É...parece que o ano começou. A novidade-2011 aqui de casa é o Yuki, meu caçulinha de quatro anos, indo à escola. O evento-primeiro-dia-na-escolinha foi devidamente registrado por mim que o levou, junto com toda a família, munida de óculos de sol (porque estava muito sol e não porque eu ia chorar sabendo que falta pouco agora para eu ter três filhos formados), de máquina fotográfica e de sacolas com quinze toneladas de artigos de papelaria.
Antes de levarmos as crianças à instituição de ensino que escolhemos com o maior cuidado temos que comprar tudo que está na tal lista de material e no primeiro dia de aula entregar à tia Rose, a coordenadora pedagógica, não sem antes etiquetar cada item desde mochila até escova de dentes com o nome e a turma da sua cria: Yuki, Pré I, no meu caso. Esse foi um momento delicado e não me lembro de ter me sentido assim e de ter refletido tanto sobre o que é a vida ao etiquetar saboneteiras, copinhos e uma pasta polionda comprados com tanta inquietação na alma como descreverei a seguir. Meus olhos chegaram a ter um brilho mais úmido. Todos os filhos estudando agora. Muito emocionante isso! Quer dizer, será que Hideo, meu filho adolescente, vai estudar alguma coisa esse ano?!?
Voltemos ao foco.
A compra do material de uma criança na pré-escola é uma aprovação espiritual se é que isso existe mesmo. Sou professora de física, faço doutorado em filosofia, desenho, pinto e bordo, mas tive que controlar a respiração diante alguns itens como 80 folhas de sulfite A3 (o vendedor poderia me dar até um pedaço de tecido e dizer que isso era sulfite e eu não tinha conhecimento para contestá-lo! 80! Por que não 100?), 01 metro de papel nacarado (sei o que é cartolina e papel crepom, papel NACARADO??? Esse radical “naca” é de quê?), 01 caixa de lápis de cor gigante (gigante? Mas ele é tão pequenininho??? Quão gigante será isso? Será que a mochila que comprei foi muito pequena???), 1 pacote de papel Romitec (Outro papel esquisito??? Deve ser algo moderno porque o sufixo TEC significa altas tecnologias...), pincel chato n° 22 (O vendedor me disse que só tinha o número 20 e eu quase morri porque era um dos últimos itens. Só fiquei imaginando Yukinho não conseguindo fazer um movimento sinuoso na papel color sete (só pode ser nesse papel que eles vão pintar porque o prefixo color quer dizer “vamos colorir aqui”) e todos os amiguinhos rindo dele... eu vou ao inferno, mas meu filho vai ter um pincel número 22!!!), 04 grampos trilho (Grampo? Como assim grampo???) e 01 pasta polionda verde de 2 cm com alça (caramba...essa foi a pior porque nenhuma loja tinha mais essa de 2 cm, só de 4 cm. Isso deve fazer uma diferença enorme já que essa pasta tem ondas a beça e meu filho será o único com uma pasta com o número de ondas multiplicada por dois. Dependendo do tamanho dessas ondas...o problema é que já estava no inferno e mesmo lá não havia mais a pasta de 2 cm!!!). Mas, por fim, todos os itens da lista riscados com uma caneta acrilex preta.
E quando eu pensei que já havia feito reflexões suficientes até o momento de entregar meu filhote nas mãos da tia Marina, eis que chega a hora de buscá-lo. Na mochilinha hot-wheels encontrei o primeiro trabalho feito com a caixa de tubos de cola coloridas 40 ml sem glitter. Ao lado, escrito com a caligrafia da tia, estavam as palavras ditas por ele assim que terminou a obra. Cá estou eu nas nuvens com o espírito devidamente elevado a um outro patamar e desfrutando dessa sensação boa de entrar numa catedral que eu mesma construí.









