terça-feira, 17 de maio de 2011

O Elo Perdido


 O corpo de dona Roberta teria que ser exumado. Passados sete anos desde que a mãe de Dulcinha havia sido enterrada, o pai da moça veio a falecer. Por falta de espaço no túmulo da família a exumação foi aconselhada uma vez que Dulcinha queria mesmo os pais juntos mesmo depois de mortos. E disso ela não abriria mão, pois, a lembrança que guardava de seus pais se assemelhava a uma árvore com o seu pai sendo o tronco desse imponente vegetal e a mãe, a copa responsável não só pela fotossíntese como também, e principalmente, pela sombra que dá vontade da gente fazer piquenique. Tronco sem folhas não respira, mas fica em pé, serve para colocar rede. E folhas sem tronco? A gente só varre sem perceber a menor resistência mesmo que seja um punhado. Dulcinha usava essa imagem para se consolar quando a saudade da mãe doía-lhe até os ossos. Imagina se o seu Mauro lhe falta primeiro, como a alegria de dona Roberta se sustentaria? Melhor assim já que tem que ser de um jeito ou de outro. Melhor assim.  Diante, porém, da possibilidade de uni-los novamente, Dulcinha faria o que fosse preciso para que a majestade do arbusto fosse imposta para a eternidade.

O fato de ter ficado órfã de mãe e de pai aos vinte e quatro anos de idade e ter que administrar não só sua vida como também uma casa com quintal trouxe muito sofrimento para Dulcinha. Para sermos sinceros, ela sobreviveria bem, pois não era dada a grandes reflexões. Aconteceu, porém, algo que tirou a jovem do seu eixo.

O coveiro, seu Inácio, era homem honesto e devolveu à Dulcinha uma aliança encontrada não em uma das falanges onde deveriam jazer todos os anéis, mas entre as costelas de dona Roberta se é que ainda podemos chamar o esqueleto pelo nome de quem o carregou. Seu Inácio poderia ter somente entregado o aro dourado para a moça. Se somente isso fizesse diríamos que teria feito uma boa ação, agido corretamente e consolado uma filha devolvendo-lhe algo que a terra quase sorveu. Mas não. Seu Inácio deu com a língua nos poucos dentes que carregava e descreveu com detalhes para a senhorinha o local exato onde encontrou a pequena argola de ouro dezoito. Foi bem mesmo na região onde deveria ser o estômago.

Dulcinha sabia que sua mãe havia morrido durante um assalto. Houve um arrastão no túnel Rebouças e os ladrões subtraiam de suas vítimas bolsas, celulares e as jóias das madames chiques que moram na zona sul da cidade. Dona Roberta, coitada, moradora de Madureira, estava indo visitar o irmão doente internado no hospital da Lagoa. Quando estava bem no meio do túnel, os veículos que estavam na sua frente pararam de repente e ela também freou bruscamente. Viu, em seguida, algumas pessoas correndo com cara de pânico e abandonando seus próprios carros, mulheres gritando sem conseguir sair do lugar e não sabemos mais o que Dona Roberta viu. O corpo dela foi encontrado a poucos metros de seu carro com um tiro alojado na parte de trás da cabeça.

Foi seu Mauro que contou para Dulcinha, que nessa época estava se preparando para o vestibular, o triste acontecido. A morte de Roberta saiu até nos jornais já que ela era professora de história da rede estadual da cidade maravilhosa. Dulcinha chorou, sofreu, quis morrer também, mas sete meses depois já estava matriculada na faculdade de matemática. Mesmo antes de dona Roberta passar por aquele túnel que acabou por ligar a terceira com a quarta dimensão, a menina já queria ser professora como a mãe. O infeliz encontro de um projétil com o crânio da pessoa que mais havia lhe entendido nessa vida serviu à moça como o ar quente serve aos pássaros que planam de asas abertas ganhando altura sem nenhum esforço. Dulcinha tinha essa facilidade de transformar dor em escada. Semelhante efeito poderia ter acontecido depois do infarto fulminante de seu Mauro. Elevaria alguns metros e veria muito mais coisas, embora todos saibamos que lá do alto o campo visual aumenta, mas o único barulho que chega cá de baixo aos ouvidos de quem vê as nuvens de pertinho é latido de cachorro nervoso. Isso, todavia, não importa pois, Dulcinha recebeu o anel e algumas informações de seu Inácio no dia em que enterrou seu pai forçando-lhe uma aterrissagem  que inconsciente ou talvez até conscientemente evitara.

Ao receber a aliança, a recém formada em licenciatura colocou-a no bolso. Não ousou experimentá-la porque não conseguiu vê-la como um delicado metal que serve para adorno. Afinal, lembremos o que disse seu Inácio no momento em que entregou o ouro: dona Roberta havia engolido o anel antes de morrer. Na verdade, ele não havia dito isso, mas foi o que quis dizer quando mencionou costelas, estômago e olhou bem dentro dos olhos de Dulcinha.

A moça que poderia ter retornado para casa sentindo apesar da saudade uma sensação de estar vivendo corretamente depois de colocar seus pais juntos debaixo da terra (como é dado a maioria das raízes), desorientou-se ao analisar o que carregava no bolso. De fato, era uma aliança de casamento, mas na parte interna lia-se Murillo 30-4-1901, a data do matrimônio de seus bisavós. Bisa Rosalinda havia se casado com Biso Murillo, fizeram bodas de diamante, tiveram uma dúzia de filhos e mais de cinquenta netos. Vovó Acélia era uma das oito filhas desse casal e como a maioria de seus irmãos casou-se e tivera quatro filhos: Rafaela, Rubens, Rita e a falecida Roberta. Por que de oito filhas da Bisa Rosa a vovó Acélia foi escolhida para ficar com uma aliança usada por mais de sessenta anos pela bisa e ainda, por que das três filhas da vovó o anel estava com a mamãe? Perguntou-se Dulcinha sentada no sofá enquanto segurava somente com as pontas do indicador e do polegar o que seu Inácio lhe entregou com a palma da mão aberta como se segurasse uma bandeja.

Puxa vida, o que se passara na cabeça de sua mãe pouco antes de ser vista como um alvo? Foi sua mãe um alvo? Dona Roberta correra para salvar-se ou para salvar o anel? Ao engoli-lo, pensou Dona Roberta em Dulcinha?  Pensamos quando engolimos um anel? Que grau de importância pode ter um objeto que diante do risco de se perder a vida lembramos de protegê-lo? Dona Roberta quis protegê-lo ou proteger sua história? Há histórias sem narrativas? Deveria Dulcinha entregá-lo a sua avó Acélia dando-lhe a oportunidade de repassá-lo à outras filhas? Deveria contar-lhe em que circunstâncias o anel foi encontrado? Não judiaria, assim, mais ainda de sua avó que mesmo depois de sete anos após ter enterrado sua filha Roberta sofre como somente sofrem aquelas que veem uma vida que ajudou a construir encerrada antes do tempo? Conversaria com as tias? Estaria violando algum segredo? Ou se silenciaria? Faria sentido guardá-lo?  Usá-lo nem pensar. Ou usaria? Haveria sentido aquele anel em seu dedo? Haveria sentido aquele anel em uma gaveta? Faria sentido aquele anel no caixão?

E a moça que não era dada a reflexões, como já dito, desenfreou-se a meditar  por horas naquele sofá. O que é fazer as coisas “à minha maneira”? Somos livres para mudar? Somos eternos? O que dá valor à uma vida? Um incêndio pode ser belo? É difícil se comunicar? Para quê revelar a nossa intimidade? O que nos conduz à verdade? Ser livre é fazer o que queremos? A verdade é um ponto de vista? Quando é que a vida tem sentido? Um daltônico sabe o que é vermelho? É legítimo mesmo sem provas crermos em um Deus? O que é ser responsável? Somos racionais? Os instintos podem estar certos ou errados? Por que é que nos preocupamos com o passado? Quem somos agora determina quem vamos ser amanhã? Pode o sentido da vida parecer sem sentido? São os deuses astronautas?  Podemos conhecer algo inconscientemente? Não provar a culpa prova a inocência? Onde é que as palavras se encontram com as coisas? Conhecemos melhor através dos sentidos ou através das ideias? Escolhemos o nosso futuro? A morte é o fim? Existimos depois de morrer? A morte é compatível com o sentido da vida?

E as perguntas não paravam, muito pelo contrário, aumentavam exponencialmente e as respostas não chegavam e Dulcinha se desesperava sem chão, sem céu, sem paz. Passou a viver como quem vive no inferno. Estava a filha de Roberta sofrendo de depressão? Não, a neta de Acélia sofria de filosofia. A aliança a fez ver um mundo distinto daquele que é constituído apenas de objetos diferentes, de diversos tamanhos e cores. A bisneta de Rosalinda passou a viver num universo não mais organizado tridimensionalmente onde o tempo segue uma marcha inexorável numa única direção e onde as pessoas sabem o que fazer com um anel. Dulcinha, vejam vocês, às vezes andava com ele dentro de uma caixa. Nunca o colocou no dedo. Pensou em jogá-lo no mar. Recusou-se a guardá-lo em uma gaveta. Temeu devolvê-lo à avó. Repugnou dá-lo a uma tia. Resistiu engoli-lo. Admirou-o por horas. Desejou nunca tê-lo visto. Assistiu televisão com ele ao seu lado. Cantou para ele. Colocou-o debaixo do travesseiro antes de dormir na esperança de quando acordar não vê-lo mais ali. Segurou-o entre as palmas de suas mãos e rezou. Riu para ele. Pobrezinha. Usou-o como marcador de livro. Pendurou-o no chaveiro. Teve medo de perdê-lo.

Enfim, a vida de Dulcinha não teve mais um rumo certo. As dúvidas do que fazer com a aliança usada pela bisa Rosa, pela Vó Acélia e pela mãe perseguiram a moça até onde conseguimos acompanhar essa história. A professora de matemática não via mais lógica em nada. Ensinava equações do segundo grau olhando de lado para o próprio quadro em que escrevia, mudava sempre os móveis de lugar, não usou mais relógio de pulso, deixou de ser católica, tinha problemas para atravessar as ruas, virou vegetariana, parou de ajudar os pobres, não teve dificuldades nos relacionamentos e pintou as paredes dos quartos de azul. Nunca mais Dulcinha leu Clarice Lispector.


Mas se querem saber a verdade... a verdade é que dona Rosalinda, a oficial proprietária do anel e bisavó da pobre Dulcinha, não deu anel para filha nenhuma. Já não usava aliança há muito tempo antes de falecer porque a incomodava. Também pudera, dona Rosalinda engordou horrores depois da menopausa. Uma das filhas de dona Rosa, a atual avó de Dulcinha, viu o anel um dia em cima da cabeceira jogado e o experimentou. Esqueceu-se de tirar e acabou ficando com ele no dedo. Dona Rosa bateu as botas e nenhum dos filhos fez questão de saber da aliança. Roberta, a que levou um tiro, era chegada a adereços  e observou o bonito aro dourado na mão da mãe. Pediu para ver. Me dá? Fica. Disse Acélia para Roberta enquanto fumava um cigarro e lia uma revista. Pelo visto nem se dava mais conta que o elo grafado existia. Roberta, por sua vez, vivia trocando de anéis como quem troca de roupa, mania dessa mulherada de sair toda combinando. E, para finalizar, o maluco do seu Inácio que trabalha no cemitério do Caju até hoje tem essa estranha  mania de ficar dizendo pros outros que tudo o que vê no caixão foi o defunto que comeu.


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terça-feira, 26 de abril de 2011

Minha Vida é um Blog Aberto


Dizem que me exponho demais nesse meu mundo virtual. Fato. Mas entendam-me. Meus textos são perguntas feitas para o espelho e eu não consigo silenciá-las tornando-as como o produto daquele que diz ter feito uma música repleta de pausas. Na minha partitura quando elas existem duram somente o tempo de uma semifusa.

Algumas vezes é assustador sair de mim mesma, mas não consigo mais viver no subsolo. Acreditem. Não é raro entristecer-me quando grafo e por isso mesmo forço-me sempre um rabisco. Conseguiremos nós tirar de algum outro lugar que não seja da dor algum aprendizado? Desconheço e não me importo, pois  sei que viver tem que ser perturbador. Há quem se distraia e viva feliz para todo e o sempre sem  conhecer o  verdadeiro deleite de ser feliz num dia e no outro achar que enlouqueceu. Que se há de fazer com a verdade de que o melhor do verão é saber que não estamos no inverno?

Disserto sobre meu mundo porque sou inteiramente estranha a mim mesma e pressionando meus dedos em cima desse teclado surpreendo-me ao ver-me logo ali, andando na rua ou passando por aquela ponte. Torno, assim, nítidas as cores que mal via e, por deus, o daltonismo deve ser uma dádiva assim como a  ignorância porque os textos não podem ser enfeitados e muito menos artisticamente perfeitos. Eles tem que ser eu. Sem batom e sem pudor. Não procurem, portanto, por brilhos nas frases porque sou feita de matéria opaca e sujeita a moléstias. Não esperem tirar ouro dos troncos secos das árvores. Sabemos o que acontece com os que comentem semelhante tolice.

Confesso. Sou incapaz de aceitar essa liberdade das palavras sem pensar no que muitos vão achar e nesse processo eis que o paradoxo se apresenta: buscando-me encontro outras e alguns dos que me leem nem sequer encontram uma de mins. Enquanto conecto-me com outras possibilidades de existir saio por completo do campo visual dessa tela. Serão totalmente em vão essas tentativas de dar nome real a cada coisa transformando fatos em tatuagens que sangram ao nascerem, mas que tem como destino um e pelo menos um olhar de aprovação?
 
Embora para mim Deus não exista e a recíproca seja verdadeira, sei que aqueles que rezam alcançam, sobretudo, a si mesmos. Coloco, assim, sempre que piso nesse espaço as palmas de minhas mãos juntas como os que oram. Escrever foi a forma que descobri de encontrar-me e, às vezes, sinto falta de mim mesma.


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quarta-feira, 20 de abril de 2011

Temos Nosso Próprio Tempo


Com 15 anos cheia de sonhos   &    Com 37 anos e alguns deles realizados
 
Toda paranóia começou quando fomos convidados para uma festa PLOC. Para quem não sabe, nessas festas intituladas com essa marca de chicletes ouvimos músicas da década de 80 e geralmente são frequentadas por pessoas que foram adolescentes por esses idos. A questão é que as músicas nunca vem sozinhas. Ao ouvir Legião Urbana, por exemplo, a voz de Renato Russo magicamente devolve-me a emoção vivida num passado repleto de incertezas descomunais, certezas colossais e tinos e rugas inexistentes. Eu, hoje, em plena puberdade. Maravilha.

O convite poderia ter sido indolor senão fosse pelo fato d´eu ter pintado meus cabelos e ter estudado muito filosofia justamente na semana em que o recebi para tal festa.  Perguntas transmundanas começaram a bombardear minha cabeça colorida artificialmente e na primeira oportunidade fui dividir minhas angústias com o Nelson que está pouco se lixando para essa festa PLOC, que vive rindo alto pela casa apesar de seu couro cabeludo estar cada vez mais visível, que só ouvia Chico Buarque enquanto eu pulava de um lado para outro na Play House ouvindo Olhar 43 e que me namora desde essa época.

O ponto é que quando somos jovens imaginamos um futuro e a gente nele fazendo um monte de coisas super legais porque somos donos dos nossos destinos. E aí vem o diabo do tempo que se acelera a si mesmo perde-se em um presente impossível de se dominar e vai-se embora deixando o tônus de minha epiderme comprometido. As variáveis da equação que rege nossos caminhos começam a fugir do nosso controle e acabamos tendo que conviver bem com o resultado dessa conta que nós nem sequer sabemos como foi feita!

Estava muito angustiada. Precisava conversar...

-Nelsu, se nós nos conhecêssemos nessa festa PLOC, você se interessaria por mim? – Perguntei mexendo nos meus cabelos tonalizados.

- Claro que sim, meu amor, eu me interessaria se te visse em qualquer lugar. Você é a mulher da minha vida...

Não podia ele ter dito isso? Resolveria grande parte dos meus problemas! Eu estava esperando essa resposta para fazer charminho, chamá-lo de bobinho, sentir-me melhor e partir literalmente para o abraço. Mas não.

- Eu não iria a essa festa. – E apontou o controle para a televisão.

Isso mudou tudo. Da minha mente que já estava conturbada por causa de Descartes e do tubo Richesse da Lóreal  surgiram mais 789 perguntas.

- Como não? Foi o Mazinho que te chamou? Você iria rever seus amigos! E então, se me visse lá, você iria se interessar?- Segunda tentativa. Mas Nelson estava em outra estação. Completamente fora de sintonia.

Eu não vou me estender aqui contando o diálogo nervoso sem precedentes que travei com Nelson para convencê-lo a ir a essa festa por livre e espontânea vontade caso não me conhecesse. Fato é que ele conseguiu chegar até lá sozinho e lá me viu.

A Dois Passos do Paraíso toca ao fundo. Eu estou com aquele meu vestido azul marinho e começam a soltar aquele fumacinha de gelo seco.

- E então? Gostou do que viu? Você iria falar comigo? Daí, a gente bateria um papinho num canto e você se interessaria? – Perguntei sorrindo com o coração disparado e rindo de lado.

- Claro que iria. Você é a  mulher mais bonita dessa festa. Não deixaria você escapar...

Não podia ele ter dito isso? Mas não.

- E eu sou lá homem de chamar mulher para conversar? Quando você me viu fazendo isso? Sim, iria te olhar, mas não chamaria você nem ninguém para um canto para ficar de papinho. Eu hein!?! Ia ficar conversando com o Mazinho.

Meus olhos se encheram de lágrimas. Que desgraça. Eu encalhadona numa festa.

Emudeci por conta dos devaneios.

Nelson não estava entendendo nada e percebeu pelo meu silêncio que precisava entender alguma coisa. Eu precisava conversar com ele na festa PLOC. Precisava conhecê-lo neste dia para ver se eu ainda estava interessante, se estava acertando nas escolhas já feitas nessa minha vida inclusive na escolha da tinta. Havia, portanto, muitas coisas que eu queria dizer a ele nessa festa que iríamos nos conhecer ou nos rever, vá lá, mas ele nem sequer me chamou para conversar! E tinha que ser ao som das músicas que me fariam sentir jovem e sem juízo senão eu poderia travar um pouco.

Nelson, preocupado, resolveu evoluir no nosso parlatório e convenceu-me de que daria um jeito de se aproximar de mim, mas jamais me chamando para um lero. Ele perguntaria ao Maza quem era a menina de vestido azul. Ótimo. Maza me conhece e faria a ponte.

Retomei animada de onde havia parado.

- Então, Nelso, daí, se começássemos a conversar e você me perguntasse o que eu faço e eu te dissesse que estudo filosofia, que fico horas discutindo sobre a rebimboca da parafuseta, ou melhor, sobre a metarrebimboca da parafuseta do século XVIII, que dou aula de física, que escrevo bobagens ... você se interessaria ainda mais? – Indaguei tendo em mente o seguinte esquema: se ele responder “não”, eu vou perguntar isso e aquilo e se responder “sim” eu vou fazer aquilo.

- Ah sim, muito mais. Ia te achar super interessante, mega inteligente além de bonita. Você se tornaria irresistível para mim.

Não podia ele ter dito isso? Mas não.

- E eu lá quero saber o que você faz? Você acha que eu perderia meu tempo perguntando sobre o que você faz?- Pronto. Regrediu de novo. Nelson respondia com perguntas me olhando como se eu fosse a metarrebimboca.

E ao me olhar entendeu tudo. Considero-me uma pessoa muito feliz, mas todas as vezes que o confronto entre o protótipo e o espelho se faz eu perco um pouco o equilíbrio e posso vir ao chão. Nelson com sua extraordinária paciência e simplicidade fez-me perceber que diante da possibilidade de ouvir as músicas de um passado remoto eu tive um surto psicótico não porque o resultado da equação escrita quando as rugas não eram residentes no meu rosto foi diferente do esperado (o que de fato foi), mas sim pela  percepção da impossibilidade que todos nós temos de acesso aos cálculos. Portanto, não faz sentido sermos medidos pelo que fazemos hoje e sim pelo que sentimos desde sempre. Assim, são as incertezas descomunais, as certezas colossais e os tinos inexistentes que apenas mudaram de tema, mas que nunca deixaram de existir que poderão indicar o quão interessante nos tornamos dando alguma pista de quem somos nós. E isso não tem nada a ver com trabalho e muito menos com a cor dos meus cabelos.  

- Mas você leria meu blog? – Perguntei ainda desnorteada com aquele tombo.

- Claro que sim e iria comentar todos os textos!- Respondeu, enfim, reerguendo-me.

Apertei finalmente o play e nos abraçamos ao som do Cazuza.


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“Para que serve um livro que não tenha figuras ou conversas?”
Pronto! Virei sogra!



sábado, 16 de abril de 2011

Dois anos!

Vocês não vão acreditar! Eu nem estava ligada que meu Blog completa dois aninhos de vida nesta semana. Aliás, acho isso a maior bobeira,  troço mais sem sentido comemorar aniversário de Blog, mas... tenho que confessar: fiquei super emocionada com a surpresa que meus amigos fizeram para mim hoje assim que abri a geladeira e depois no meu escritório. Adoro festas surpresas!!!

Amei, amigos, valeu!!!










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Não posso deixar de agradecer a minha filhota Nara pelos adereços de meus amigos animados. Eles e eu adoramos! 

quinta-feira, 24 de março de 2011

Confissões de uma Ignorante



Estou um pouco cansada. Por onde ando sinto-me humilhada pela cultura de amigos, de inimigos, de alunos, de conhecidos e até de gente que acabei de ser apresentada. Não falo somente da cultura apreendida nas universidades e em escolas, mas também da cultura assimilada nos botequins, nas academias, nos shoppings e na Bahia. Quem está ao meu lado sempre leu mais livros do que eu, é filiado a algum partido político, cita com precisão frases de filósofos, estudou mais do que eu, sabe mais física do que eu, pratica mais esportes do que eu, foi a mais congressos do que eu, vai mais a médicos do que eu, sabe mais línguas do que eu, falam melhor do que eu, conhecem mais teatro e música do que eu e sempre bebem mais do que eu. 

Basta eu colocar os pés na rua para certificar-me da minha pequenez. Você já leu Kenzaburo? Não? Como não? Você é filha de japonês e não conhece Kenzaburo? Chego a casa correndo, com pressa em ver-me livre de tanta ignorância, entro no site do submarino, compro o livro de Kenzaburo, leio Kenzaburo e vou para a rua de cabeça erguida. A alegria acaba ao me deparar com a primeira pessoa que estabeleço um diálogo. Já usou os cremes da Victoria Secrets? Victoria Secrets? Hã?!? O que é isso, só conheço nívea, johnson e os ácidos retinoicos que a dermatologista prescreve. Você é de marte? Como uma mulher pode não saber o que são os cremes da Victoria Secrets? Lá vou eu correndo, compro os cremes, na verdade, ganho os cremes, passo os cremes, volto às ruas me sentindo uma mulher mais completa e o que ouço? Além de tooodos me perguntando se estou usando Victoria Secrets (como todos conheciam o cheiro menos eu?) ainda apontam um prédio, assim do nada com a maior naturalidade, e falam que aquele desenho lembra Fernand Léger. Quem é esse? Não sabe? Como não sabe quem é Fernand Léger? O grande artista francês especialista em cubismo! Nem vou perguntar o que é cubismo, tenho lá minha ideias sobre uns quadros sem pé nem cabeça, ou com um pé e uma cabeça no meio do quadro, mas é melhor ficar calada. Deve ser isso. Deixa quieto. Quando o assunto é cinema sempre acho que vou arrasar, mas não tarda em chegar um daqueles que ficam classificando filmes pela direção e de diretor eu só conheço o Scorsese e o Spielberg. Também sei quem foi Copola e só! O cara me pergunta se eu já vi filmes do Kubrick. Quem? Stanley Kubrick, não conhece? Jesuis. Não.

De esportes ignoro absolutamente tudo. Por mais que meus pais me expliquem não sei contar os pontos de vôlei e não vejo sentido naquelas pontuações do tênis. Por que não um a zero, dois a três? Que diabos é isso de acertar uma bolinha e ganhar 15 pontos? Depois 30 e depois 40!!!! Não. Desisto. Nas raras vezes em que assisto uma partida de futebol me assusto cada hora que um menino cai. Todos gritam: não foi nada! Não foi nada! E aí vem o slow motion. Nem em câmera lenta eu consigo perceber que o jogador de verde caiu de propósito. Velejar? Eu sei toda a parte teórica porque tem a ver com soma de vetores e coisa e tal e disso eu entendo um pouco, mas me distraio contemplando as velas e esqueço sempre o que é uma bolina. O que é uma bolina? Essa é uma pergunta metafísica que ao ser feita resulta sempre em deslocar o centro de massa do barco e cair no mar. Resultado: sempre vou na direção que o vento sopra e tenho medo de navegar sem companhia.

Estive em Buenos Aires, no Caribe e na Suíça, mas não sabia ao certo onde estava. Nunca soube quem estava fazendo fronteiras comigo e ficava boquiaberta quando via alguém correndo animado para tirar fotos com a estátua de Rousseau ou algum monumento histórico que eu até então desconhecia a existência. Que legal! Uma igreja ortodoxa russa! Meodeos. Como sabem tanto? De história nem sei quais foram os quatro gigantes da Reforma e nem adianta me falar que esquecerei em menos de dois dias!

De bebida eu nada entendo. Não sei o nome de vinhos mais triviais e nem vamos falar da diferença de paladar entre um que custa os olhos da cara e um baratérrimo. Meu organismo carece de uma enzima que metaboliza o álcool e, portanto, não bebo. Quando insisto, desmaio. Pronto. Justificado. Mas comer eu como e como bem e de tudo, embora isso não seja coisa para se vangloriar e muito menos cultura que é o tema em pauta. Para dizer a verdade até passei vergonha ao tentar esnobar um pouco. Estive em Salvador e voltei batendo no peito dizendo que comi um sarapatel delicioso. Crente que estava fazendo bonito quando percebi que todos que me ouviam faziam cara de nojo. Sabe do que é feito o sarapatel, Elika? Alguém sabe? Como todos vocês sabem disso e eu não?

Além de tudo, sou uma leitora completamente devassa. Não posso ler nenhum filósofo e nenhum político. Sou facilmente convencida. Seduzem-me sem a menor resistência. Tenho orgasmos múltiplos sem perceber que estou sendo estuprada. Mas o meu amor não é inabalável. Ao abrir outro livro, lá vou eu de novo sem ao menos me sentir confusa para os braços de um outro bambambã qualquer.

Ando preenchida de indagações, angústias e incertezas, mas não sou infeliz por conta disso. Não transformo essa minha “ignorância” em depressão, mas em força, curiosidade e criatividade. Sobrevivo porque sou como os historiadores. Só explico depois do acontecido e escolho as causas para todos esses efeitos desastrosos. O problema é que, às vezes, eu fraquejo e fico assim. Como hoje. Cansada por ser tão inofensiva.





sexta-feira, 11 de março de 2011

OX no Pastel Oleoso.


Eu estava querendo desenhar o Ox, esse boxer de espírito elevado, há muito tempo.

Ganhei de presente da minha amiga Deise uma caixa de pastel. Eu nunca havia brincado com esse tipo de coisa, mas aceitei de bom grado o presente e o desafio.  Quando fui me preparar para começar a rabiscar me certifiquei que não havia pastel naquela caixa com a cor do Ox. Fui correndo até a Casa Cruz e perguntei para moça. Tem pastel? E ela disse tem, ali.  Ao chegar ali, deparei-me com uma prateleira gigantesca de pastel e meus olhos pararam numa caixa enoooooorrrrme, linda, com todas as cores das mais variadas matizes. Pastel oleoso, dizia a caixa. É pastel, pensei. Foi isso que vim comprar. Paguei uma fortuna e vim-me embora feliz e ansiosa.

Chegando a casa porque quem chega, chega a algum lugar, consultei o gúgol para aprender algumas técnicas de como me divertir com aquilo. Descobri que havia pago uma fortuna numa caixa de giz de cera! Pastel oleoso = giz de cera!!! Assim como: porto de Lúcifer = inferno, passou os cinco dedos = roubou e virou estrelinha = bateu as botas.  Caramba,  como sou desprovida de inteligência (=burrona)!

Bom, já que comprei... e, assim ficou o Ox no giz de cera pastel oleoso.

Para ampliar clique em cima do desenho

Minha mãe e meu pai acharam bonito e eu me diverti a vera.

Beijos e até a próxima!
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Para ver mais dos meus rabiscos:




sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Quando a Imaginação é Mais Importante que o Conhecimento


Quando se convive com uma pessoa durante muito tempo conseguimos às vezes saber exatamente o que se passa na cabeça do indivíduo que tanto nos acompanha; outras vezes não fazemos nem ideia e, como estamos falando de dois seres, essas situações podem acontecer simultaneamente. Foi exatamente isso o que ocorreu entre mim e meu excelentíssimo marido há um mês atrás.

Estávamos na casa de minha sogra em Mangaratiba nos preparando para dormir. Eu não gosto muito de passar a noite lá porque a casa fica perto de muito mato, colada  numa reserva da mata atlântica e onde tem mato tem muitos bichos esquisitos com asas que ao entardecer cismam em nos visitar.  Mas no dia seguinte partiríamos para Ilha Grande com as crianças e a barca sai dali pertinho. Eu estava no quarto com Yuki e Nara que já estavam ressonando. Cômodo fresquinho. Ar condicionado no máximo. Eu estava calma. Serena. Deitada. Com o livro de Zélia Gattai nas mãos. De repente, Nelson coloca só a cabeça para dentro e com os olhos esbugalhados fala:

- Não abre esta porta por nada nesse mundo! – E a fechou em seguida me deixando só de novo com as crianças naquele compartimento gelado.

Levantei-me jogando a Zélia pro alto e abri a porta sem demora. Mantive as pernas bambas dentro do quarto e usei somente o rosto para me certificar do que estava acontecendo lá fora.

- Eu não falei para você não abrir? - Rugiu Nelson ainda com os olhos saltando das órbitas ao me ver com a cara assustada no corredor. Empurrou meu rosto para dentro e fechou inutilmente a porta mais uma vez.

Coloquei a boca numa abertura segura de três centímetros.

- O que está havendo? – E imediatamente posicionei minha pupila na brecha agora de meio centímetro. Nelson se aproximava nervoso.

- Me obedece, mulher! Fecha essa porta! – Bramiu rabioso com a minha indisciplina fantasiando uma esposa menos curiosa e mais obediente.

 Pela fresta eu vi, com a metade de um olho, Nelson com uma vassoura na mão.

- É bicho? – Perguntei com a voz embargada.

Nelson devia estar querendo me proteger e com receio de que eu desmaiasse, acordasse os vizinhos ou tivesse um piripaque devido a minha insectofobia crônica agia daquela forma bronca. Se ele respondesse sim, é bicho, eu teria fechado a porta e trancado com chave. Na hora! Mas não...surtou.

- É tudo! É tudo!!! Fecha a porta! – E mirou com um misto de ódio e pânico um ponto fixo na sala.

Do meu referencial não era possível ver o que ele estava focando sem piscar. Os nossos campos visuais sofriam a intersecção de uma quina de corredor. Também não era louca de sair dali. Já estava toda arrepiada só de pensar... mas, o que é tudo? Como assim tudo??? Essa resposta foi muito esquisita.

- É réptil? – Indaguei visualizando mentalmente uma perereca.

- É tudo! É tudo!!! Entra, mulher!!!! – Replicou sabendo que eu tenho o maior nervoso de anfíbios. Ele realmente estava muito preocupado em preservar a minha paz já inexistente com aquela resposta insana.

- É inseto? É um besourão??? – Interpelei ao me certificar com meu olho esquerdo grudado numa brechinha de nada  que ele estava com a vassoura numa mão e agora com um baigon preto na outra.

Mas por deus! Será que esse homem acredita que se ele não descrever claramente o que está vendo eu vou me acalmar?

- Fecha a pooooooorrrtaaaa! – Bramiu incisivo enquanto sumia por completo do meu campo visual.

Eu obedeci apavorada imaginando meu marido lutando com um bicho muito estranho. Ouvi um barulho seco. Era o som que a vassoura faz quando encontra o chão com muita velocidade e fúria. Mais barulhos de móveis caindo. Dei mais alguns segundos. A minha mão na maçaneta estava só esperando o sinal verde vindo de fora, porém, antes que ele fosse dado eu abri a porta e saí mais branca que ovo  bem cozido.

Nelson estava no banheiro dando descarga com cara de nojo. O bicho estava indo embora e eu fui correndo olhar a aberração. Quando mirei o fundo do vaso o nível da água já havia começado a subir.

- O que era, afinal? Um insetão? Um réptil? Mamífero?- Eu também tenho um pouco de medo de ratos. Nelson sabe disso. -Você está bem? – Preocupei-me ao ver a testa brilhosa de meu herói.

- Era tudo! Tudo!!! – disse balançando a cabeça como se dissesse não. – Vamos dormir. – Delirou.

Fui para o quarto. Esperei ele arrumar a bagunça na sala, tomar mais um banho e se deitar ao meu lado. Sabia que seria complicado obter um esclarecimento dos fatos. Nelson tem essa mania de achar que é melhor eu não saber das coisas para eu não sofrer. Ele acredita realmente que eu padecerei menos na escuridão.

Não poderia mostrar muita ansiedade. Em outras situações isso só piorou.

- Meu amor, se você não me falar o que é, eu vou imaginar o pior! – Disse com a voz mansa fazendo cafuné na cabeça rala de meu protetor que acabara de se deitar ao meu lado.

- Era o pior!!! O pior!!! - Replicou imperioso e sem se deixar seduzir pelos meus gestos.

- Caramba, homem! – Impacientei-me. - O que é um bicho que é tudo? Réptil, inseto e mamífero? – E continuei achando que havia falado todas as classes dos animais. - Caraca, Nelsu! Larga de ser chato! Se coloca no meu lugar! Eu não vou deixar você dormir enquanto eu ficar imaginando você lá fora lutando com um orangotango!

Perdi além da paciência o vocabulário e devo ter perdido também todas as aulas de ciências na vida. Nervosa eu sou assim. Raciocino menos do que quando estou fazendo jump. O ponto digno de nota é que muitas vezes meu marido sabe exatamente o que estou pensando e por conta disso, duas coisas acontecem: ele nem se dá mais conta das minhas gafes e fica fazendo esse tipo de coisa achando que é o melhor para mim. Afe.

Mas dessa vez, eu e meu tom de voz o convencemos a esclarecer o que de fato ocorrera ali fora.

- Tá bom. Tá bom, mas depois não reclama! – E sentou-se na cama olhando-me assustado. - Era uma barata desse tamanho! – Exclamou usando as duas mãos para que eu visualizasse o tamanho da criatura. – Satisfeita?

Não. Padeci à luz da verdade.  Não dormi visualizando aquele inseto caseiro ortóptero com as dimensões de um cachorro. Antes ele tivesse me contado como foi a briga com o ornitorrinco. Parece que nem me conhece...