém, mesmo diante de grandes questões sobre a existência há nesse instante uma só pergunta que me paralisa. O que eu faço agora com o pirulito que está na minha bolsa?)



------------------------------------

Gostou? Então quem sabe goste desses também?

Sinal Verde
Dividindo pra poder sobrar




terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Pelo sim, pelo não...

Virada do ano para 2010 trouxe erros em
                processamento de datas. (Foto: Divulgação)

Final do ano se aproxima. Eis que chega Dezembro, o calor infernal carioca e as decorações de Natal que ano a ano destoam cada vez mais do nosso clima. O excesso de vermelho, justamente nessa época, é um desafio à minha enxaqueca. Diante da imagem de Papai Noel que a toda hora aparece na minha frente seja lá onde eu esteja, acabei sem querer refletindo no meio de um baita engarrafamento na Praça da Bandeira se, por um acaso, ele, o Papai Noel, existisse me visitaria na noite de Natal. Para tanto e por falta do que fazer, ao som de buzinas e apitos de guardas de trânsito, realizei a minha própria retrospectiva 2010:

Consegui terminar o meu curso de italiano que nem Deus sabia se o finalizaria. Ingressei oficialmente no doutorado. Quase não fiz exercícios físicos. Dirigi no limite da velocidade mas avancei muitos sinais. Passei a emprestar meus livros somente mediante uma garantia de que eles seriam devolvidos. Comecei a pintar o cabelo e não contei a ninguém. Decidi fazer terapia. Fui usuária da ração humana por um mês e meio. Menti para os meus alunos dizendo que a prova estava muito difícil. Usei vírgulas indevidamente. Conheci o CERN e a terra de Jorge Luis Borges. Esnobei. Comprei poucas roupas, um Cuco para meus pais de presente, nenhum CD e vinte e sete livros. Li menos da metade, mas detonei em uma semana todos do “Pequeno Nicolau”. Quase não comi fruta. Não fui a Minas ver meus tios e nem a nenhum médico. Experimentei acarajé e a solidão no farol da Barra. Meu filho mais velho foi morar com o pai e eu não chorei. Vi as quatro temporadas do Prison Break direto. Não subestimei e nem idolatrei ninguém além de mim mesma. Entrei no facebook. Engordei 3 quilos. Quase não falei palavrão, mas xinguei a minha sogra. Xinguei uma nora também. Meu cunhado. E mais um punhado de gente que me tirou do sério. Votei na Dilma.Entrei nas aulas de conversação em inglês. Fiz barulho de metralhadora quando vi na televisão os traficantes fugindo da Vila Cruzeiro e entrando no Complexo do Alemão.

A grande questão que me coloquei já na altura do Maracanã é o que ainda daria tempo de se fazer antes da chegada do Natal para que o bom velhinho não só aparecesse como também me entupisse de presentes legais. Ele não virá, eu sei e não me importo. Eu procuro me perdoar diariamente e isso é o que basta. Queria apenas arejar a biografia e deixar vazar alguns pensamentos nada abençoáveis. Mas pelo sim, pelo não e pela incoerência que me persegue, andei chupando manga, comecei ontem a tomar caralluma (um redutor de peso que vai me deixar com o corpo da Gisele Bundchen em menos de dez dias), marquei uma consulta médica, estou lendo Schelling e vou a Minas semana que vem.


------------------------------------

Gostaria de saber dos amigos, o que eles fariam para ganhar presentes na noite de Natal. Vejam bem, não se trata de promessas para o ano que vem e sim para o que dá para ser feito antes deste acabar! Mais alguém quer ficar nu?





domingo, 14 de novembro de 2010

Contando as Estrelas

Estou participando de um Congresso em História da Ciência aqui em Salvador. Aprendi já um monte de coisas legais, fiz alguns contatos, conheci ídolos, apresentei meu livro para um monte de gente e, por tabela, fiz um tratamento de choque. Existem terapias que colocam o paciente em contato com o que lhe causa pânico para ver se ele aprende de vez a ser homem. Cá estou eu, vivendo meu maior pesadelo, tendo a visão do inferno a cada segundo. Apesar de dar alguns "ois" nesse congresso, não consegui fazer uma aproximação além da profissional. Resultado? Nos tempos vagos, acabei ficando completamente sozinha e hoje, por exemplo, fui ao Pelourinho tendo ao meu lado somente a minha parca coragem. Cheguei a cogitar a hipótese de não ir a lugar nenhum e curtir uma depressão, mas nem de longe isso combinou comigo.

No final do tratamento, algumas histórias para contar.

--------------

No Mercado Modelo entrei numa loja que vende instrumentos musicais dentre outras coisas esquisitas. Comprei cuíca, pandeiro, pau de chuva e um agogô para o Yuki, meu filho sambista de quatro anos. Mas mesmo após ter finalizado a compra continuei olhando os objetos expostos nas prateleiras.

- O que é isso? - Perguntei apontando um côco com um canudo minúsculo de madeira meio achatado.
- Sabe não?- Respondeu o baiano com o maior sotaque de baiano.
- Sei não. - Saiu a resposta meio assim sem querer.
- É pra fumar maconha. Vou lhé éxplicar como sé usa.- E dito isso o baiano pegou um baseado apagado.
- Carece não, moço. Eu não fumo. – Disse em baianês claro, já arrependida de ter perguntado.
- Mas deixa eu lhé éxplicar para a senhóra aprénder.- Disse o baiano pegando o côco em slow motion.
- Mas eu não vou usar! - E comecei a me afastar do baiano maconheiro com medo de ser presa.
- O nóme disso é côco lôco - Continuou o rapaz lentamente. - A gente énfia o baseado aqui, énfia o canudo no côco, e a fumaça fica présa. Assim, senhóra, ninguém sénte o cheiro, éntende o que estou a lhé dizer?
- Sim, perfeitamente, obrigada. - e comecei a ir embora.
- A fumaça éncontra uma barréira.- Falou o rapaz que pelo visto já havia fumado e não me ouvia e não parava de mostrar a porcaria do côco.
- ... – Desesperei-me em silêncio.
- Eu estou lhé explicando isso, senhóra, tenha médo não, mas é que se a senhóra ver alguém com isso vai saber o que está acontécendo. - Justificou calmamente o soteropolitano.
- Obrigada.- Agradeci depois de ter refletido sobre preconceitos e  medos precipitados. - Côco-lôco. Aprendi.

Agora estou espertinha.

----------------

 Voltando para o hotel de táxi imunda, suada, morta de tanto andar, o motorista resolveu puxar assunto:

- A senhóra é daqui não, acértei? - Cutucou-me o motorista.
- Sou não. - Saiu a resposta, de novo, meio assim sem querer.
- Da onde a senhóra veio? - Insistiu o motorista.
- Vim do Rio. - Respondi simplesmente.
- Cónhéço. Ja tive em cópacabana. Fui lá fazér um biscate. Vénder chinélo. Déu certo não...- Estendeu-se o motorista.
- Mas é bonito o Rio, não? - Desvencilhei-me friamente de uma longa história contada em câmara lenta.
- Bónito é. Mas o próblema é que o Rio tem muita subida. Diférénte daqui. - Disse o motorista olhando pro horizonte como se ele (o horizonte (ou o motorista mesmo)) estivesse bem distante.
- Hum hum. – Concordei rápido. Apreensiva com aquela meditação toda repentina no meio do trânsito.
- Aqui não. Aqui em Salvador só tem déscida.

Meodeos... o que esse baiano está me dizendo? Diferente de lugar que tem muita subida é lugar que tem  descida por acaso? Ai, jesuis! Será que ele não sabe que isso é uma questão de referencial?

- Mas, meu senhor, veja bem, tudo que sobe...não desce? E se desce... não foi porque subiu?
- A sénhóra me entendeu diréito não. Lá no Rio de Jánéiro, tem muita subida e aqui, véja bém, é tudo baixo. Ou alto.

Ou não...

---------
A noite saí caminhando pela orla. Meu hotel fica na praia da Barra, pertinho do farol. A intenção era chegar nele e lá comer um acarajé. Com a iguaria nas mãos, sentei-me na grama, nas mediações do forte. Brisa, acarajé, farol da Barra...até que não posso reclamar. Ao meu lado, próxima a mim, sentou-se uma mulher. Menina nova. Por volta dos vinte anos aparentemente. Também só.

Reconheci a moça assim que olhei para o seu rosto e o brinco cor  rosa-pink que contrastava com a pele negra. Ela era a ascensorista do elevador Lacerda que peguei hoje.

Parênteses. O Elevador Lacerda é um ponto turístico aqui em Salvador. Ele liga a cidade alta à cidade baixa. Mas é apenas um elevador sem nem ao menos uma vista panorâmica. Quente quente quente. Assim que entrei, chamou-me a atenção a ascensorista pelo trabalho que ninguém merece. Aperta botão sobe. Aperta botão desce. Sobe desce, sobe desce, sobe desce...quantas vezes essa coitada faz isso ao dia? E que diabo de brinco feio é esse? Fecha parênteses.

- Te vi hoje trabalhando. – Falei assim, por falar.
- Ah sim, a sénhóra éstéve lá no élévador? – Perguntou com a intenção certamente de ser apenas simpática.

- Estive. Trabalho cansativo esse seu... quente lá dentro, né? – Disse eu limpando a boca com o antebraço já que as duas mãos estavam segurando o acarajé.
- Ah é sim, e por isso eu vénho aqui sémpre que pósso. Eu passo o dia usando o meu dédo indicador apértando bótão e suando. Aqui no fárol... com esse vénto...posso usar meu indicador como deve ser usado.
- ???- Perguntou a minha testa.
- Cóntando as éstrelas.

--------

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Capitão Nascimento e Dona Maria José



Depois de enfrentar uma fila fora do comum no Norte Shopping para comprar ingressos no cinema em plena segunda-feira, eu e Nelson entramos na sala de projeção quinze minutos antes de iniciar Tropa de Elite 2 com o intuito de garantir um bom lugar. Menos de cinco minutos depois que sentamos, a sala já estava lotada. O filme, como todos sabem, é um fenômeno de bilheteria. Havia pessoas de todas as idades, cores e tamanhos ansiosas e empolgadíssimas para torcer pelo Capitão Nascimento.

Com poucas luzes ainda acesas, bem antes do aviso para que desligássemos os celulares, uma senhora que pertencia a um grupo de mais umas seis idosas e que por sua vez estavam sentadas na fileira em frente a minha, começou a tossir de tanto rir. As outras estavam bem agitadas também gargalhando. Eu estava atenta a observá-las. Um grupo de senhoras sempre me causa um certo desconforto. Fico logo imaginando que deve ser um bando de viúvas, morando sozinhas depois de uma vida dedicada a um lar movimentado com filhos e que agora estão todos casados e mudaram-se para outros Estados... e de repente, no meio dessas divagações devidamente discutidas na terapia que não está adiantando de nada, algo estranho aconteceu. A senhora que tossiu ficou em pé, agora séria. Olhava para o chão e parecia procurar algo.

- O que foi, Maria José? – Perguntou uma senhora com cabelo acaju.

- Shhshhshshs – cochichou Dona Maria José no ouvido da amiga que imediatamente se levantou também e começou a olhar para o chão.

Não demorou para todas aquelas senhoras estarem na vertical em pleno cinema. Havia uns meninos vestidos com uniforme da rede estadual de ensino sentados ali por perto, mais precisamente em frente a elas que, rapidamente, ofereceram ajuda.

- Tia, perdeu alguma coisa? – Perguntou um garoto alto e negro sentado à frente da senhora-acaju.

- Perdi mas não quero dizer o que foi. – Respondeu Dona Maria José.

- É melhor falar que eles ajudam, Maria José!- Aconselhou uma outra senhora que segurava um pacote grande de m&m´s ainda fechado.

Maria José ainda relutava em responder.

- Fala, tia! Quer ajuda? – Insistiu o outro de cabelo cheio de trancinhas tererê.

- Perdi o pivô.- Disse Maria José envergonhada, mostrando para as velhas amigas e para os meninos um buraco entre os dentes.

Dito isso, as amigas com a ajuda dos meninos de uniforme imediatamente intensificaram a busca naquela penumbra que fica as salas de cinema antes do filme começar.

- O que está acontecendo? – Perguntou uma menina da minha idade sentada logo atrás de mim.

- Maria José perdeu a dentadura. – Respondi no reflexo.

Os meninos, nessa hora, estavam todos tentando iluminar o chão com a parca luz de três celulares juntos.

- Pede pro lanterninha iluminar! – Gritou a menina atrás de mim  se compadecendo com o problema de  Maria José e revelando que não era tão menina assim.

- Que lanterninha? O que é isso? – Interpelou um dos meninos de uniforme lá na frente para a infeliz que não sabe que lanterninha é coisa do tempo dos dinossauros.

- O que está acontecendo? – Perguntou o senhor atrás da menina que não era menina droga nenhuma.

- A senhora ali perdeu a dentadura. – Respondeu um moço com um saco enorme de pipoca duas cadeiras à esquerda da meninossauro.

- Achei! – Gritou o rapaizinho alto de uniforme. – Ah não, era pipoca... – Lamentou-se em seguida.

Por um momento, aquela busca me lembrou o resgate dos 33 mineiros. Vários celulares iluminavam do alto o cocuruto das senhoras que olhavam por debaixo das cadeiras. E o mundo inteiro, a essa altura, já acompanhava o desespero daquela senhora com o sorriso pra lá de comprometido. O filme quase para começar... A pouca luz que tínhamos ia acabar em instantes!

- Deixa pra lá. – Falou Maria José meio descontente e perdendo as forças.

- Desiste, não, tia! Esse troço é caro a beça! – Aconselhou o menino que não sabia o que era  "lanterninha".

- Não, tia, desiste não! A senhora é brasileira! - Esbravejou um patriótico aluno da rede estadual.

- Vê se melhora. – Falou firme um rapaz bem vestido que veio lá detrás com um celular super bombado que apertando um botão durante três segundos se transformava numa lanterna hiper potente.

Não sei quanto quantos minutos se passaram, mas sei que foram tensos. Estávamos todos com os pescoços esticados com medo das luzes se apagarem e Maria José ficar sem o dente que custou os olhos da cara, como lembrou a senhora-m&m´s.

- Achei! – Vociferou feliz a senhora de cabelo acaju levantando bem alto um dente com um pino  para todos verem que, dessa vez, não era alarme falso.

Todos do cinema, nesse instante, aplaudiram, ovacionaram, eu até dei um abraço forte no Nelson! Um menino que estava com mão cheia de pipoca, com aquela gritaria e batelança de palmas jogou as pipocas para o céu, certamente agradecendo aos deuses por aquele sufoco ter acabado. A amiga de Maria José, feliz da vida, abriu, finalmente, o m&m´s e começou a oferecer para todo mundo. Enfim, um negócio assim de doido e muito bonito de se ver!

- Já valeu o ingresso! – Gritou Nelson emocionado aplaudindo.

Daí, as luzes começaram a se apagar, o filme começou e bem, foi aquilo que todo mundo já sabe.