quarta-feira, 17 de outubro de 2012

A Arte e a Ciência




- Mãe, o desenho está bonito? - perguntou o menino de seis aninhos para a mãe que dava aulas de física.
- Está, está lindo, mas está errado. Gotas de chuva são iguais as bolinhas e não assim como o Zé Gotinha com a cabeça afunilada.
- Por que?

Segundos de silêncio para a mãe pensar...

Mais alguns segundos...

O menino olhava para o desenho sem entender que mundo é esse em que as gotinhas de chuva não são como o Zé Gotinha.

(Custava a mãe ter falado para o menino que o desenho estava lindo e ponto final?)

Ok. A mãe pensou em algo.

- Porque as moléculas que formam as gotinhas de chuva dão as mãos de uma forma que  a menor quantidade delas fique com as costas de fora pegando vento. E elas só conseguem fazer isso formando uma bolinha perfeitinha! Qualquer outro formato que elas escolhessem teria mais moléculas pegando vento nas costas e isso não é legal como já cansei de te falar.
- Se não a mãe das moleclas briga?
- Exatamente isso, meu filho.
- E a mãe vai dar sopa pras moleclas depois?
- hm hmmm. Isso.
- E vai mandar as moleclas colocarem camisa?
- É.
- E a mãe vai levar as moleclas pra tomar vacina depois, é?
- É.
- E a mãe das moneclas...
-...meu filho, o desenho está lindo!!!!
- Brigado. Mas eu vou fazer um outro com menos moneclas pegando vento.

Entre a ciência e a arte, vivemos aqui com uma inominável terceira opção.



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Mais de nós dois em:

Limpando a cabeça
Biciquétala
A História do Meu Novo Amor
Viver é desenhar sem borracha



sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O Sagrado e o Profano


A mãe ouviu ao fundo a voz do pai gritando com o menino, coisa rara naquela casa, pois o menino que acabara de completar seis aninhos é muito bonzinho e obediente além de cuidar com carinho de todos os bichinhos da casa que consistiam em sete peixes, dois hamsters e um cachorrinho. Querendo saber o que estava acontecendo, a mãe deixou o resto da louça suja na pia e dirigiu-se para o cômodo da casa onde estavam o pai e o filho, o primeiro falando ainda de forma exaltada e com voz embargada, o segundo de cabeça baixa e aparentemente muito envergonhado.
- Você por um acaso... você...por um acaso... se eu ficasse doente, trocaria de pai? Da onde você tirou essa ideia? Com quem você tem andado, meu filho? Eu não esperava ouvir isso de você por toda a educação que nós temos te dado! Isso não é papel de homem, meu filho! Você quer me matar de desgosto falando uma coisa dessas? Você já viu o seu pai fazendo esse tipo de coisa por aí?
A mãe, sem ainda saber o motivo daquele emocionado discurso e sabendo que o pai jamais levantara a voz para criança daquela forma, como boa cúmplice, virou o rosto tenso para o filho e condenou com o olhar aquele ato indecoroso do menino. Balançava a cabeça negativamente e olhava o pai exclamando indignado. Com a mão direita espalmada por cima do peito esquerdo e com cara de choro, a mãe sentia a dor do pai como se fosse a dela.
- Vá beber uma água, Nelson. Se acalme, meu amor. Deixa que eu converso agora com ele, tá? O Kinho não vai fazer isso de novo, né, Kinho? – Alterou o semblante no mesmo instante em que olhou para o menino. O menino sabia que a mãe era mulher braba e curvou-se ainda mais de tanto medo e vergonha.
Nelson saiu do quarto vociferando sozinho pela casa. Onde erramos com ele? Que horror! Que horror! Isso não existe!!! A mãe mal se aproximara do menino quando ele começou a falar baixinho e chorando:
- Mãe, desculpa, eu disse pro pai que se ele mudasse eu ia com ele, que eu não vou deixar nunca o pai sozinho. Eu só quero ver o pai feliz...descuuuulpa, mãezinha, - soluçava nas vírgulas o menino arrependido – eu falei, mãezinha, que eu ia com ele... eu não quero ver mais o pai sofrer, mãe. Eu pensei que ele ia ficar mais feliz se a gente mudasse, mãe! Me desculpa, mãezinha...
- Ãhn? Mudar pra onde, Jesus? – Perguntou a mãe sem entender patavinas.
- Pro Fluminense, mãe. O Flamengo só perde... me desculpa, mãe, me desculpa...
O menino aprendera uma grande lição. Com o sagrado das pessoas não se mexe e que um homem não torce por um time, mas o consagra e o confunde com a própria consciência que tem de si mesmo.
- Ãhn?

           



segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Despindo Maria Lúcia



Maria Lúcia havia tomado um banho demorado. Após secar-se, hidratou a pele com óleo de semente de uva. Perfumou-se. O dia estava lindo e combinava com o seu vestido longo e estampado. De salto Anabela, levemente maquiada e com uma bolsa grande e estilosa pendurada no ombro direito entrou no seu carro possante cujo estacionamento era em uma das ruas de Copacabana. Virou a chave na ignição, ligou o ar condicionado, colocou o novo CD da Marisa Monte, ajeitou os retrovisores quando foi surpreendida por uma menina suja que batia na janela.

A princípio, Maria Lúcia sem ao menos saber o que a pobre menina queria, balançou o indicador de um lado para o outro, intercalando esse gesto com outro meneio negativo quando apontamos o polegar para baixo. A menina insistiu para que Maria Lúcia abaixasse o vidro e a moça de pele macia e aromatizada permitiu que somente uma frase passasse por dois centímetros de sua atenção.

- Posso ir com você até o centro? – Perguntou Stéphanny que de princesa nem o nome conseguiu ter.

- Queridinha, não estou indo para a cidade tá, meu bem? – Mentiu com serenidade e de forma espontânea Maria Lúcia que apesar de ter pronunciado inverdades o fez com carinho - não perceptível pelo vidro.

Assim, Maria Lúcia saiu da vaga em que estacionara e em menos de dois minutos estava deslizando pelo asfalto negro da Avenida Atlântica. A moça cuja pele estava coberta com estampas de flores partia otimista em direção ao centro da cidade para enfrentar a única possibilidade umbrosa naquele dia desanuviado: a consulta marcada com o seu ginecologista.

No entanto, algo aconteceu. O rosto sujo de Stephanny aparecia no meio dos carros, nos sinais fechados, na negritude do asfalto. Por que você mentiu, Maria Lucia? Era uma dessas vozes que parecem ser do além, mas que na verdade são de um grilo-falante. Ora, por que! Porque eu posso ser assaltada, a menina pode estar armada com um caco de vidro, roubar meu relógio da Mikael Kors! Ora, Maria Lúcia, não seja ridícula! Disse o Grilo-falante. Aquela menina lá tinha jeito de quem queria seu relógio? Por que diabos uma pessoa que pretende assaltar outra pediria carona com tanta humildade? Mas, Maria Lúcia estava relutante. Mandou o Grilo para os confins do inferno, pois não havia do que se culpar. A menina poderia muito bem pegar uma condução. Estava aparentemente bastante saudável para isso.

Como os mais prósperos e afortunados são insensíveis!  Nós todos que já vimos uma cena semelhante sabemos que Stéphanny não pega ônibus porque não tem dinheiro algum! A pobre-menina passará o dia todo pedindo esmolas e muitos nem terão a delicadeza de Maria Lúcia de contar-lhe uma mentira.

E lá seguia Maria Lúcia com o corpo limpo e a alma lavada, toda dona de si dentro daquele vestido adornado com flores não cheirosas. Porém, antes mesmo de entrar no túnel, Maria Lúcia não mais se sentia tão bonita quanto outrora. A roupa lhe parecia muito papagaiada, os sapatos não combinavam com a estampa do tecido, o batom era vermelho demais...O que me custava ter dado uma carona a uma menina? Deixa isso pra lá, Maria Lúcia. O mundo não vai mudar com esse audacioso gesto de caridade! Mas e se essa menina foi a minha “prova” aqui na Terra? Às vezes pensamos que Deus será claro ao nos oferecer a redenção e a salvação, mas vai que estamos enganados? Vai que Ele se disfarça como o Diabo? Vai que Deus queria decidir o meu destino hoje com esse pedido de carona? Aquela tamanha humildade bem estava me parecendo suspeita... De onde viria? Porra, Maria Lúcia, como você é burra! Deus é super dissimulado! Aquele pedido de carona era fingimento! O que Deus queria ao usar aquela máscara era te testar!

Maria Lúcia ficou pálida. O túnel Rebouças lhe pareceu como o caminho para as profundezas do inferno e ela não poderia passar por ele de maneira alguma. Pegou o primeiro retorno.

E agora, Maria Lúcia, vai dizer o que para a menina? Que esqueceu alguma coisa? Que se arrependeu de ter mentido? E se a fedelha não estiver mais lá, Maria Lúcia? O que será de você?

Stéphanny estava ali perto no sinal segurando uma moeda de dez centavos mendigando pelos vidros mais moedas iguais a que firmava entre os dedos. Os motoristas fingiam nada ver. Maria Lúcia chamou a   pequena gritando “Ei, garota! Ei! Vem cá!”.  Stéphanny foi até Maria Lúcia que começou a gaguejar se explicando, dizendo que havia se esquecido para onde ia, que o médico dela possuía dois consultórios, que ela estava ficando surda e que não havia entendido direito o que a menina queria, que patati patatá...Stéphanny não parecia interessada em nada daquilo. Entrou no carro como se já soubesse que a madame voltaria e ficou o caminho inteiro respondendo com um português todo errado às perguntas de Maria Lúcia. A vida de Stéphanny daria um outro conto que deixarei para uma outra oportunidade. O ponto é que Maria Lúcia estava feliz e aliviada em ter ajudado uma coitada desafortunada e carente, a despeito do carro ter ficado com um odor desagradável mesmo depois da guria ter saído.

O médico deu péssimas notícias à Maria Lúcia. Ela teria que começar urgentemente uma quimioterapia e, muito em breve, possivelmente ser submetida a uma mastectomia.

Stéphanny realmente não reconheceu todo o esforço de Maria Lúcia.

Maldita seja.





sábado, 15 de setembro de 2012

Os ovos passeando de trem


Vocês aí que deixam seus ovos tristes dentro da geladeira... saibam que eles se divertem quando saem para passear. De trem então... veja que alegria!






Mas não coma nutella na frente deles!
Não fale alto quando abrir a geladeira!
De vez em quando eles me fazem uma surpresa!
E se eu esqueço um livro aberto...
Adoro quando eles me contam piadas!
Parecem crianças...


Ovos com Espírito de Porco



Como tem ovo ruim nesse mundo. Meodeos...


Gostou? Quer ver mais o que esses ovos aprontam pela minha casa e pelo mundo?





quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Raciocínio Lógico



Estou em São Paulo participando de um Congresso de História da Ciência e da Tecnologia na USP. Ontem foi o único dia que deu para eu passear a tarde e aproveitei para conhecer alguns pontos turísticos. Fui no famoso bairro da Liberdade, na famosa Praça da Sé, no famoso Teatro Municipal e me desesperei no famoso engarrafamento onde percebi que os paulistas acreditam que o ato de buzinar pode fazer o carro da frente se desintegrar. Cheguei ao hotel cheia de dores de cabeça...

Hoje, porém, não deu tempo para nada. Houve atividades o dia inteiro no congresso e, para piorar, a tarde foi a minha apresentação de forma que eu estava mega concentrada com medo de esquecer alguma coisa caso balançasse muito a cabeça. O trabalho era sobre o desenvolvimento da Física no século XVIII, mostrei que o assunto é confuso e que eu não estou entendendo bulhufas da dinâmica da coisa. Na verdade o que eu apresentei foi a minha ignorância sobre o assunto. Ainda assim acho que agradei aos três espectadores. Fui super fofa, coloquei uns memes na apresentação quebrando todos os paradigmas enquanto pesquisadora séria. Me aplaudiram de pé no final. Primeiro porque eu era a última a apresentar e já estava todo mundo de saco cheio e doido para ir embora, depois porque é de praxe bater palmas para qualquer pessoa que fale absolutamente qualquer bobagem em congressos. Mas isso são detalhes que ninguém precisa saber. 

Vamos ao que interessa e que me fez no final do dia vir aqui no meu blog para escrever. Voltando da USP quase chegando no hotel no início da noite passei por uma loja de roupas de mergulho. Como o dia foi tenso pensei: por que não? Não tenho roupa de mergulho e mergulhar deve ser bom. Vai que um dia eu precise, vai que um dia eu compre uma lancha ou vá a Miguel Pereira? Perdi uma oportunidade uma vez de curtir uma piscina lá só porque deteeeeesto água gelada. Eu via os amigos nadando, pulando na água sem medo, se divertindo a vera e a brinca* e morria de inveja. Taí. Ouvi dizer que essas roupas não deixam a gente sentir frio. Menos um problema na minha vida! Está tudo dando certo hoje!

Entrei na loja.

Veio o moço:
- O que a senhora deseja? - Perguntou o vendedor nada original.
- Eu desejo não sentir frio quando mergulhar. - Respondi claramente.
-A gente tem roupa de cinco milímetros. - Ele disse me olhando toda de cima a baixo.
- Muito engraçadinho, moço. Acho que sou maior do que isso.- Falei super antipática não gostando nem um pouco daquela brincadeira feita por um desconhecido.

Daí ele riu. Eu fiquei super aborrecida com a grosseria. Agradeci e dei-lhe as costas.

- Senhora, espere! Desculpe, deixe eu mostrar o que tenho aqui pra senhora. - Arrependeu-se, certamente, o vendedor.
- Eu quero essa grossa. De manga comprida. - Explanei decidida.
- Ok. Qual o seu tamanho?- Perguntou de novo o engraçadinho.
- Um metro e meio. - Falei séria.
- Eu estou falando se a senhora veste pê, eme ou gê, senhora. - O vendedor burro que não sabe nem perguntar sem ambiguidades, explicou-se.
- Pê. 
- Eu acho que a senhora é eme. - Perdeu completamente a noção o cara.
- Pois sim que sou eme! Pois sim! Me dá a pê da grossa. - Ordenei já doida para sair dali.
- A senhora não vai experimentar?

Qual o quê...A loja tinha pouco movimento e havia somente dois vendedores machos. No mais, eu ando "me achando" pelas ruas e desconfiando que todo homem que se aproxima de mim quer me estuprar. Síndrome de gostosa-ligada-nas-notícias. Avaliei o local e achei que corria altos perigos.

- Muito obrigada. O pê vai servir com certeza. - Mandei na lata a minha excelente forma física.
- Ok. Qual a forma de pagamento? - Finalizou o tarado.
- Quanto é? 

Eu sabia que tinha duas notas de cem reais na carteira e borracha é coisa barata. 

- Shyrtxlcentos reais. - Respondeu jack, o vendedor estripador.

Fala sério! Se fosse de seda vá lá! Mas de borracha? O outro vendedor se levantou e já estava embrulhando aquela goma elástica. Seria o maior mico falar que não queria mais. Estava vindo de um congresso. Com crachá e tudo. Toda de salto alto, meu povo.  O dia havia sido perfeito. O meu ego estava brilhando...Fala sério! Acabei dando o meu cartão de crédito e parcelei em trinta e seis vezes.

Assim que cheguei no hotel resolvi experimentar a nova aquisição que custou os olhos da cara e o orgulho da minha alma. Distendi três músculos tentando colocar a roupa. Tive que deitar na cama para fechar o zíper na frente do macacão. Fechei. Não consegui me levantar. Rolei e cai no chão. Com muito custo fiquei de pé. Fui até o espelho e tchanraaannnn! Adorei o que vi. Estava magéééérrima! Fiquei andando indo e voltando em frente ao espelho super feliz. Vou vestir a noite para o Nelson quando voltar amanhã pro Rio, pensei. Ele vai adorar a nova Elika Bunchen. Mas, a felicidade deu lugar a um giga desconforto. De repente a respiração começou a ficar comprometida e eu resolvi abrir o zíper todo de uma vez com medo de morrer. O barrigão pulou pra fora aliviado e eu comecei a expirar todo oxigênio do quarto ofegante achando que estava já raciocinando mal por falta desse gás comburente no cérebro. 

Quando fui tentar tirar o traje colante entrei em desespero. Não havia movimento ou manobra que eu fizesse com os meus braços capaz de desgrudar dos meus ombros aquele bando de látex. O cabelo estava encharcado de suor. Não sabia mais o que fazer.  Liguei para o meu marido que estava em casa com as crianças.

- Neeelso, socorro! Estou presa!- Eu disse assim que ele atendeu o telefone em casa.
- O que houve? Presa como? - Perguntou Nelson todo preocupado.
- Em mim mesma! Neeeeelson, socorro! - Gritei.

Depois de tudo explicado, veio a solução. O que seria de mim sem Nelsim?

-Liga para a recepção e diga que está precisando da ajuda de uma mulher. - Expressou-se super calmo e me passando altas tranquilidades.

E foi exatamente e imediatamente o que eu fiz.

- Alô? É da recepção? Meu querido, estou com um probleminha aqui e preciso de ajuda urgente. Pode mandar uma mulher pro meu quarto, por favor?

Em menos de três minutos chega a camareira. Puxei a moça pelo braço para ela entrar rápido. Mostrei o meu estado. Barrigão branco pra fora, suada, com aquela borracha  fundida ao meu corpinho-bagulho.

- Por que a senhora vestiu isso aqui? - Começou a moça fantasiada de avental e touquinha a querer saber demais da conta. 

- Me ajuda, moça, peloamordedeos, me ajuda! Puxa!- Coloquei as minhas costas nas mão dela. - Vai! Aí! Vai! Puxa! - Devia ter falado que queria uma mulher forte.

- Tô tentando, senhora. Por que a senhora fez isso? - Perguntou a fraquelóide.

- Puxa, moça! PUUXXAAA! Pode rasgar mas tira isso do meu corpo! 

Ploft. As muxibas vieram abaixo! Que alívio! Eu rodei os meus braços peladona como se fossem hélices de helicóptero na frente da mocinha de touca e avental que me olhava assustada. Eu estava extremamente feliz com a liberdade!

Mais calma, expliquei para ela que eu ia ser estuprada na loja e patati patatá. Ainda como vim ao mundo e em êxtase dei -lhe um abração toda suada  e ela foi embora sem ao menos esperar uma gorjeta.

É isso por hoje. Amanhã de manhã vou explicar para uma turma de futuros-padres porque não acredito em Deus mas tenho Fé na Kátia. E assim vou terminando os meus dias de intelectual aqui em Sampa.

Até a próxima!

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* Parafraseando Manoel de Barros.




quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A Falsa Rainha

Desenho feito pelo artista Sergio Ricciuto Conte.

No início deste ano, resolvi tratar as minhas fortes enxaquecas. Estava aberta à qualquer tipo de tratamento a despeito de minhas crenças. Acupuntura, lobotomia, shiatsu, pilates, chá de erva amarga, reza forte, banho de pipoca,...qualquer coisa contanto que me tirasse a dor. Acabei mesmo me resolvendo pelo lado tradicional. Postei no feicebuque que sentia dores, muitas dores, dores horríveis!!!, e pedi sugestões dos amigos conectados. Em menos de um minuto, um amigo de escola da época em que eu lia e achava bom Paulo Coelho, respondeu-me prontamente fornecendo um número de telefone para eu entrar em contato.
Não vou me estender muito aqui contando o nosso estranho reencontro, depois de bem, quase vinte anos sem nos vermos e nem ao menos trocar uma palavrinha nesse intervalo que apesar da dimensão tenha sido efêmero por distração. Apenas farei uma pequena observação do tamanho de um só parágrafo. É costume universal quando vemos uma criança depois de um certo intervalo dizer “Nossa! Como ele cresceu!”, por ficarmos realmente assustados menos com o desenvolvimento da criança do que com o constatar do passar do tempo que ocorre para nós; também. Algo mais, porém, ocorre quando reencontramos amigos de infância quer ele tenha virado padre, professor, político ou quer tenha se transformado em um doutor. Percebemos a transformação externa, mas não conseguimos ver um adulto como um outro qualquer na nossa frente. Ao vivermos esse reencontro, não há cabelos brancos e rugas residentes em nossos rostos que nos impeçam de enxergar o menino que ainda é e sempre será, para nós, o amigo reencontrado. Por outro lado, somente nesses reencontros percebemos também que há um lugar dentro da gente em que seremos eternamente infantis. Ver, então, uma criança de jaleco, medindo a minha pressão, auscultando o ritmo das minhas sístoles e diástoles, e olhando a minha íris com uma lanterninha supimpa foi uma experiência que exigiu manobras psicológicas que ninguém havia me ensinado. Enfim, a minha sorte é que Leonam era do tipo "cê-dê-éfe", ou para usar uma linguagem mais atual, meganerd. Sentava-se sempre lá na frente na sala de aula e não me dava lá tanta atenção naquela época. Vi isso como algo extremamente positivo e procurei só pensar durante a consulta em quanto ele sempre soube mais do que eu. Esse manejo mental evitou que eu pegasse aquele estetoscópio e dissesse para ele “agora é a minha vez de ver como você está!”.
O ponto que me fez vir aqui hoje é que Leonam, ou melhor, o doutor Leonam permitiu-me, sem querer, um outro tipo de viagem. Ele percebeu que a causa das minhas dores de cabeça era minhas noites pessimamente dormidas. Para tanto, prescreveu-me uma pílula mágica que alguns minutos depois de ingeri-la temos o sono dos deuses. E se eu já sonhava antes por madrugadas afora, agora por elas adentro ando vendo filmes de longa metragem projetados, diria Freud,  na tela do esconderijo secreto: o inconsciente. As dores passaram, mas ao custo de toda manhã eu ter que me olhar no espelho depois de tudo o que me é revelado. Como ocorreu na alvorada de hoje.
Sonhei que ia por uma rua bem íngreme sob a luz da lua cheia, quando a uma curva do caminho dou de cara com um casarão tipo um castelo por onde orbitavam morcegos. As luzes estavam todas acesas de forma que eu poderia ver o que se passava lá dentro. De longe parecia uma festa, de perto, uma orgia. Corpos seminus dançavam freneticamente, gargalhadas estridentes, espadas de brinquedo em riste e chapéus de Napoleão. Não era uma festa. Não era uma orgia. Tratava-se de um hospício. Sozinha,  prontifique-me de sair de lá o mais rápido possível quando de repente, não mais que de repente, surge à minha frente vindo do alto, talvez de uma árvore, um homem pensando estar vestido de homem-aranha. A máscara nada mais era do que uma cueca vermelha onde no buraco das pernas viam-se olhos esbugalhados. Ele ficou naquela posição com os joelhos dobrados e as pernas arreganhadas, uma palma da mão apoiada no chão, o pulso da outra apontando na minha direção. Queria me agredir, mas não sem antes, aparentemente, prender-me com uma teia. Era um louco fugido e eu estava em pânico. Ocorreu-me, então, uma ideia salvadora:
       - Como ousas a interromper o curso de uma Rainha? Fique de pé e volte de onde veio antes que eu mande os cavaleiros das... os cavaleiros das... os cavaleiros das Tilápias te prenderem!
      O maluco imediatamente cumprimentou-me, tal como saudamos uma majestade: curvando-se  e de cabeça baixa, gesto natural dos submissos. Isso feito, saiu pulando em direção ao castelo passando pelos ramos altos que saiam de troncos lenhosos. Comecei a rir no sonho, mas ri tanto e tão alto que o barulho rompeu a barreira onírica e materializou-se nos tímpanos de meu marido que imediatamente acordou e ficou me olhando assustado. Achando que eu estivesse sofrendo, despertou-me acariciando cautelosamente o meu colo.
      Tivesse eu ainda na terapia, ouviria que a doida que existe em mim é trazida num regime altamente rigoroso tal qual uma monarquia. O espelho que fala sem firulas o que vê disse-me que o diabo será o dia em que ela, a doida, descobrir que eu não sou rainha nenhuma. 
     A doida que existe em mim... os doidos que existem em todos nós...Olhando para todos que me rodeiam percebo que a civilização não é passível de sucesso dado que todos nós sequer conquistamos um mínimo de equilíbrio emocional sem muito esforço. A Bíblia já nos diz isso há séculos de forma simbólica. Perdemos no pecado a condição de sermos racionalmente harmoniosos, somos proibidos de ter a visão do paraíso.
        Continuando a olhar a mulher descabelada e com olheiras no objeto de vidro e de metal bem polido, percebi que a doida que existe em mim é responsável pelas emoções mais puras que a vida me deu. É ela, essa descompensada oligofrênica de cabelos  longos e alvoroçados, portadora de um vestido branco, curto e todo rasgado, usando um chapéu grandão cheio de adereços e que vive descalça, que vira e mexe salta de dentro de mim e grita sim! num  momento em que meu ser civilizado, com calças sociais, blusinhas fru-fru e sapatos scarpins ameaça a dizer não a alguma aventura. Foi essa doida quem se apaixonou inúmeras vezes pela mesma pessoa e permitiu que um outro, amado somente uma, fizesse-lhe o primeiro filho. Foi ela quem chorou quando criança, debatendo-se e assustando os vizinhos, a perda de um preá . Foi ela quem negou Jesus Cristo, o único homem equilibrado e perfeito que jamais existiu na face da terra, por temer o mesmo fim. É essa doida que não adormece dentro de mim e que, por isso, nunca me deixou ter uma noite completa de sonos, pois, sempre me desperta ao ficar reivindicando aos gritos, muito antes do amanhecer, o direito de correr contra o vento. Essa louca contida, refreada, domesticada, enrustida e subjugada é o legítimo sustentáculo da minha verdadeira personalidade, é a medida da minha condição feminina, heroína e pobre-coitada, branca por necessidade, santa para tantos por tanta obtusidade, soldado obediente, mas que um dia há de revoltar-se contra toda essa conveniente disciplina e libertar de vez de toda essa loucura quando descobrir que nunca fui e que jamais serei uma Rainha.
         As dores de cabeça praticamente não existem mais e creio que ao parar de tomar o remédio elas não voltarão, pois a pureza de minha debilidade, antagonicamente poderosa pela sua fragilidade e pela sua força, está perto de ser coroada com flores, de ser adornada com bijuterias e de ir para as ruas saltitante, orgulhosa do que vê todas as manhãs naquele que reproduz nitidamente as imagens que o defrontam.