terça-feira, 3 de julho de 2012

Feijoada com ou sem Cristo?



Passo sempre indiferente por essa Igreja na final da 24 de Maio, mas outro dia um cartaz em sua fachada me fez meditar. “Tradicional feijoada do Encontro de Casais com Cristo”. Inicialmente a reflexão foi voltada para a ambiguidade da frase. O evento poderia ser para prestigiar duas coisas diferentes: Uma, que Cristo se encontraria com os casais e a feijoada seria apenas um detalhe. A outra, que Cristo estaria presente já antes na feijoada (assim como durante, é claro), que os casais viriam ao Seu encontro e poderiam ainda, com moderação, sorver o alimento rico em ferro. Esses são pormenores da nossa língua portuguesa que nos tornam imprecisos mesmo com Cristo... Confesso que a primeira opção não me faria parar tudo que ando fazendo para estar aqui divagando com meus fiéis seis leitores. Já a segunda (e que conforme me disse uma integrante da paróquia é o que acontece todo ano) me fez ponderar.  Eu que nada bebo mas de tudo como, parei para questionar se não estaria perdendo uma feijoada divina por não ter nenhuma religião e, Deus que me perdoe, pensei até em uma conversão só para participar dessa farra.

Farra? Foi aí que comecei a pensar na possibilidade de permitir que a 'feijoada com Cristo' entre no meu estômago ao preço de deixá-Lo, antes, entrar na minha mente (ou vá lá, no meu coração). Colocando tudo na balança ruminei: O que seria afinal uma feijoada com Cristo? O que seria uma feijoada sem Cristo? Aquela que eu sempre como afinal...Ele está ou não presente? Não me lembro Dele ter sido convidado, mas também nunca vi ninguém impedindo a Sua entrada...

Quando pensamos nessa iguaria feita de feijão preto cozido com miúdos de porco, partes íntimas e gordurosas e quaisquer outras coisas nojentas, desde que contenham gordura suficiente e muita pele de qualquer quadrúpede, além de ingredientes trazidos pelo vento que a cozinheira diz ser folha de louro, não imaginamos gente triste ou com algum sentimento de culpa quer cozinhando quer  fazendo parte da degustação que pode levar horas. Não há espaço para o silêncio quando estamos diante desse manjar dos deuses e a falta de ruído jamais pode ser preenchida pela música clássica. Seria um sacrilégio. Não há quietude, sossego, calma e som de harpas.... Há de entrar pelos ouvidos uns ziriguinduns, telecotecos, balacobacos, borogodós e buruguduns para que a feijoada não fique sem sal. E nesse paticundum, pracatás, sabadás e badaiás, bailarinas vestidas de branco ou  de rosa clarinho com uma saia que parece feita de nuvem não tem vez! Ao nosso lado, compondo o prato, deve ter uma nega com salto alto, vestidinho estampado e bem curto sambando com o diabo no corpo. Risadas estridentes estimuladas pelas cervejas estupidamente geladas e ucas, açúcar, cumbucas de gelo e limão são imprescindíveis para engrossar o caldo (Saravá Chico!).  E nada de vinho pelo amor de deus!  

É. Definitivamente Cristo não pode fazer parte desse tipo de coisa e pensando bem, Ele nunca esteve presente em nenhuma feijoada em que fui.

O ponto é que não vejo como isso pode ficar mais divertido e gostoso se modificarmos algum ingrediente ou se acrescentarmos algo, ainda que esse um-tanto-a-mais seja supremo. Cristo nesse ambiente poderia ou ficar deslocado ou inibir nossas gargalhadas com dentes sujos à mostra ou pior! acabar se divertindo nesse meio. Deus me livre.

Isso posto, não irei a "Tradicional Feijoada do Encontro de Casais com Cristo" e agora, depois dessa meditação, não estou mais angustiada com uma certa sensação de perda. Estou bem mais tranquila. Stanislaw Ponte Preta, o Sérgio Porto, disse que uma feijoada só é realmente completa quando tem uma ambulância de plantão. Só quem já saboreou devidamente o pitéu percebe que a genialidade de Ponte Preta nessa proposição foi ter captado e expresso em poucas palavras a essência desse maravilhoso e fenomenal sustento. Percebo, então, sem me sentir uma perversa profana, que Jesus deve mesmo é ficar do lado de fora. Literalmente. Fazendo o que faz de melhor! Absolvendo-nos e guiando nossos passos até chegarmos ao nosso abençoado lar.




quarta-feira, 13 de junho de 2012

Não Curti


Entrei no elevador hoje no segundo andar do CEFET. Estava com preguiça de ir pela escada até o quinto. Dou de cara com um casalzinho emburrado. Em pleno 13 de junho que vem logo depois do dia 12 de junho, o dia em que mel em cima de cocada fica menos enjoativo do que as mensagens de amor no feicebuque.

- Rafa... – Ela disse logo que a porta se fechou.

- SSSHHHHH...- Fez o Rafa de cara feia olhando fixamente para baixo, exatamente para a minha pessoa, fazendo o sinal universal de cala a boca para a garota.

- Rafa, - insistiu a menininha fofa com cara de pobrezinha e com voz de meiguinha – eu só curti, Rafa...

- Só, Maria Eduarda, só curtiu? Só? Desde quando, Maria Eduarda, curtir seis vezes é ‘só’ curtir?!? – Caraca, Maria Eduarda havia pisado na bola legal. Todo mundo sabe que curtir uma vez é ser simpático, duas é ser colega, três, amizade, quatro, interesse, cinco, vem cá que eu tô facinha, seis?!?  Fala sério! Que decepção, Maria Eduarda! Que decepção!!!

- Mas você quer o que, Rafa? – perguntou a safada e sem-vergonha na maior cara de pau! Eu olhei rápido para o Rafa querendo só ver que tipo de homem ele era.

- O que eu quero, Maria Eduarda? O que eu quero? – Afe. Esse Rafa é do tipo que começa respondendo perguntando tudo duas vezes...- O que eu quero? Você ainda me pergunta? – Recriminei-o com um olhar severo. O meu andar estava chegando...Caraca, ômi, fala logo que quer que ela te respeite!, desembucha essa raiva direito ao invés de ficar perguntando igual um coió. Explica que ela fazendo esse tipo de coisa acaba com a sua masculinidância enquanto homem no feicebuque! Gasta esse latim, Rafa!

- Você quer que eu deixe de ter as minhas opiniões? Quer que eu me anule no feicebuque? – Maria Eduarda estufou o peito e falou balançando o queixo igualzinho um sino e com a mão na cintura. Como essas pessoas conseguem fazer isso com a cabeça? Sempre tentei e nunca consegui. Enquanto eu olhava a vaca da Maria Eduarda oscilando aquela fuça a porta do elevador se abriu.

Hesitei. Se eu saísse não poderia mais dar aquele apoio moral pro Rafa. 

Pensa rápido, Elika, pensa rápido!

- Vocês vão descer aqui? – Perguntei com firmeza, pensando em segui-los só até o Rafa dar um fora na Maria Eduarda.

- Não. – Respondeu a hexa-curtidora descarada.

- Não? Não??? Como não? – Pronto. Peguei a doença do menino. – Esse não é o último andar?

- É, mas estávamos descendo, daí a senhora entrou e apertou o quinto. Esses elevadores do CEFET são meio malucos. – Respondeu o coiócudo do Rafael que além de tudo não deixou a porta se fechar segurando-a para eu sair em segurança. Fofurésimo. – A senhora não vai descer aqui?

- Eh, bem, eu ia, mas acabo de me lembrar que tenho que ir ao banco. – Se tem uma coisa que eu admiro em minha pessoa é meu raciocínio com a velocidade da luz.

E a porta se fecha.

Silêncio.

Mais silêncio.

Como é que é, meu povo! Bóra discutir essa relação que meu tempo é curto!

E o elevador despencando em queda livre!

Que situação! Que situação em que fui me meter! Que estresse!Que estresse!

Comecei a rodar o meu anel do mindinho e a olhar sério pro Rafa com a minha testa tensa, linguagem universal dos que acham que Maria Eduarda pisou na bola e que ele tem toda razão de ficar chateado e deve exigir mais respeito da parte dela.

- Ok, Maria Eduarda, desculpa. É que eu sou meio inseguro mesmo...

A porta se abriu, meu queixo caiu e os dois saíram abraçadinhos. Isso que dá a gente se envolver emocionalmente com o problema dos outros. O acesso ao elevador começou se estreitar cada vez mais, meu nariz quase ficou preso... congelei sem entender nada... fiquei com a maior cara de bananada diet a um centímetro daquela fenda emborrachada.

 Como essa garotada de hoje é imatura. Vou te contar, viu...


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Se você se divertiu lendo esse texto, talvez goste desses também:

Dividindo pra poder Sobrar
Cromo somos xx!!!





quinta-feira, 31 de maio de 2012

Email para um 'Prezado Senhor'



Prezado Senhor,


Quem escreve aqui é a moça que bateu na traseira do seu carro na noite do dia 28 de maio quando voltava de um encontro no Museu da República onde foi lançado um livro escrito por uns tantos amigos. A noite seguia tranquila e com uma beleza leve tal qual um vôo de gaivota. Liguei o rádio assim que entrei no carro e como se tudo já não tivesse sido suficiente, ouvi Ney Matogrosso cantando que lá no fundo azul, na noite da floresta, a lua iluminou a dança, a roda, a festa. Ao me aproximar da Praça Tiradentes e ver o Teatro Carlos Gomes todo iluminado, distraí-me mais do que devia ainda na avenida Passos onde estava o seu carro parado em um sinal. Como poderia tê-lo visto se estava olhando para cima? O choque foi inevitável.

A lei é clara, prezado senhor, não há desculpas para aqueles que batem na parte de trás de carros parados em um sinal vermelho. Devo dizer que estou desolada com esse acontecimento, envergonhada até! e dou-lhe inteira razão de ter se irritado e brigado muito comigo na frente de tanta gente ainda que eu tivesse pedido de várias formas o seu perdão. Quem trabalha o dia inteiro, ganha o salário honestamente e sua tanto a camisa em horário comercial, tem todo o direito de ter uma volta para a casa sem maiores percalços. Eu sei bem disso, prezado senhor.

Trocamos imediatamente nossos números de telefone. Você fez questão de verificar os meus documentos e de anotar o número de minha habilitação, CPF, identidade, a placa do meu carro e ligar na mesma hora para o meu celular e ouvi-lo tocar na sua frente - certamente fazendo um mau julgamento a meu respeito. Não o condeno por isso, prezado senhor. Entendo perfeitamente o seu medo. Tanta gente ruim nesse mundo...

No dia seguinte, 29 de maio, ao final da tarde recebo o seu email com o orçamento do conserto de seu carro. 820 reais e mais umas despesas com táxi enquanto o seu carro estiver na oficina. Tudo bem, prezado senhor, todo esse despêndio será depositado na conta nº 3598X-9R da agência 086-R. O meu palio weekend adventure cuja placa é LBK 59X4 não colidirá mais dessa forma estúpida nem com um  ford ecosport xls 1,6 flex 2007 de placa LCJ 3XX8 nem com nenhum outro carro, pois, eu, portadora da identidade 09596XX-2, CPF 045527-X6 prometo olhar mais para frente, pelo menos enquanto estiver dirigindo. Eu, prezado senhor, que não passo de números para você reconheço que a vida poderia passar sem essas subtrações orçamentárias se as pessoas se limitassem a ficar dentro dos limites dos algarismos que a definem e que olhassem sempre e somente para a frente. Peço-lhe mais uma vez desculpas e prometo não lhe causar mais problemas. Conte com a minha palavra e com a minha carteira.

Mas... que me seja ao menos permitido sonhar com um outro rumo para essa nossa história... em que eu batesse na traseira de seu carro parado no sinal e tivesse a oportunidade de te dizer: amigo, meu nome é Elika, muito prazer em te conhecer! Desculpe-me, mas é que hoje estou extremamente feliz e distraída. Linda a iluminação desse teatro, não? Já viu esse espetáculo? E você dissesse: não. Mas poderia trazer a minha esposa e vermos juntos nesse final de semana. E eu pegasse o seu endereço para buscá-los, pois o seu carro estaria na oficina. E que fôssemos juntos ao teatro! Afinal... paramos ambos por causa dele e a vida é curta como a temporada de uma peça. E que ficássemos amigos e que você usasse o meu número de telefone para saber como se chega à minha casa para participar de umas daquelas saudáveis tardes de cantoria. E que brindássemos por eu não ter te machucado de forma alguma, bebêssemos sentindo a brisa no meu terraço e, enfim, celebrássemos a amizade entre os seres humanos, o amor e a paz entre nós.



sábado, 26 de maio de 2012

A História do Meu Novo Amor



Apaixonei-me assim que o vi. Foi mais forte que eu. Tenho que confessar. Nelson, meu marido, não estava por perto. Sorte do meu novo amor que teve meu olhar todo para ele logo na primeira vez que o vi. Desde então, tento me controlar, ocultar, não dar tanta bandeira, mas não consigo mais guardar isso só para mim. Tive uma longa conversa com o Nelson e ele me disse que já estava sentindo que eu não era só dele há tempos. Então, não faz mais sentido esconder de ninguém. Por isso hoje resolvi revelar para todos a história do meu novo amor.

Meu novo amor...Sempre me surpreende com uma flor escolhida meticulosamente, o gesto universal dos apaixonados. Outro dia, ao ver uma folha bonita, agora vejam, arrancou-a de uma planta que desconhece o nome, ofereceu-me com todo carinho e um beijo molhado (Como resistir?). Fica horas ao meu lado lendo. Emociona-se quando conto minhas histórias. Temos jantado juntos em alguns dias da semana. Dengoso, gosta que eu dê a comida na sua boca. Completamente infantil, muitos diriam, mas é capaz de me dar um carinho que Nelson jamais me ofereceu. Tem um ciúme que além de não me incomodar me fortalece como mulher. Possessivo como ele só. Se andamos na rua juntos ele (com uma certa prudência) pega com força na minha mão toda hora com medo de que me levem dele.

Coincidentemente, também curte um samba. Quando Nelson saía, não sei se é falta de respeito e sinceramente, cansei de me preocupar com isso, mas eu e meu novo amor ouvimos alguns CDs da coleção de meu marido em que rola um  ziriguidum. E como nos divertimos, meu deus. Quando nos conhecemos, Nelson trabalhava embarcado e nos quinze dias em que ele ficava na plataforma, que se dane o que vão pensar de mim, mas eu pensava se deveria chamar o meu novo amor para dormir ao meu lado. Quando eu não resistia, ele vinha sorrindo sempre e dormíamos abraçados a noite toda.  As amigas diziam que eu estava cometendo um erro pelo qual me arrependeria pelo resto da vida, que isso poderia causar danos irreversíveis ao meu casamento, como realmente aconteceu, mas eu simplesmente não conseguia fazer diferente e de nada me arrependo. Pois...

Meu novo amor... ah, meu novo amor perde com magnificência e um certo charme todos os meus marcadores de texto. Bagunça a minha vida. Totalmente irresponsável, me liga no meio de uma reunião para falar bobagens. Jamais pegou elevador sozinho. Toma banho comigo sempre quando Nelson não está em casa, anda pelado pelo quarto quando estamos sós para se exibir para mim e ainda me pede para eu cortar as suas unhas. Completamente sem noção e eu não consigo não achá-lo divertido.

Parece que gosta que eu cuide do corpo dele e de seu asseio. Mas também fica horas lavando as minhas costas, já lambeu muito meu joelho e sempre foi louco pelos meus seios. Agora anda com mania de olhar para meu corpo nu e fazer perguntas que me deixam um pouco constrangida. Pergunta-me porque uso maquiagem e diz que eu fico linda de qualquer jeito. Desmancha meu cabelo. Beija as minhas pernas e faz barulho com a boca no meu umbigo.  E eu rio como as que já não respondem mais por si.

Não sabe dirigir e adora andar de trem. Como todos os homens, gosta de futebol e de videogame. Um menino praticamente. Aliás, tenho que confessar...ele é bem mais novo que eu. Já tive vergonha por isso, mas superei. Faz bem para minha auto-estima.

Vaidoso. Não tem pelos pelo corpo. Não usa desodorantes. Não bebe. Corre todo dia. Tem uma alimentação toda balanceada. Olhos castanhos, cabelo pretinho e a pele bem clara. Lindo.

E, um detalhe mais íntimo, quando tem dor de barriga exige a minha presença ao lado dele. Eu o abraço, faço carinho na barriguinha lisinha, linda, canto uma musiquinha e tudo acontece. Ele pede sempre para eu limpá-lo de uma forma que eu não consigo dizer não. Problema universal dos que amam.

Tem um nome cujo significado para mim é bem apropriado: felicidade.

Nos conhecemos há cinco anos e o meu amor por ele só aumenta.

Yuki, meu filho, meu tudo.

J





sexta-feira, 27 de abril de 2012

Os Porões de Vovó



A minha avó reclamava de que noutros tempos, quando as moradias tinham jardins e não umas jardineiras, um quintal e não uma área interna...que havia um porão nas casas, túmulo dos objetos que não mais nos serviam. Os museus particulares de cada família. Hoje - dizia minha avó queixosa há trinta anos atrás - no máximo temos um baú e toda a nossa história tem que caber nele! O espaço e o tempo dedicados para as recordações tem diminuído com o incansável rotacionar do nosso planeta, constatava vovó receosa com o meu futuro.

Vai que o medo de dona Anna tenha sentido... Pensando bem, há poucos anos atrás, por exemplo, quando não havia os celulares, tínhamos sempre uma agenda telefônica onde guardávamos, é claro, os números de telefone das casas de nossos amigos, parentes, médicos e quem mais fosse pintando pela nossa vida. Essa agenda assim como nós, com o passar do tempo, acabava rápido, mas no caso do bloquinho cheio de nomes e de números o problema se resolvia facilmente: era só comprar um novo.  Aqueles menos apegados à organização, enquanto não comprassem uma agenda mais moderninha, usavam o espaço das últimas letras para os joões em excesso na vida. Havia, então, o momento não raro e quase que ritualístico de “passar a agenda a limpo”. Enganam-se, porém, aqueles que acreditam que essa era uma simples tarefa que exigia tão pouco raciocínio e que causasse tão pouca emoção como o apertar de um control C seguido de um control V. Não, meu querido e jovem leitor que só troca o chip de celular. Às vezes parávamos com a caneta na mão e olhávamos para o céu ainda que dentro do nosso quarto. Será que devo passar o Beto para a nova agenda? Puxa, doutor Clodoaldo morreu, gostava tanto da secretária dele... Caramba... o Eric...! Como será que ele está? Ele tinha a voz tão bonita... Eram tão comuns essas travas que havia até quem ligasse para um amor devidamente não correspondido usando a desculpa de que estava passando a agenda a limpo e... bem, se lembrou dela por acaso e resolveu dar uma ligadinha. Mas o engraçado, é que voltando o olhar novamente para as duas agendas, a velha e a nova, decidíamos, mesmo diante da certeza de que jamais ligaríamos de novo para o Anderson ou para a Aninha, que ainda assim eles iriam para a nova agenda. Simplesmente pelo fato de que ao olhar para aqueles nomes éramos remetidos a algum passado com açúcar. Um pretérito perfeito!, cuja lembrança valia a pena sentir pelo futuro afora. E, acreditem!, fazíamos isso sem ao menos sentirmos uma mágoa ou sofrermos pelo fato dessa doce recordação não ter tido o potencial de se tornar presente (Ainda que no fundo, bem lá no fundo, somente por sermos perversos, perguntássemos “ E se...?”).

E era assim que por apenas ter nos dado um bom e duradouro instante de ternura, de desejo, de saudade... que um determinado nome possuía uma força própria que nos dava uma pequena e absurda pena de deixá-lo simplesmente ali na velha agenda. 

Os tempos são outros, mas os sentimentos permanecem os mesmos. Há hoje os celulares com chips e o facebook. Resgatamos no meio dessa desarrumação feroz da vida os amigos de infância e da adolescência. Não negamos os ‘pedidos de amizade’ daquela amiga que te ensinou a dar um laço no tênis na escada da cantina. Agora, no entanto, essa imagem dentro de nós co-habita com as fotos dela na Disney, em Londres e na Lapa, com o cabelo de uma cor diferente, e com seus dois filhos calçados com sapatos de velcro. E, diante a necessidade imperiosa da distração que me obriga checar o facebook, certifico, com o mesmo temor de vovó, a força do impacto da suavidade de suas fotos, meu velho amigo, contra a minha memória. Tenho a impressão de que, caso não tenhamos um certo cuidado, ‘reencontrar’ pode se tornar um sinônimo de ‘perder’ e mesmo que ganhemos muito nesse reencontro virtual, o proveito não compense. O problema é que entre acompanhar o seu presente e fazer parte dele há uma pequena diferença. E que entre 'ver e ser visto' e 'lembrar e ser lembrado' essa desconformidade se agiganta e dependendo do tamanho pode ser fatal.

Eu agora, cheia de cronologia,  me pergunto se o futuro que vovó temia era esse. Falo isso porque no passar a limpo das agendas, imaginava eu, de vez em quando, que em algum lugar do mundo havia alguém que naquele determinado momento estivesse também pensando com a caneta em riste se o meu nome merecia ou não ser passado para a nova agenda. Se havia por Deus ao menos uma hesitação...ou quem sabe uma curiosidade: A Elika... por onde andará essa menina? Essa flor de maracujá? Eu não pensava somente nos amores avassaladores da minha adolescência, mas também nas amizades que outrora foram verdadeiras e que jurávamos até que seriam para sempre. Imaginava meu nome sendo escrito e ufa! Que alívio... O que devo fazer hoje para que meu nome merecesse esses segundos de reflexão de todos que me rodeiam? Eu, cheia somente de adolescência, pensava e pensava ... Sim, fazia sentido a minha preocupação!, porque ainda hoje ao abrir uma gaveta onde guardo um tanto assim de papéis e cartas escritos pelos amigos percebi como alguns ainda vivem intensamente dentro de mim. E, assim como cada um de nós morríamos um pouco quando alguém, no tempo e na distância, perdia o ímpeto do pensar em nós e jogava o nosso nome no lixo com a velha agenda (deus me livre...), será que não estamos nos matando por tanta exposição sem reflexão? sobrepondo tanta atualidade à saudade?

Quanta bobagem vovó até hoje me faz pensar.





domingo, 18 de março de 2012

Para Sempre Meninos


Apesar de muitos falarem que consideram um amigo como um irmão, nós, possuidores reais desse título de fraternidade, sabemos que no fundo não é a mesma coisa. Irmão é irmão. Não está ligado ao fato de "ter que ser o nosso melhor amigo". Ainda que tenham personalidades bem diferentes, que não se suportem e que você prefira manter certa distância, dois indivíduos quando educados exatamente pela(s) mesma(s) pessoa(s) estão unidos de uma tal forma que os fazem imprescindíveis na vida e na personalidade do outro. Esse amálgama ainda que seja ódio é o verdadeiro ‘amor fraterno’. Se for mesmo feito de amor e os irmãos tiverem sido criados na mesma ninhada, juntos e solidários ah... aí é capaz de perfumar fotografias!E foi esse perfume que fez cócegas ainda a pouco em meu coração a ponto de me fazer gargalhar e escrever.



Abri um álbum antigo na estante e transferi-me para aquela dimensão que  frequentamos sempre acompanhados mas que não nos permite levar nada do que temos no presente. Fui atingida por uma rajada de saudades ao ver a minha infância em preto e branco e dediquei-me a refletir sobre algo...e mais uma vez cá estou eu no topo da montanha olhando o horizonte pensando sobre como a minha vida sem os meus irmãos seria muito menos interessante.


Os cabelos podem ficar brancos, as rugas podem ter 'feito residências em nossos rostos', mas se temos pelo menos um irmão, haverá sempre um lugar dentro da gente em que seremos eternamente meninos. Ainda que a relação esteja longe de ser igual a uma planície serena e sim, cheia de altos e baixos esse amor jamais se desloca para uma área de risco – para onde vão sempre os outros tipos de amor. Frases inteiras são desnecessárias, pois o entendimento se dá muitas vezes pela troca de um sorriso que sabe lá - sabemos somente nós - que longínquas lembranças aquela troca de olhares desenterrou. E a despeito dessa tal natureza humana que é tão pérfida e traiçoeira, o amor de irmão nem sequer precisa ser verbalizado e ainda assim permanece evidente. Eles sabem sem sombras, faíscas e nódoas de dúvidas, e ninguém precisa ficar reafirmando nem em emails, nem em redes sociais públicas, nem em telefonemas, nem em blogs!, pois somente as coisas abaláveis precisam dessas evidências.


Certamente, mais pobre, mais amarga, mais só e menos Elika eu seria sem eles, os meus outros takimotos. Como viveria sem todo esse tesouro lapidado pelas horas aromáticas na infância e na adolescência que só nós, os irmãos, os nascidos em tempo hábil da carne de mãe e pai, sabemos onde está enterrado?








segunda-feira, 5 de março de 2012

Ah, eu queria tanto...


Eu queria postar algo tão engraçado no facebook que aquele meu amigo que está sozinho do outro lado naquele seu mundo cinza quando lesse a minha postagem risse, mas risse tanto que chegasse a chorar e  que ele mesmo ficasse admirado ouvindo sua gostosa gargalhada, e depois falasse para si próprio “meodeos, que coisa mais engraçada!”.  E, então, ele esquecesse um pouco da tristeza e fosse contar a minha historinha para a empregada. Ah, que minha história fosse como uma banana-split, irresistivelmente doce, colorida e tão bonita (que tem gente que até fotografa antes de comer) que depois de  prová-la, a vida de meu amigo tão recolhida, encarcerada e enuviada viraria pelo avesso. 

E que um marido que estivesse em casa mal-humorado, aborrecido com a mulher... que ele também fosse atingido pela minha postagem. O marido veria a minha “atualização”, leria e começaria a rir alto. A esposa, em outro cômodo, sorriria pensando que o seu amor finalmente compreendeu que tudo aquilo era uma grande bobagem. E ele a chamasse para mostrar a tela do computador onde tivesse algo de minha autoria. Ela inicialmente decepcionada pensaria em voltar para o quarto, mas ao dar as costas mudaria de ideia ao ouvir o som das risadas de seu marido. E que ficassem os dois rindo mais um pouco, e ao ouvir o riso do outro se lembrassem, então, dos tempos em que se apaixonaram quando riam sempre bem alto e tão juntos, e recuperassem os dois a alegria que o cotidiano cisma em tirar da gente.

Que o tempo que não passa nas salas de espera fosse insuficiente para o paciente mostrar a todos, que também estivessem impacientes, o que eu havia postado. Que uma mãe, aborrecida com seu filho o liberasse do castigo e lhe dissesse “por favor, se comporte! Eu te amo!” depois de ter lido a minha história super engraçada e o filho se comportasse porque queria ver a mãe alegre para sempre. Que no metrô lotado a minha postagem servisse para fazer do desconhecido, que te espreme e te incomoda, um novo amigo, pois ele não conseguiria não rir alto ao ver, pelo seu ombro, o que eu havia colocado no facebook, e sempre que vocês se encontrassem de novo caíssem na gargalhada só de lembrar como a amizade começou. Que as dores crônicas fossem curadas de tanta endorfina liberada ao verem o que eu fiz. Que os pastores, fascinados pela graça de minha obra, respeitassem seu rebanho. Que os patrões tratassem melhor seus empregados, que mais livros fossem abertos, que as farmácias falissem e as favelas fossem pacificadas porque todos que rissem muito lavariam sua consciência com as lágrimas de alegria que a minha postagem proporcionaria.

E que ao ser tão compartilhada, a minha atualização de status fosse traduzida por tradutores on lines diversos para línguas que nem sabemos que existem. Que um árabe qualquer arrancasse a burca de sua esposa só para conferir o seu sorriso quando ele lhe contasse o que alguém no Brasil escreveu. Que o frio da Alemanha e dos alemães fosse minimizado e mais cervejas fossem tomadas em uma alegre homenagem à besteira que eu havia inventado.

E quando me perguntassem por que eu escrevi aquilo eu desconversaria para esconder a triste verdade: que passei horas matutando uma forma de rapidamente reverter o desalento daquele amigo que anda compartilhando músicas lentas demais, fotos estranhas, que não consegue curtir mais nada e não se anima nem mais com as sextas-feiras...