sexta-feira, 10 de julho de 2009

A Volta de Eliseu

Para Hideo, meu filho adolescente que atualmente só fala em sair de casa e que vive me alertando que não será o “meu filhinho” para todo o sempre. Até parece...
Rio Claro, 10 de Julho de 2009.

Cara Conceição,

Há quanto tempo não nos falamos! Como está, minha amiga? Geraldo está bem?

Estou te escrevendo porque preciso dividir com alguém tamanha alegria que sinto e me lembrei de você. A letra está tremida porque estou repleta de emoção: meu menino voltou para casa!

Eu levei um susto quando abri a porta e o vi. Como cresceu, Conceição! Ele chegou como essas crianças mesmo que aprontam, sabe?, e ficam com medo de apanhar. Com carinha de pobre-coitado. Pediu logo desculpas e me deu um abraço longo e muito apertado. Sempre soube que ele voltaria. Disse que veio para ficar e nunca mais me abandonar. Eu até agora estou sem acreditar.

Às vezes acordo, penso que foi tudo um sonho. Vou ao quarto dele e o vejo dormindo como um anjo! Eu sabia que Deus estava me ouvindo. Mas, o danado se descobre todo quando dorme, Conceição, acredita? Comprei para ele um pijama de calça e mangas compridas, e quem disse que ele gosta? Qualquer dia acorda resfriado.

Voltei a cozinhar todos os dias, a fazer feira toda semana... Como o meu filhote come, Conceição! Dá até prazer de ver! Essa idade eles precisam mesmo se alimentar muito bem. A tarde ele vai se encontrar com alguns amigos que já fez por aqui pela vizinhança.Eliseu sempre foi de se enturmar fácil desde criança! Mas eu fico preocupada...a gente ouve cada coisa na televisão. Falei para ele trazer os amigos para cá, para eles ficarem jogando aqui, mas acho que eles se sentem meio constrangidos com a minha presença. De qualquer forma, ele nunca volta tarde, pois, sabe que eu só durmo quando ele chega. Como amadureceu meu Eliseu, Conceição.

É, minha amiga, peço a Deus para me dar muita saúde para eu poder cuidar do meu filho. Agora que ele está aqui, esses anos que se passaram, quantos foram, Ceição?, Deus fez parecer visto de agora que foram apenas alguns dias. Isso está me confundindo. Agora, falando com você, fiz as contas... Ele saiu de casa logo depois que a aquela atriz loira e também muito bonita morreu. Lembra dela, Conceição? Mérilin Monrou. Não sei escrever em inglês, amiga. Isso foi em 1962. Eliseu, coitado, estava perdido com aqueles hormônios da adolescência. Ele sentia vergonha pelo fato d’eu ser mãe-solteira naquela época, lembra? O coitadinho deve ter passado muito constrangimento por minha causa. Quando eu fugi de casa para morar com o Odilon tinha a idade dele também. Ô idade de todo mundo fugir de casa, Ceição! Eliseu nasceu em 45, dois anos depois d’eu ter saído pela janela da casa do papai. Odilon, aquele sem-vergonha, me abandonou em seguida, lembra, Ceição? Minhas mãos tinham feridas de tanto lavar as roupas das madames. Era o único serviço que conseguia fazer sem desgrudar os olhos do menino. Mas Eliseu sempre teve o que comer em casa. Graças a Deus. Não quero mais fazer contas não, Ceição! O importante é que ele voltou, bem no ano em que Maikon Jeckison morreu.
Eliseu é assim, Conceição, como eu sempre te disse, quase uma estrela...

Beijos

Bernadete

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Aiuto! Hilfe! Help! Ayuda!Tassukete!!!!

Esse texto foi escrito em Abril deste ano. Estava começando a aprender italiano. Obviamente nada sabia com menos de um mês de curso mas percebi que quase todas as palavras tinham "tt" ou "pp" e outras sutilezas. Munida de tal observação comecei a brincar com meus amigos e tive uma surpresa interessante com a reação de cada um. Resolvi, então, contar para vocês:

Io tengo una storia para contare per voi qui parece in otra linccua ... ma qualoquê! Una storia squisitta pella manera qui è narratta aqüi ma que voi irono compreendere tutto!!!!


Tutto ha comenciatto quandi io ho entratto no corso de italiano in questo anno! Até questo giorno, io parlava bene portuguese e scrivia bene in nostra linccua, ma dopo das primas leziones algo straño mi ha aconteçatto! Un spiritto ha baixatto in me!!!! Io solo scrivo emeio allora para tutti mundi in otra linccua qui ni è italiano e ni portuguese! Las personnes pensono qui io sto metitta, qui voglio aparecere exibinto conhecimentto, qui scrivo di sacanagge perchè io sono una persona snob...questas cosas maleditas qui parlam por aí. Ma non percebono qui quasi tutti las paroles sono inventatta por una mente confusa i poco sabida.


O strano è qui cada uno mi risponde os emeios di una manera diferentte! Mia sorella Lydiane, medicologa di nostra famiglia, mi ha rispondatto in alemone! Io non entenditto niente do qui lei scrivatto! Mia mama (mia mama!!!! Qui nunca scrivere per me in portuguese!!!) mi ha rispondatto in italiano, ma un italiano bello qui parecia alemone o giapanesse perchè io non compreendi niente!!!! Mi fratello Tony foi lo únicco qui mi ha rispondatto in portuguese (???):


“- Ih ah lá! Caraca, show... Aí, se fez... Putz. Mandou. Pô, pirei! Cara, fui.”


Mi maritto (qui lavora embarcatto na plataforme di Petrobrás) ha pensatto qui io sto ficanto fera in un mês de corso, lui ficcou orgulhosso de mi, ha pensatto qui io sono molto inteligentte e mi risponde tutto los emaios in inglese para non ficare para trás. Otros amicos di mi cuore stono scrivendo in questa linccua (!) e há aquelles qui si calam per non entenderem qui cosa è questa. Alcunos non leem o emaio pensantto qui non vono intendere... Mia otra sorella stressatta Tatiana, qui io chiammo di Ta (dopo mi mandare à un lugare qui non vou parlare per voi), mi ha scrivatto in giapannese:


“Tadaima!!!!Asobimasho!!!!!!!!! Konnichi wa!!!! Ogenki dessu ka???????
Yoshi, watachi wa onee-chan desu. Sugoi!!!!!
Kyoo wa ii tenki desu ne??????
Yattaaaaaa!!!!!”


Dio mio!!!! Io non entendi niente e ficquei preocupatta. Sue emaio tinha molto ponto de exclamazione e interrogacione! Ella stava con alcun problema i nencuno ha intendatto o qui era... Dopo de questo preocupantte emaio in giapanesse io screvi para Tatiana, Lili e tutta mia famiglia in portuguese-giapanese qui tutti loro intenderam i qui voi entenderono tambien:


"Kommi wa masho ka: Tony e Takimoto-san! Ten aki femea tã be : Elika, Lili, Tadaiana e mama!


Ôgenki! Y a Ta! Dessu santo na Tadaiana! Kyô tenki ki fassoro??? Santo sugô shipiritô di Tadaiana!!!!! Kura Tadaiana, Lili-san-medikura-di-kassa!

Pero amô de Buda!"


Ma dai! Mi mama qui stava a bebere succo cuspiu tutti dopo lire questo emaio, saiu succo até pelo su naso di tantto rire de nervoso con tutti seus figlios straños.

E allora para tutto voltare ao normale??? Mi caxa di emaio virou la Torre de Babele i io non consico screvire diretto i nem intento niente qui me screvono.

La mente de las personnes sono molto squisittas...




quarta-feira, 17 de junho de 2009

Limpando a Cabeça


Yuki, meu filho mais novo pegou piolho. Detectei a invasão assim que percebi que o pandeiro não estava sendo tocado no ritmo certo. Para aqueles que não sabem, Yuki nasceu assim, sambista. Toca instrumentos de percussão com ritmo antes dos dois anos de idade. A falta de uma batida harmoniosa não é sinal de imaturidade ou inexperiência e sim de que algo o atrapalha, neste caso, a estadia da espécie pediculus humanus que estava começando a fazer a festa ao som daquela batucada forçadamente irregular.

Coube a mãe do sambista fazer o serviço sujo, na verdade, o serviço de limpeza daquela cabecinha balançante. Optei por não passar os remédios típicos para a pediculose porque ele é muito novinho e eu estava com medo de uma intoxicação. Então, restou-me a operação pente fino.

Mamãe vai pegar os bichinhos que estão mordendo a cabeça do neném. Eu vou passar esse pente e eles ficam agarradinhos nele, vamos ver? Yuki me ouvia e olhava o pente nas minhas mãos assustado. Mas seus olhos tinham muita curiosidade também a ponto de me permitir passar o pente com tranquilidade. Na primeira passada, peguei um grande. Aqui, meu filho, esse é o papai dos outros. Vamos pegar os filhotinhos e arrumar uma nova casinha para eles? E saí catando com toda calma, vigiada pelo olhar atento da minha criança, os filhos e a esposa do bicho que estava num pedaço de papel higiênico esperando o resto da família. Para aumentar a minha dificuldade de continuar com aquela historinha sem graça, recém-inventada e sem a menor dose de criatividade, peguei mais três grandes e cinco pequenininhos. Na minha cabeça, ou melhor, na cabeça do Yuki, aquilo era uma infestação e o pior! eu tenho nojo de usar meus polegares para um serviço que faria jus ao apelido que receberam de tanto que seus ancestrais esmagaram esses insetos nojentos até ouvir um tec! Embrulhei bem todos eles, mas muito bem embrulhados mesmo, joguei no vaso e demos tchau para toda família que iria participar de uma longa viagem assim que apertasse a descarga. Na semana seguinte, repeti o processo mandando mais filhinhos para junto do papai, da mamãe, da dinda, do tio Geraldo e dos irmãos que estavam numa terra muito-muito distante.

Quando Marilene, minha manicure, chegou aqui em casa para fazer o meu serviço de manutenção preventiva semanal, eu contei para ela com cara de nojo toda a história. Ao ouvir que havia tirado nove piolhos da cabeça do Yuki, ela esboçou um sorriso contido, desses que se manifestam muito mais com o brilho dos olhos que aumenta de forma involuntária do que com o esticar dos lábios, as vezes, forçado.

Disse que quando as crianças pegavam piolho no morro não dava nem para contar quantos eram. Sabe um céu cheio de estrelas? Então, nossa toalha ficava assim. E eu que achava que havia presenciado uma infestação... estava até com vergonha de tocar no assunto com outras pessoas por parecer negligência, sujeira ou sei lá o que mais que me apontasse como uma pessoa pouco asseada. Como tudo muda dependendo do referencial! Sábias palavras de Copérnico! Mas a diferença não estava somente nos números...

De vez em quando a mãe e a tia de Marilene resolviam ocupar a cabeça delas com a cabeça da minha manicure. E começavam o serviço assim: vamos fazer uma blitz nesse morro aí! Era o sinal que ela teria sua extremidade superior do corpo vasculhada sem que isso significasse revelar algum segredo.

Sendo puxada pelos cabelos à quatro mãos, o serviço era iniciado e Marilene ouvia: Aí, tô na escolta! Era a voz da mão da mãe de Marilene para a mão da tia de Marilene. Vamos passar o rodo! Respondia uma das mãos. Eu vou é mandar para a vala um punhado hoje, irmão! Vamu começar a passar o cerol geral!!! Nessa hora os piolhos que tudo entendiam, na cabeça da Marilene, estavam alvoroçados, correndo para todos os lados... já pipocou cinco na minha mão, irmão! Só nesse começo!!! Aqui, peguei o chefe! Cadê o gerente? Cadê o gerente? Vai falar não, filho da pu ... TEC! Aqui um olheiro! Crente que ia avisar o gerente, né? Tem de ficar esperto que tá a maior sujeira, gritou um aviãozinho já entre dois polegares, avisando aos outros sobre o que estava rolando no asfalto, momentos antes de morrer. Tu avisou aos soldados filho da pu ...TEC! Tá cheio de samango na área, só de escolta, esperando algum mané dar bobeira! Se liga, irmão! Se der mole, toma um bote! Eram os piolhos gritando uns para os outros, na cabeça da Marilene.

Eu fiquei assustadíssima com essa história contada enquanto minhas unhas ganhavam cores. Mas chego à conclusão que tenho dado muitos ouvidos para psicólogos. Outro dia me falaram para não cantar atirei-o-pau-no-gato para meus filhos e me ensinaram uma versão não-atire-o-pau-no-gato para que eles não se tornassem devassos matadores cruéis de animais quando crescessem. Estava morrendo de pena da Marilene, um doce de pessoa, e também de todas as crianças piolhentas do morro. Você ficava assustada Marilene? Tinha pesadelos?

Marilene se mijava de rir.
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Veja que interessante, não consegui postar o texto autêntico porque recebi a mensagem "Seu texto não pode ser publicado porque contém palavras não permitidas!" Nesse contexto, as expressões que podem parecer chulas, sem classe, e até agressivas... na realidade, são autênticas, sem recalques e que retrata o cotidiano nu e cru de algumas comunidades de uma forma bem divertida. A censura do blog pensa como eu pensava. Antes dessa conversa toda com a Marilene...





domingo, 7 de junho de 2009

Os 10 Mandamentos de Elika para Deus

Este texto teve como motivação o desastre do vôo 447 (a gota d'água).



Quando eu era criança eu ia à Igreja todos os domingos. Fiz catecismo e Primeira Comunhão. Mas não era toda semana que eu comungava. Às vezes, esquecia-me de confessar e com a vida plena de pecados ainda não contados para o padre, presbítero ou bispo, não era digna de receber o corpo de Cristo. Para ter direito a experimentar um pedaço de algo feito de água, farinha de trigo sem fermento e nem sal e que pesa menos de um grama, tinha que contar meus poucos segredos para um homem que nesse momento atuava em nome de Jesus e que me dava em seguida uma penitência. Depois de rezar um determinado número de Ave-Marias e Pais-Nossos, os danos causados pelos meus pecados eram reparados aos olhos do Senhor. Graças a Deus.

Como toda criança que frequentava a Igreja, eu morria de medo do Papai do Céu. Temia despertar sua ira e Ele acabar me mandando queimar no fogo do inferno. O padre com seus sermões elaborados especificamente para o público infantil das manhãs de domingo, fez-me crer que as Escrituras e o Antigo e o Novo Testamento eram um guia confiável para o que deveríamos acreditar. Não eram meramente documentos religiosos. Eles nos proporcionavam um relato verdadeiro sobre e história da Terra, que se ignorássemos seria por nossa própria conta e risco.

Como nunca neguei fogo para a leitura, não era raro aos 11 anos estar lendo uma Bíblia que tia Isa nos deu. Ela era escrita especificamente para as crianças. No Êxodo 20:2-17 encontrei os Dez Mandamentos. Fiquei curiosíssima, na época, pelo fato deles terem sido originalmente escritos por Deus em tábuas de pedra e entregues ao profeta Moisés. As famosas Tábuas da Lei. Este, ao apresentar os mandamentos do amor a Deus (os quatro primeiros) e ao próximo (os outros seis), traçava, para o povo eleito e para cada um em particular, o caminho duma vida liberta da escravidão do pecado. Como já disse em outros textos, sou um bom soldado. Bastava seguir aquelas 10 regras e estaria livre de ser fritada pela eternidade. Simples assim.Vejamos o que eu tinha que saber e fazer:

1- Eu Sou o SENHOR, o teu Deus
2- Não terás outros deuses além de mim
3- Não tomarás em vão o nome do SENHOR, o teu Deus
4- Lembra-te do dia de sábado, para santificá-lo
5- Honra teu pai e tua mãe
6- Não matarás
7- Não adulterarás
8- Não furtarás
9- Não darás falso testemunho contra o teu próximo
10- Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo.

Mesmo sem hoje pertencer à nenhuma religião, posso dizer que diante dessa tábua eu sou quase uma santa. Supondo que exista verdade nessa história de Moisés, que nos dizia também que a tábua original foi quebrada e que Deus teve que fazer uma outra, percebo que há, mesmo que pequena quando comparada com toda a Sua obra, uma certa fraqueza no Nosso Senhor. Por que a primeira tábua não era inquebravel? Ele devia estar tão preocupado com o que ia escrever sobre a tábua que passou despercebido o fato dela poder ser destruída assim que chegasse à Terra. Aquilo me fez pensar se em outras situações mundanas, Deus também não teria dado uma piscada mais longa e as negligenciado sem querer.

Até hoje, quando vejo ou ouço certas coisas, me pergunto: será que Deus estava dormindo? Mas, agora, lembrando-me dessa passagem bíblica, decidi ter uma outra postura. Ao invés de ficar brigando com Ele, resolvi que posso ajudá-Lo. Retribuindo a preocupação e a atenção que Ele teve comigo em deixar por escrito o que eu deveria e não deveria fazer, hoje, faço o mesmo. Deixo por escrito 10 mandamentos para que erros, com certeza ocorridos pelo fato Dele estar ocupado com coisas mais importantes, não tornem a acontecer. Tenho certeza de que se alguém tivesse dado esses toques antes algumas desgraças não teriam acontecido.

1- O Senhor pode fazer com que alguns aviões caiam. Mas está terminante proibido de fazê-lo quando o destino for Paris.

2- Jamais mate torcedores de enfarto quando o time pelo qual torcem ganhar a partida. E em hipótese alguma na hora do gol. Todos tem o direito de saber o que é a felicidade; embora, já entendamos que nem todos tenham o direito de ser feliz.

3- Nunca devemos ter medo de salvar o próximo. Para tanto, fique atento nesse momento para que a vida de heróis seja preservada.

4- Toda burrice poderá continuar sendo imperdoável. Mas cuidado! Crianças geralmente não são burras e a ingenuidade deve ser estimulada na infância e não castigada.

5- Os artistas merecem mais cuidados. Talvez a distância esteja Te enganando pois, de longe, todos somos iguais. Eles só devem ser levados embora após terem esgotado toda a sua produção por aqui.

6- Defina melhor “mulher do próximo”. As leis dos homens mudaram e isso pode estar nos confundindo. São as mulheres que são mantidas como reféns? São as que dependem financeiramente do homem? As casadas no civil e no religioso? Que namoram por mais de dois anos? Ou somente as que são felizes com seus parceiros?

7- Esclareça de novo, por favor, o dia da semana para ser santificado. Algumas religiões mudaram o dia para Domingo e tem um bando de puxa-saco querendo ir à Igreja ou ficar rezando todo dia e o dia inteiro achando que vai Te agradar mais ainda. Explique melhor que basta um dia e determine com clareza qual deve ser.

8- Fique mais atento nas florestas para que elas não sejam palcos frequentes de crimes hediondos como estupros (Outro dia, a vítima foi uma criança deficiente, não sei se Você soube desse caso). Creio que a mata dificulte uma fiscalização feita só de cima. Portanto, desça de vez em quando.

9- Evite temporais quando a noite for de lua cheia. Precisamos de mais poetas.

10- Devolva-nos o Elvis.



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Quando estava terminando de escrever os 10 mandamentos minha mãe (que mora a 20 metros de minha casa e já foi, outrora, uma católica fervorosa) me ligou dizendo que havia acabado de fazer um chá. Ao chegar lá, ela me perguntou o que eu estava fazendo em casa já que estava tão quieta (eu ligo para ela de quinze em quinze minutos e fazia uma hora que não ligava). Disse que estava escrevendo e sobre o que estava escrevendo. Nada detalhado. Falei só da idéia principal do texto.

Você sabe que os 10 mandamentos (na verdade os 6 últimos) se resumem em um só, né, Elika? Antes que eu respondesse, ela emendou: Amai ao próximo como a ti mesmo. Pensando bem, mãe, agora que você falou isso, os meus 10 também podem ser resumidos em uma única frase. É, minha filha, e qual é? Perguntou mamãe com um orgulho precipitado. Não nos sacaneie. E mordi a torrada.

Após ouvir minha resposta, mamãe, inutilmente, levou a mão direita, respectivamente, à testa, entre os peitos, ao ombro esquerdo e finalmente ao ombro direito.




sexta-feira, 29 de maio de 2009

CAMINHADA

Este texto foi escrito no início de 2005. Hideo agora está um rapaizinho...emagreceu, conheceu a Belinha e não quer mais saber de caminhar comigo.


Há um mês atrás meu filho de doze anos resolveu que iria emagrecer, fruto da vaidade que agora desperta por estar chegando à adolescência. Além da dieta a que se submeteu decidiu caminhar todos os dias pela manhã e pediu-me para acompanhá-lo para que o tempo passasse mais rápido. Assim, há um mês acordo com ele já de tênis a me apressar “vãobora, mãe!” e assim, começamos o nosso dia juntos pelas ruas de Madureira às seis da manhã.

Na primeira semana já observamos que certas cenas se repetiam: a avó levando os netos à escola, o homem de bigode que saía com uma pasta e deixava um rastro de perfume barato, o pai carregando a mochila da filha sempre sonolenta ao seu lado, seu Armindo abrindo seu botequim, Dona Ivonete arrumando a banca de jornal, seu Ivaldo indo comprar pão...na terceira semana verificamos que determinados fatos se repetiam em alguns dias apenas. Tem gente que só lava calçada terças e sextas; segundas, quartas e sextas as pessoas se desfazem de seus lixos colocando-os para fora e outros os remexem. Sempre os mesmos lixos. Já sabem onde tem lixo bom.

Expliquei para meu filho algo que ele já sabia, mas como temos que enganar o tempo encurtando–o nas nossas mentes, tentei fazê-lo com palavras. Falei que o nome daquilo do que estávamos fazendo parte era cotidiano. Cheguei a cantarolar Chico, mas logo percebi que Chico se referia ao que acontece das portas de casa para dentro e estávamos do lado de fora. Eu me referia ao cotidiano das ruas, das calçadas em que andávamos, dos bares e padarias do subúrbio carioca.

Estamos na quarta semana e ele demonstrou um certo cansaço desta monotonia matinal. Não há mais nada de novo para nos distrair. Talvez se sairmos dez minutos mais cedo tudo possa mudar, né mãe? É, tudo muda se sairmos dez minutos mais cedo todos os dias. No meio desta nossa conversa, divagando o que mudaria em um curto intervalo de tempo no dia-a-dia das pessoas, somos surpreendidos por um fato que quebrou a nossa mesmice das seis às seis e quarenta. Um homem deitado no meio da calçada, bem vestido, porém, com as nádegas de fora. Nós o vimos de longe e logo me apavorei. Será que está morto? E se estiver, passamos por ele? Chegamos mais perto e vimos que respirava. Babava no cimento. Dormia o infeliz um sono dos deuses pela sua feição. Algumas passadas adiante, ainda digerindo aquela imagem, ouço meu filho surpreso “mãe, que horror, o homem com a bunda de fora! Você viu a bunda dele? Que vergonha!” (...) Ainda em processo de uma difícil digestão que havia começado pelos olhos, entrava em mim, agora, algo pelos ouvidos. Descobri que as enzimas não ajudam muito quando o alimento ruim não entra pela boca. Olhando para aquele ser em formação que andava rápido ao meu lado para perder alguns quilinhos tentei falar algo de peso para a sua vida. Disse que o rapaz, mais do que parte de seu corpo à mostra, estava com a vida exposta. Todos que por nós passavam não nos diziam nada além de bom dia, e que ele ali estatelado no chão, dormindo, dizia a todos que estava com um grande problema. Perguntava se ninguém iria ajudá-lo, ria do nosso medo de nos aproximarmos e do nosso alívio ao vê-lo respirando. Admirava-se com a nossa frieza e gritava para o chão, indignado, que ele não o sentia. Sonhava em não acordar.

No dia seguinte, não saímos dez minutos mais cedo. Não fazíamos mais questão de ver nada de diferente. A calçada onde outrora um homem dormia e a sujava com a saliva que saía de sua boca aberta, estava limpa. Ao passarmos por ela, questionei se o rosto daquele sujeito estaria limpo também da poeira do chão que lhe serviu de travesseiro na noite anterior. Acho que não, ouvi. Nem o rosto dele nem a minha consciência. O menino aprendera uma difícil lição. Entre a insipidez de nossos relógios e a efemeridade da dor impotente, devemos buscar uma terceira opção.

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Se você gostou desse texto poderá gostar também de:

Nem tanto o céu, nem tanto a terra
Sinal Verde
Biciquétala


quarta-feira, 20 de maio de 2009

“Eles Passarão, Eu Passarinho”*

*Mário Quintana

Meu amigo Paulo Andel me deixou, digamos, bolada com um comentário deixado no texto anterior. Disse que sou a melhor memorialista que ele conhece pessoalmente. O elogio me deprimiu pois eu ando incomodada há tempos com isso. Mais precisamente há dois meses. O passado é transcrito sempre sem maiores problemas e quando há dor, melhor ainda. São os textos mais comentados. Se fizesse algum amigo chorar na vida real jamais receberia qualquer elogio. Mas quando os emociono por aqui, por causa de algo que já aconteceu comigo, me abraçam com os braços quando Deus nos permite ou com os dedos clicando em letrinhas que formam palavras de carinho que me envolvem da mesma maneira. Mas ando angustiada. Eu preciso escrever sobre o que está por vir. E eu não sei como fazer isso.

Ando segurando a garganta desde o início desse ano. Querendo conjugar no futuro e estou proibida de fazê-lo.

Deixe-me explicar o motivo: já é sabido por alguns que desde março estou aprendendo italiano. Entrei num curso semi-intensivo lá no consulado da Itália para que consiga, em um ano, me fazer entender na terra da pizza e do capuccino que pretendo conhecer em 2010. A ordem que recebi foi ouvir o máximo que puder na língua italiana (filmes e músicas são bem vindos aqui), falar o que conseguir de preferência para aqueles que me amam (pois somente esses terão paciência) e desejar o hors concours, claro: pensar em italiano. Quem me conhece sabe que sou um bom soldado. Obedeço bem às regras. Cumpro ordens com facilidade. Questiono pouco quem eu escolho para ser meu líder.

Sendo assim não é preciso dizer que meus filhos, minha empregada e meu marido já entendem um pouco a língua de Galileu Galilei. Já sabem o que me incomoda aqui e agora (somente). Chego em casa e grito para meu bambino: Vieni dalla mama! E recebo um forte abraço de Yuki. Ma dai! Questo quarto está una cosa sporca! E Hideo já começa a catar as coisas espalhadas pelo chão. Di chi sono questi revistinhas? Já vou guardar, mãe! Grita Nara de algum lugar. Sai dove sono le chiavi? Em cima do armário, responde Lucimar. A che ora ritornai a casa, ragazzo? Hoje o samba termina cedo, meu amor. Nem vai dar tempo de você sentir saudades...

Ah o presente...como o presente é mole. Mi piace viaggiare. Andiamo al cinema. Mioi genitori stanno molto benne. Io scrivo per voi. Só alegria quando nós o conjugamos. Molto facile vivere somente no presente do indicativo...

O passado? Até duas semanas atrás ele não me importava. Pouco me lixava o que havia feito ontem, aonde fui final de semana. Carpe diem! O que é digno de apreço é somente o agora! Nem queria pensar mais sobre o que já havia decorrido mesmo porque não sabia como fazê-lo. Apaguei o que ficou para trás para não entrar em choque com meus pensamentos. Mas, depois que a professoressa escreveu no quadro PASSATO PROSSIMO, minha vida mudou ou melhor, la mia vita è cambiata! Fui forçada a lembrar de tudo que já fiz, ontem, semana passada, minhas últimas férias... Fui obrigada a abrir o álbum de fotos sem importância tiradas somente pela minha retina e que certamente iam desbotar sob a luz de meus problemas mundanos. E dá-lhe remexer na memória! Ieri non sono uscita di casa. Hideo é arrivato tardi a scuola setttimana scorsa. Sono andata al cinema e ho visto um belíssimo film (a propósito, vejam Divã).

Ah o passado... pensando bem nem foi tão difícil assim...

Mas... a verdade é que sendo mãe de três(!!!), fazendo doutorado, dando aulas, tendo um marido que trabalha numa plataforma, irmãs que moram distante de mim ... eu só penso no futuro! E não posso falar sobre ele pelas regras do jogo porque eu não sei conjugar no futuro na língua do Pavarotti! Estou limitada ou a viver o presente intensamente ou a ficar recordando tudo que já fiz nessa vida. Chego em casa, quero falar para todos que amanhã vou começar academia e não consigo. Não sou capaz de prometer que não vou mais comer tanto chocolate. Ontem ia dizer que ia acordar mais cedo para que hoje não precisasse correr tanto de carro para chegar ao trabalho. Não consegui! Preciso sentar e terminar de escrever esse projeto de doutorado que meu orientador está me cobrando e quem disse que estou apta a dizer isso? Tenho que fazer um curso de batismo para poder ser a madrinha da Maria Rita e como posso fazê-lo? Terei que ler mais sobre Espinosa. Terei, acordarei, não comerei, começarei, escreverei, batizarei... impossível! Impossível! Eu não sei! Eu não sei!

Diante de tamanha ignorância e desta lamentável falta de sabedoria eu andei meio calada. Quando ia dizer alguma coisa, lembrava que era algo que pretendia que acontecesse. Não era nada sobre o hoje, o agora e muito menos sobre o ontem ou o que já se findou. Então, com a boca aberta e o peito cheio de ar, a fechava ao mesmo tempo que me encurvava e deixava que o gás carbônico fosse todo embora de uma só vez. Desânimo. O que foi, meu amor? O que te aflige? Perguntou meu marido preocupado. O futuro, Nelson. O futuro. Eu não sei o futuro!Eu não sei!!! Elika, este nem Deus sabe!!! Intercedeu, agoniada também, Lucimar, minha secretária há doze anos e que me conhece tão bem quanto o chão desta casa que se livra todo dia da sujeira graças ao seu trabalho.

Aflita, peguei o cronograma do curso. Li no capítulo seguinte: FUTURO SEMPLICE. Semana que vem aprenderei. Fiquei animadíssima com o que virá. Mas depois do que Paulo Andel escreveu, dizendo que fico bem falando no pretérito mesmo que seja o imperfeito, estou morrendo de medo...

terça-feira, 12 de maio de 2009

À Sombra do Tempo

Devia ter uns dez anos. Na época, eu só tinha dois irmãos e sofria todos os problemas que um filho do meio se destinou a sofrer. Minha irmã ao nascer antes de mim fez com que minha mãe não se emocionasse tanto com a minha chegada. Afinal a maternidade já havia sido desvendada. Meu irmão mais novo, por ter chegado por último e ser homem recebia em dose dupla, a atenção de meus pais. Do papai por ser homem. Parecia até que papai era rei e meu irmão herdaria todo o seu reino. Da mamãe pela proteção excessiva que todas as mães dão para o filho homem, motivo esse dos homens serem tão menos independentes do que as mulheres. Bem mais tarde, doze anos depois para ser mais precisa, nasceu Lili, a temporã. Por ter vindo tão tarde Lili não fez parte de minha infância e, portanto, não faz parte dessa história.

Senti-me desprestigiada em vários momentos de minha infância, nada que um psicólogo e até eu mesma não tirasse de letra como no dia em que ganhamos três porquinhos da índia. Uma espécie de rato, peludo e sem rabo. Uma graça. Mamãe comprou três. Para não ter briga. Minha irmã mais velha, a que nasceu primeiro, falou primeiro, andou primeiro, e fez todas as gracinhas primeiro, chegava primeiro também da escola e foi a primeira a escolher um dos três roedores. Escolheu o mais bonito, um todo colorido e passou-o a chamar de Arco-íris. O meu irmão, o menorzinho, todo fragilzinho até seus vinte e sete anos, o terceiro filho, nesse dia foi o segundo a chegar da escola. Imediatamente escolheu o porquinho que era todo marronzinho, o mais gordinho, e passou-o a chamar de Fofinho. Quando eu cheguei da escola vieram os dois correndo na minha direção, falando alto e ao mesmo tempo me puxando para onde estava a gaiola. Mamãecomprouporquinhos! OmeuéArcoÍris! Vaiver!ÉoFofinho.Correveroseu! Vemcásãotrêsporquinhosfinhoémeu! Eu fiquei animada mesmo sem entender nada do que eles estavam falando. Dizem por aí que a alegria é contagiante e quem sabe seja verdade.

Ao ver os porquinhos da índia fiquei sem palavras. Meus olhos, cuja retina refletia a felicidade, não piscaram durante alguns segundos. Tão logo ouvi a voz doce de minha mãe que falou atrás de mim. Comprei um para cada um. A minha mudez súbita acabou no mesmo segundo. Afinal, na infância, em várias situações, ganha quem gritar primeiro. Aquelealiémeo! Gritei. Não, a Tatiana já escolheu. Aquelealiémeo! Apontei o outro já estranhando o fato de meu irmão não ter gritado ao mesmo tempo que eu. Não, o Toninho escolheu esse. O que havia sobrado era um rato branco, sem rabo com um capuz preto na cabeça. Nem de longe ganharia o concurso de beleza dos porquinhos da índia. Nem sabia que tinha isso, mas Tata fez questão de frisar que o Arco Íris seria o primeiro colocado no concurso de beleza de ratinhos que aconteceria em Massachútis. Como era a mais velha, mais adiantada na escola e coisa e tal, nem discuti.

Não sei porquê pressenti que o bicho que sobrou fosse fêmea. Segurei na mão e disse: você é a mais feia mas é a mais esperta. Esses dois vão se arrepender em não ter te escolhido. E passei a chamá-la de Pituca.

A vontade de mostrar aos meus dois irmãos que quem ri por último ri melhor deu um trabalho danado para Pituca e ocupou muitas tardes da minha vida. Tentei ensinar um punhado de coisas para ela. Coisas que se ensinam para um cachorro e que muitos deles nem conseguem aprender. Senta, Pituca. Deita, Pituca. Rola, Pituca. Rola, Pituca! Ela não aprendeu nada, obviamente. Mas acabou sendo a mais mansinha e a primeira a cheirar a nossa mão quando nos aproximávamos da gaiola. Meus irmãos riam da minha persistência e pelo fato de Pituca engordar sem parar. A chamavam de gorda, cara preta, burra. Na verdade não queriam ofendê-la, eles a adoravam também, mas sentiam prazer em me irritar. Coisa de irmãos. Até que um dia, ao chegar na gaiola, vi Pituca amamentando dois filhotinhos! Ela não estava ficando gorda, ela estava grávida! Os filhotinhos eram horríveis, nojentos, mas eram dois!!! E em cinco dias ficaram bem bonitinhos. Eu era avó de dois porquinhos lindos aos dez anos.

Pituca teve um casal de filhos. O macho, Piteco, logo cresceu e cruzou com a irmã, Peteca. Piteco cruzou com as tias. Sim, tias. Arco íris e Fofinho eram fêmeas também. Piteco também cruzou com Pituca. Não entendi bem essa história mas sei que no final de três semanas meus irmãos também eram avós e eu era avó de novo. Pituca amamentava todos os filhotes. Curiosamente, Arco Íris e Fofinho não tinham a paciência dela e os filhotinhos deles acabavam mamando na Pituca também. Em pouco tempo a gaiola ficou pequena e papai acabou fazendo um cercado no quintal que logo logo ficou pequeno também. Ninguém gostava de limpar aquela sujeira toda e eu me lembro de não ficar incomodada ao fazer esse serviço. Dar comida, trocar o jornal que forrava o chão, botar água… Até gostava. Quando eu chegava com a ração eles faziam um barulhinho e ficavam em pé cheirando o ar. Um barato de ver.

Num Domingo, pela manhã, fui ver os porquinhos e comecei a ficar nervosa pois, por mais que procurasse e chamasse por ela, Pituca não aparecia. Ela sempre era a primeira a aparecer e se aproximar. Entrei em desespero. Como podia Pituca ter fugido? Acabei a encontrando na área de serviço, atrás da máquina de lavar. Fato estranho. Ninguém soube explicar. Mais esquisito ainda é que numa noite, a noite em que passou fora do cercadinho, Pituca emagreceu muito. Ficou fina. Com feitio de peixe. Fiquei apavorada. Ofereci capim e ela nem fez festa como de costume. Desde então não comeu mais nada, bebia só um pouco de água e numa noite, quando fui limpar as casinhas, vi Pituca morta. Dura. Os outros passavam por ela, por cima dela e parecia que nada sentiam. Aquela cena me chocou. Gritei tanto, chorei tão alto que logo apareceram os vizinhos nervosos perguntando o que estava acontecendo. Meus pais tentavam me consolar mas eu só sentia dor. E doía forte o meu peito. Muito forte. Eu queria saber porque de tantos porquinhos no mundo foi ela quem havia morrido. A melhor mãe de todos os porquinhos, a mais carinhosa, a que levantava primeiro quando sentia o cheiro do capim. Minha mãe não me respondia. Dizia somente que papai do céu a levou, mas isso não era resposta. Porque ele a escolhera? Eu tive ódio de papai do céu. Não entendi suas razões e passei a considerá-lo um monstro. Chamá-lo de papai do céu era ofender o meu pai. Meu pai jamais mataria Pituca. Aliás, ele a pegou com cuidado, embrulhou no jornal e a enterrou no pé de nossa mangueira. Perto da raiz. Bem na sombra.

Não quis saber de cuidar mais de rato nenhum. Minha mãe teve que dar todos os outros para uma loja de animais. Mesmo porque já estavam nascendo uns bem deficientes. Fruto daquele crescimento descontrolado.

A Mangueira ficou doente. Uma doença sem cura. Semana passada, meus pais, que ainda moram na mesma casa, tiveram que mandar cortá-la antes que ela caísse de tão fraca que estava. Ao ver luz aonde sempre houve sombra lembrei-me de toda essa história. O tempo passou depressa. Quase trinta anos se passaram. Eu e meus irmãos crescemos e agora temos todos a mesma idade. Certas diferenças o tempo apaga. Já a dor da perda, o sentimento de impotência diante da morte… engraçado… bastou eu enxergar tudo mais claro e voltou.