sexta-feira, 29 de julho de 2011

Bolo na caneca!

Você vai precisar de:


- 1 ovo pequeno  
- 4 colheres (sopa) de leite  
- 3 colheres (sopa) de óleo  
- 2 colheres (sopa) rasas de chocolate em pó  
- 4 colheres (sopa) rasas de açúcar  
- 4 colheres (sopa) rasas de farinha de trigo  
- 1 colher (café) rasa de fermento em pó  

 



Modo de Preparo: 
Coloque o ovo na caneca e bata bem com um garfo. Acrescente o óleo, o açúcar, o leite, o chocolate e bata mais.  Acrescente a farinha e o fermento e mexa delicadamente até incorpar.  Leve por 3 minutos no microondas na potência máxima e só!

Recebi a receita por email. Falaram-me que era facinho...eu não sou de fazer nada na cozinha, mas fiquei bem animada batendo tudo na caneca empolgadaça, pensando que maravilha viver se eu sei fazer um bolo na caneca em três(!!!) minutos. Mexia mexia mexia tudo mega feliz pensando que em breve veria ao vivo a foto da receita...


 Compartilho o meu resultado:



Agora com mais dor:


Não podia ter passado o dia sem essa?!?

 

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Freud explica!



Há tempos venho observando certos comportamentos masculinos e tentando entender porque não agimos da mesma forma. Falo hoje especificamente sobre futebol. Nesse terreno, por mais que as mulheres estejam aumentando em número nas torcidas, este ainda é desprezível quando comparado com o contingente masculino. Cansada de ver uma classe tão delicada ser alvo de críticas do público estritamente macho presente nas arquibancadas e nos sofás aos Domingos, meditei profundamente sobre o assunto e com uma bagagem suficiente de leituras sobre psicanálise acabei tendo uma epifania que resultou na elaboração de uma teoria super consistente para explicar esse interesse doentio e sem limites do homem pelo futebol.

O ponto que sempre me intrigou foi que mesmo sendo inteligentes e vencedoras em muitas áreas, temos uma dificuldade cor de rosa em acompanhar os “lances” do jogo mesmo quando se repetem em câmera lenta. Nem vamos falar aqui das regras do impedimento! Entender até que não é difícil. Mas e ver na hora? Os homens ficam gritando: IMPEDIDO! TAVA IMPEDIDO! NUM TAVA!!! NUM TAVA!!!! E as mulheres que acompanham por parceria seus maridos ou namorados ficam comendo salgadinhos assustadas esperando a decisão do juiz. Ou será do bandeirinha? Tanto faz.  E nosso encravo não fica limitado somente quando a “bola está rolando”, ele se estende para programas como “Enquanto a bola não rola” e as famosas “mesas redondas” onde homens, e somente homens, ficam debatendo sobre os jogos que vão se realizar e os jogos que aconteceram. Vá lá quando falam sobre jogos acontecidos na véspera. Incompreensível, porém, para quem não possui o cromossomo Y é a importância de se discorrer sobre a partida entre a final do Campeonato Carioca de 1944, partida essa que os vascaínos contestam até hoje! Não há santo que nos faça dar alguma relevância a esse fato. E o embondo piora com os gols repetidos pela rádio! O gol foi lindo! Vamos ouvir de novo o gol, galera!  E vem o cara parecendo que comeu pimenta falando bem rápido sem respirar e gritando como pastor em sessão de descarrego: Adriano entra na área, se atrapalhô, tentô, petequiô, livrô-atiro-entrô! Goooooooooooooooooooooolllllllll! A- A- Adrianoooo! Dois zagueiros em cima dele! Ele usou o corpo!Protegeu ia escapulindo bateu por baxo! Rasteiriiiiiiiiinho entrando na área com a bola que ele ia perdendo escapulindo!  E a homem-rada vibra ao ouvir isso de novo. Alguns ainda gravam!!! E tem maluco que escreve livro narrando partidas inteiras com detalhes! E pior que vende que nem água em verão carioca. Vai entender...  

E tem ainda o tal do golaço... o que é um golaço, afinal? Qual a diferença de um golaço para um gol? Quero ver uma mulher me explicando isso. Só os homens sabem, embora não consigam explicar. Complicado. Mas aí, o tal do golaço é visto por n câmaras diferentes, n2 vezes. Tudo se resume, no meu referencial meigo, a uma bola entrando na rede. Absolutamente nada demais. Basta ver uma vez que entendi o que se passou. Mas eles não! Eles veem e comentam, veem e comentam, veem e comentam em todas as resenhas esportivas! E quando os meninos se encontram logo perguntam: viu o golaço? Meodeos... E quando você pensa que já não entendeu o suficiente, eis que eles se superam. Outro dia vi meu marido numa rodinha com cinco amigos conversando animadíssimo numa festa. Cheguei perto para participar da roda e qual o quê! Não entendi nada... “Meu time está bom, comprei o Júlio César e vendi o Naldo.” “ O Naldo não! Tu vendeu? Eu tô com o Paulo Miranda na minha zaga”, “Cicinho  pontuou bem no último jogo. Comprei ele na semana passada”.  Jesuis, o que era aquilo? Em casa Nelson me explicou que aquele diálogo animado fazia parte de algo chamado Cartola FC que consiste em você montar um time de futebol virtual com jogadores reais, escolhendo sua formação e podendo até mesmo comprar jogadores desejados por grandes times! Me poupe. O objetivo é montar o melhor time a cada rodada do Campeonato Brasileiro e se divertir junto com amigos por todo o Brasil. Inacreditável a extensão da loucura, não? Saibam vocês que esse i- jogo de futebol já conta com mais de 1 milhão de usuários cadastrados. Óbvio, todos machos.

Depois de minha teoria explicada tudo isso e muito mais será facilmente compreendido. Por exemplo, por  que chamam uma partidinha entre amigos de pelada?, por que ninguém quer ser goleiro?, por que os atacantes são vistos como heróis nacionais?  Vejamos, então. Para Freud toda perturbação de ordem emocional tem sua fonte em vivências sexuais marcantes, que por se revelarem perturbadoras, são reprimidas no Inconsciente. Esta energia contida, a tal da libido, se expressa a partir de algum sintoma que é o caminho que ela encontra para se comunicar com o exterior. Como disse o mestre, o sexo está no centro do comportamento humano e todos nós sabemos que os homens são bem mais perversos que as mulheres.

Pensemos juntos, agora. Futebol é o esporte mais popular do mundo e é único jogo em que o melhor nem sempre ganha. Qual poderia ser o interesse por um jogo tão injusto? Jogos como vôlei onde não há essa injustiça, a pontuação é refeita a cada minuto, os jogadores não erram em concordância numa entrevista e não fazem dancinhas sem graça cada vez que acertam não tem essa audiência. Por que? Explico agora. Porque não tem o mesmo apelo sexual que o futebol, ímpar nesse sentido. A bola entrando no gol mesmo que seja uma só vez em quase duas horas é emocionante para eles por ser equiparado inconscientemente, bem, como diria, ao falo encontrando o canal que conduz ao colo do útero e que se abre na vulva. E a alegria é a mesma tenha sido o gol feio ou bonito porque o deleite é independente da posição dos jogadores. A torcida vivencia algo como um orgasmo cuja intensidade é multiplicada pelo número de cabeças dentro do estádio. Como eles dizem, é mágico a parada.

Reflitamos mais um pouco. Quando o sujeito torce pelo time mais forte que tomou um gol e perdeu a partida eles dizem “Futebol tem dessas coisas” como se dissessem  “A vida tem dessas coisas” e no Domingo lá estão eles aos montes de novo com a mesma animação. Minha teoria abrange esse fenômeno também: O fato não raro do mais fraco ganhar a partida não é considerado injusto por eles. Ao contrário! É fascinante! Essa é a verdadeira catarse coletiva dos fisicamente desfavorecidos.  Isso porque é feita uma transposição, no nível do inconsciente, à imagem do careca, gordinho e baixinho ganhando de um saradão, altão e cabeludão a disputa de uma lindona qualquer.

Há,  no entanto, homens que não gostam de futebol. São eles mais seguros e bem resolvidos? Não. Nada disso. Talvez sejam até mais complicados. Esses apenas encontraram uma forma mais solitária de lidar com a libido, essa energia fundamental do homem e devidamente reprimida pelas mães, esposas ou namoradas. Geralmente são os padres, são os fotógrafos que se revelam, são os arrebatados por corridas que possuem problemas, bem, como diria, no controle da emissão do líquido seminal, os apaixonados por mar que procuram nele a tranquilidade do útero materno e não resolveram bem complexo de Édipo, os artistas que tem fixação por pincéis e, claro, aqueles que tocam algum instrumento.

Diante dessa brilhante percepção devidamente teorizada, eu agora olho pro meu marido sentadinho no sofá com a camisa do Flamengo em plena quarta-feira, segurando seu copinho de cerveja, com fones no ouvido ligados na rádio globo, gritando para a televisão como se os jogadores o ouvissem e discutindo com o Galvão no programa Bem, amigos com muito mais respeito. Entendo claramente, depois de ter estudado com tanta seriedade a psicanálise, que  é saudável para a humanidade essa obsessão masculina pelo futebol. Para dizer a verdade, até o incentivo agora. Pergunto sobre os campeonatos, sobre a pontuação do time dele no Cartola FC, grito IMPEDIDO junto com ele ... coisinhas assim que acabaram por torná-lo mais calmo no trânsito e mais carinhoso comigo. Fico muito feliz por ter descoberto algo que possa contribuir de forma tão positiva para a sociedade.

Bola pra frente!

  

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- E aí, dona Elika, o que a senhora tem a nos dizer depois desse post no blog?

- É isso. Grazadeus acho que esclareci bem as coisa e acho que entendi bem o adversário e agora a parada é estudar mais para fazer mar bonito e grazadeus a torcida feminina está me dano apoio e se deus quiser eu vou ter um bom resultado com essa teoria e é como disse meus colega, não podemo esquecer que  a boca que vaia é a mesma que aplaude e a gente não pode ficar muito preocupado com o adversário senão a naftalina sobe.

domingo, 17 de julho de 2011

Consegui ser a moça do tempo no JN!!!!!!



Nuvens carregadas que avançam do mar para o continente que são conhecidas como Ondas de Leste estão espalhadas entre Alagoas e o Rio Grande do Norte, com potencial para provocar chuva forte e volumosa. As nuvens tropicais associadas ao ar quente e úmido seguem concentradas no centro-norte do Amazonas e do Pará, em Roraima e no Amapá.

Uma frente fria que avança entre o Paraguai e o Brasil espalham nuvens carregadas de Santa Catarina ao sul do Acre.

As demais áreas do País seguem sob a influência de uma forte corrente positiva em prol da recuperação do nosso goleiro Júlio César que inibe a formação de uma frente ofensiva oriunda do país vizinho alterando o clima de todo Brasil.

Neste sábado, uma grande massa de ar seco predomina sobre o Sudeste deixando o tempo aberto e a temperatura alta na maior parte da Região.

O dia começa com muitas nuvens no litoral de São Paulo e do Rio de Janeiro, mas o sol aparece no decorrer do dia.

Da capital de São Paulo o sol aparece com força, mas surge um furacão corintiano que deve se mostrar com uma leve brisa ao final do campeonato abrindo espaços para os raios ensolarados do Mengão.

A umidade fica alta durante todo o final de semana em virtude da choradeira dos adolescentes ao final da saga de Harry Potter.

terça-feira, 17 de maio de 2011

O Elo Perdido


 O corpo de dona Roberta teria que ser exumado. Passados sete anos desde que a mãe de Dulcinha havia sido enterrada, o pai da moça veio a falecer. Por falta de espaço no túmulo da família a exumação foi aconselhada uma vez que Dulcinha queria mesmo os pais juntos mesmo depois de mortos. E disso ela não abriria mão, pois, a lembrança que guardava de seus pais se assemelhava a uma árvore com o seu pai sendo o tronco desse imponente vegetal e a mãe, a copa responsável não só pela fotossíntese como também, e principalmente, pela sombra que dá vontade da gente fazer piquenique. Tronco sem folhas não respira, mas fica em pé, serve para colocar rede. E folhas sem tronco? A gente só varre sem perceber a menor resistência mesmo que seja um punhado. Dulcinha usava essa imagem para se consolar quando a saudade da mãe doía-lhe até os ossos. Imagina se o seu Mauro lhe falta primeiro, como a alegria de dona Roberta se sustentaria? Melhor assim já que tem que ser de um jeito ou de outro. Melhor assim.  Diante, porém, da possibilidade de uni-los novamente, Dulcinha faria o que fosse preciso para que a majestade do arbusto fosse imposta para a eternidade.

O fato de ter ficado órfã de mãe e de pai aos vinte e quatro anos de idade e ter que administrar não só sua vida como também uma casa com quintal trouxe muito sofrimento para Dulcinha. Para sermos sinceros, ela sobreviveria bem, pois não era dada a grandes reflexões. Aconteceu, porém, algo que tirou a jovem do seu eixo.

O coveiro, seu Inácio, era homem honesto e devolveu à Dulcinha uma aliança encontrada não em uma das falanges onde deveriam jazer todos os anéis, mas entre as costelas de dona Roberta se é que ainda podemos chamar o esqueleto pelo nome de quem o carregou. Seu Inácio poderia ter somente entregado o aro dourado para a moça. Se somente isso fizesse diríamos que teria feito uma boa ação, agido corretamente e consolado uma filha devolvendo-lhe algo que a terra quase sorveu. Mas não. Seu Inácio deu com a língua nos poucos dentes que carregava e descreveu com detalhes para a senhorinha o local exato onde encontrou a pequena argola de ouro dezoito. Foi bem mesmo na região onde deveria ser o estômago.

Dulcinha sabia que sua mãe havia morrido durante um assalto. Houve um arrastão no túnel Rebouças e os ladrões subtraiam de suas vítimas bolsas, celulares e as jóias das madames chiques que moram na zona sul da cidade. Dona Roberta, coitada, moradora de Madureira, estava indo visitar o irmão doente internado no hospital da Lagoa. Quando estava bem no meio do túnel, os veículos que estavam na sua frente pararam de repente e ela também freou bruscamente. Viu, em seguida, algumas pessoas correndo com cara de pânico e abandonando seus próprios carros, mulheres gritando sem conseguir sair do lugar e não sabemos mais o que Dona Roberta viu. O corpo dela foi encontrado a poucos metros de seu carro com um tiro alojado na parte de trás da cabeça.

Foi seu Mauro que contou para Dulcinha, que nessa época estava se preparando para o vestibular, o triste acontecido. A morte de Roberta saiu até nos jornais já que ela era professora de história da rede estadual da cidade maravilhosa. Dulcinha chorou, sofreu, quis morrer também, mas sete meses depois já estava matriculada na faculdade de matemática. Mesmo antes de dona Roberta passar por aquele túnel que acabou por ligar a terceira com a quarta dimensão, a menina já queria ser professora como a mãe. O infeliz encontro de um projétil com o crânio da pessoa que mais havia lhe entendido nessa vida serviu à moça como o ar quente serve aos pássaros que planam de asas abertas ganhando altura sem nenhum esforço. Dulcinha tinha essa facilidade de transformar dor em escada. Semelhante efeito poderia ter acontecido depois do infarto fulminante de seu Mauro. Elevaria alguns metros e veria muito mais coisas, embora todos saibamos que lá do alto o campo visual aumenta, mas o único barulho que chega cá de baixo aos ouvidos de quem vê as nuvens de pertinho é latido de cachorro nervoso. Isso, todavia, não importa pois, Dulcinha recebeu o anel e algumas informações de seu Inácio no dia em que enterrou seu pai forçando-lhe uma aterrissagem  que inconsciente ou talvez até conscientemente evitara.

Ao receber a aliança, a recém formada em licenciatura colocou-a no bolso. Não ousou experimentá-la porque não conseguiu vê-la como um delicado metal que serve para adorno. Afinal, lembremos o que disse seu Inácio no momento em que entregou o ouro: dona Roberta havia engolido o anel antes de morrer. Na verdade, ele não havia dito isso, mas foi o que quis dizer quando mencionou costelas, estômago e olhou bem dentro dos olhos de Dulcinha.

A moça que poderia ter retornado para casa sentindo apesar da saudade uma sensação de estar vivendo corretamente depois de colocar seus pais juntos debaixo da terra (como é dado a maioria das raízes), desorientou-se ao analisar o que carregava no bolso. De fato, era uma aliança de casamento, mas na parte interna lia-se Murillo 30-4-1901, a data do matrimônio de seus bisavós. Bisa Rosalinda havia se casado com Biso Murillo, fizeram bodas de diamante, tiveram uma dúzia de filhos e mais de cinquenta netos. Vovó Acélia era uma das oito filhas desse casal e como a maioria de seus irmãos casou-se e tivera quatro filhos: Rafaela, Rubens, Rita e a falecida Roberta. Por que de oito filhas da Bisa Rosa a vovó Acélia foi escolhida para ficar com uma aliança usada por mais de sessenta anos pela bisa e ainda, por que das três filhas da vovó o anel estava com a mamãe? Perguntou-se Dulcinha sentada no sofá enquanto segurava somente com as pontas do indicador e do polegar o que seu Inácio lhe entregou com a palma da mão aberta como se segurasse uma bandeja.

Puxa vida, o que se passara na cabeça de sua mãe pouco antes de ser vista como um alvo? Foi sua mãe um alvo? Dona Roberta correra para salvar-se ou para salvar o anel? Ao engoli-lo, pensou Dona Roberta em Dulcinha?  Pensamos quando engolimos um anel? Que grau de importância pode ter um objeto que diante do risco de se perder a vida lembramos de protegê-lo? Dona Roberta quis protegê-lo ou proteger sua história? Há histórias sem narrativas? Deveria Dulcinha entregá-lo a sua avó Acélia dando-lhe a oportunidade de repassá-lo à outras filhas? Deveria contar-lhe em que circunstâncias o anel foi encontrado? Não judiaria, assim, mais ainda de sua avó que mesmo depois de sete anos após ter enterrado sua filha Roberta sofre como somente sofrem aquelas que veem uma vida que ajudou a construir encerrada antes do tempo? Conversaria com as tias? Estaria violando algum segredo? Ou se silenciaria? Faria sentido guardá-lo?  Usá-lo nem pensar. Ou usaria? Haveria sentido aquele anel em seu dedo? Haveria sentido aquele anel em uma gaveta? Faria sentido aquele anel no caixão?

E a moça que não era dada a reflexões, como já dito, desenfreou-se a meditar  por horas naquele sofá. O que é fazer as coisas “à minha maneira”? Somos livres para mudar? Somos eternos? O que dá valor à uma vida? Um incêndio pode ser belo? É difícil se comunicar? Para quê revelar a nossa intimidade? O que nos conduz à verdade? Ser livre é fazer o que queremos? A verdade é um ponto de vista? Quando é que a vida tem sentido? Um daltônico sabe o que é vermelho? É legítimo mesmo sem provas crermos em um Deus? O que é ser responsável? Somos racionais? Os instintos podem estar certos ou errados? Por que é que nos preocupamos com o passado? Quem somos agora determina quem vamos ser amanhã? Pode o sentido da vida parecer sem sentido? São os deuses astronautas?  Podemos conhecer algo inconscientemente? Não provar a culpa prova a inocência? Onde é que as palavras se encontram com as coisas? Conhecemos melhor através dos sentidos ou através das ideias? Escolhemos o nosso futuro? A morte é o fim? Existimos depois de morrer? A morte é compatível com o sentido da vida?

E as perguntas não paravam, muito pelo contrário, aumentavam exponencialmente e as respostas não chegavam e Dulcinha se desesperava sem chão, sem céu, sem paz. Passou a viver como quem vive no inferno. Estava a filha de Roberta sofrendo de depressão? Não, a neta de Acélia sofria de filosofia. A aliança a fez ver um mundo distinto daquele que é constituído apenas de objetos diferentes, de diversos tamanhos e cores. A bisneta de Rosalinda passou a viver num universo não mais organizado tridimensionalmente onde o tempo segue uma marcha inexorável numa única direção e onde as pessoas sabem o que fazer com um anel. Dulcinha, vejam vocês, às vezes andava com ele dentro de uma caixa. Nunca o colocou no dedo. Pensou em jogá-lo no mar. Recusou-se a guardá-lo em uma gaveta. Temeu devolvê-lo à avó. Repugnou dá-lo a uma tia. Resistiu engoli-lo. Admirou-o por horas. Desejou nunca tê-lo visto. Assistiu televisão com ele ao seu lado. Cantou para ele. Colocou-o debaixo do travesseiro antes de dormir na esperança de quando acordar não vê-lo mais ali. Segurou-o entre as palmas de suas mãos e rezou. Riu para ele. Pobrezinha. Usou-o como marcador de livro. Pendurou-o no chaveiro. Teve medo de perdê-lo.

Enfim, a vida de Dulcinha não teve mais um rumo certo. As dúvidas do que fazer com a aliança usada pela bisa Rosa, pela Vó Acélia e pela mãe perseguiram a moça até onde conseguimos acompanhar essa história. A professora de matemática não via mais lógica em nada. Ensinava equações do segundo grau olhando de lado para o próprio quadro em que escrevia, mudava sempre os móveis de lugar, não usou mais relógio de pulso, deixou de ser católica, tinha problemas para atravessar as ruas, virou vegetariana, parou de ajudar os pobres, não teve dificuldades nos relacionamentos e pintou as paredes dos quartos de azul. Nunca mais Dulcinha leu Clarice Lispector.


Mas se querem saber a verdade... a verdade é que dona Rosalinda, a oficial proprietária do anel e bisavó da pobre Dulcinha, não deu anel para filha nenhuma. Já não usava aliança há muito tempo antes de falecer porque a incomodava. Também pudera, dona Rosalinda engordou horrores depois da menopausa. Uma das filhas de dona Rosa, a atual avó de Dulcinha, viu o anel um dia em cima da cabeceira jogado e o experimentou. Esqueceu-se de tirar e acabou ficando com ele no dedo. Dona Rosa bateu as botas e nenhum dos filhos fez questão de saber da aliança. Roberta, a que levou um tiro, era chegada a adereços  e observou o bonito aro dourado na mão da mãe. Pediu para ver. Me dá? Fica. Disse Acélia para Roberta enquanto fumava um cigarro e lia uma revista. Pelo visto nem se dava mais conta que o elo grafado existia. Roberta, por sua vez, vivia trocando de anéis como quem troca de roupa, mania dessa mulherada de sair toda combinando. E, para finalizar, o maluco do seu Inácio que trabalha no cemitério do Caju até hoje tem essa estranha  mania de ficar dizendo pros outros que tudo o que vê no caixão foi o defunto que comeu.


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terça-feira, 26 de abril de 2011

Minha Vida é um Blog Aberto


Dizem que me exponho demais nesse meu mundo virtual. Fato. Mas entendam-me. Meus textos são perguntas feitas para o espelho e eu não consigo silenciá-las tornando-as como o produto daquele que diz ter feito uma música repleta de pausas. Na minha partitura quando elas existem duram somente o tempo de uma semifusa.

Algumas vezes é assustador sair de mim mesma, mas não consigo mais viver no subsolo. Acreditem. Não é raro entristecer-me quando grafo e por isso mesmo forço-me sempre um rabisco. Conseguiremos nós tirar de algum outro lugar que não seja da dor algum aprendizado? Desconheço e não me importo, pois  sei que viver tem que ser perturbador. Há quem se distraia e viva feliz para todo e o sempre sem  conhecer o  verdadeiro deleite de ser feliz num dia e no outro achar que enlouqueceu. Que se há de fazer com a verdade de que o melhor do verão é saber que não estamos no inverno?

Disserto sobre meu mundo porque sou inteiramente estranha a mim mesma e pressionando meus dedos em cima desse teclado surpreendo-me ao ver-me logo ali, andando na rua ou passando por aquela ponte. Torno, assim, nítidas as cores que mal via e, por deus, o daltonismo deve ser uma dádiva assim como a  ignorância porque os textos não podem ser enfeitados e muito menos artisticamente perfeitos. Eles tem que ser eu. Sem batom e sem pudor. Não procurem, portanto, por brilhos nas frases porque sou feita de matéria opaca e sujeita a moléstias. Não esperem tirar ouro dos troncos secos das árvores. Sabemos o que acontece com os que comentem semelhante tolice.

Confesso. Sou incapaz de aceitar essa liberdade das palavras sem pensar no que muitos vão achar e nesse processo eis que o paradoxo se apresenta: buscando-me encontro outras e alguns dos que me leem nem sequer encontram uma de mins. Enquanto conecto-me com outras possibilidades de existir saio por completo do campo visual dessa tela. Serão totalmente em vão essas tentativas de dar nome real a cada coisa transformando fatos em tatuagens que sangram ao nascerem, mas que tem como destino um e pelo menos um olhar de aprovação?
 
Embora para mim Deus não exista e a recíproca seja verdadeira, sei que aqueles que rezam alcançam, sobretudo, a si mesmos. Coloco, assim, sempre que piso nesse espaço as palmas de minhas mãos juntas como os que oram. Escrever foi a forma que descobri de encontrar-me e, às vezes, sinto falta de mim mesma.


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quarta-feira, 20 de abril de 2011

Temos Nosso Próprio Tempo


Com 15 anos cheia de sonhos   &    Com 37 anos e alguns deles realizados
 
Toda paranóia começou quando fomos convidados para uma festa PLOC. Para quem não sabe, nessas festas intituladas com essa marca de chicletes ouvimos músicas da década de 80 e geralmente são frequentadas por pessoas que foram adolescentes por esses idos. A questão é que as músicas nunca vem sozinhas. Ao ouvir Legião Urbana, por exemplo, a voz de Renato Russo magicamente devolve-me a emoção vivida num passado repleto de incertezas descomunais, certezas colossais e tinos e rugas inexistentes. Eu, hoje, em plena puberdade. Maravilha.

O convite poderia ter sido indolor senão fosse pelo fato d´eu ter pintado meus cabelos e ter estudado muito filosofia justamente na semana em que o recebi para tal festa.  Perguntas transmundanas começaram a bombardear minha cabeça colorida artificialmente e na primeira oportunidade fui dividir minhas angústias com o Nelson que está pouco se lixando para essa festa PLOC, que vive rindo alto pela casa apesar de seu couro cabeludo estar cada vez mais visível, que só ouvia Chico Buarque enquanto eu pulava de um lado para outro na Play House ouvindo Olhar 43 e que me namora desde essa época.

O ponto é que quando somos jovens imaginamos um futuro e a gente nele fazendo um monte de coisas super legais porque somos donos dos nossos destinos. E aí vem o diabo do tempo que se acelera a si mesmo perde-se em um presente impossível de se dominar e vai-se embora deixando o tônus de minha epiderme comprometido. As variáveis da equação que rege nossos caminhos começam a fugir do nosso controle e acabamos tendo que conviver bem com o resultado dessa conta que nós nem sequer sabemos como foi feita!

Estava muito angustiada. Precisava conversar...

-Nelsu, se nós nos conhecêssemos nessa festa PLOC, você se interessaria por mim? – Perguntei mexendo nos meus cabelos tonalizados.

- Claro que sim, meu amor, eu me interessaria se te visse em qualquer lugar. Você é a mulher da minha vida...

Não podia ele ter dito isso? Resolveria grande parte dos meus problemas! Eu estava esperando essa resposta para fazer charminho, chamá-lo de bobinho, sentir-me melhor e partir literalmente para o abraço. Mas não.

- Eu não iria a essa festa. – E apontou o controle para a televisão.

Isso mudou tudo. Da minha mente que já estava conturbada por causa de Descartes e do tubo Richesse da Lóreal  surgiram mais 789 perguntas.

- Como não? Foi o Mazinho que te chamou? Você iria rever seus amigos! E então, se me visse lá, você iria se interessar?- Segunda tentativa. Mas Nelson estava em outra estação. Completamente fora de sintonia.

Eu não vou me estender aqui contando o diálogo nervoso sem precedentes que travei com Nelson para convencê-lo a ir a essa festa por livre e espontânea vontade caso não me conhecesse. Fato é que ele conseguiu chegar até lá sozinho e lá me viu.

A Dois Passos do Paraíso toca ao fundo. Eu estou com aquele meu vestido azul marinho e começam a soltar aquele fumacinha de gelo seco.

- E então? Gostou do que viu? Você iria falar comigo? Daí, a gente bateria um papinho num canto e você se interessaria? – Perguntei sorrindo com o coração disparado e rindo de lado.

- Claro que iria. Você é a  mulher mais bonita dessa festa. Não deixaria você escapar...

Não podia ele ter dito isso? Mas não.

- E eu sou lá homem de chamar mulher para conversar? Quando você me viu fazendo isso? Sim, iria te olhar, mas não chamaria você nem ninguém para um canto para ficar de papinho. Eu hein!?! Ia ficar conversando com o Mazinho.

Meus olhos se encheram de lágrimas. Que desgraça. Eu encalhadona numa festa.

Emudeci por conta dos devaneios.

Nelson não estava entendendo nada e percebeu pelo meu silêncio que precisava entender alguma coisa. Eu precisava conversar com ele na festa PLOC. Precisava conhecê-lo neste dia para ver se eu ainda estava interessante, se estava acertando nas escolhas já feitas nessa minha vida inclusive na escolha da tinta. Havia, portanto, muitas coisas que eu queria dizer a ele nessa festa que iríamos nos conhecer ou nos rever, vá lá, mas ele nem sequer me chamou para conversar! E tinha que ser ao som das músicas que me fariam sentir jovem e sem juízo senão eu poderia travar um pouco.

Nelson, preocupado, resolveu evoluir no nosso parlatório e convenceu-me de que daria um jeito de se aproximar de mim, mas jamais me chamando para um lero. Ele perguntaria ao Maza quem era a menina de vestido azul. Ótimo. Maza me conhece e faria a ponte.

Retomei animada de onde havia parado.

- Então, Nelso, daí, se começássemos a conversar e você me perguntasse o que eu faço e eu te dissesse que estudo filosofia, que fico horas discutindo sobre a rebimboca da parafuseta, ou melhor, sobre a metarrebimboca da parafuseta do século XVIII, que dou aula de física, que escrevo bobagens ... você se interessaria ainda mais? – Indaguei tendo em mente o seguinte esquema: se ele responder “não”, eu vou perguntar isso e aquilo e se responder “sim” eu vou fazer aquilo.

- Ah sim, muito mais. Ia te achar super interessante, mega inteligente além de bonita. Você se tornaria irresistível para mim.

Não podia ele ter dito isso? Mas não.

- E eu lá quero saber o que você faz? Você acha que eu perderia meu tempo perguntando sobre o que você faz?- Pronto. Regrediu de novo. Nelson respondia com perguntas me olhando como se eu fosse a metarrebimboca.

E ao me olhar entendeu tudo. Considero-me uma pessoa muito feliz, mas todas as vezes que o confronto entre o protótipo e o espelho se faz eu perco um pouco o equilíbrio e posso vir ao chão. Nelson com sua extraordinária paciência e simplicidade fez-me perceber que diante da possibilidade de ouvir as músicas de um passado remoto eu tive um surto psicótico não porque o resultado da equação escrita quando as rugas não eram residentes no meu rosto foi diferente do esperado (o que de fato foi), mas sim pela  percepção da impossibilidade que todos nós temos de acesso aos cálculos. Portanto, não faz sentido sermos medidos pelo que fazemos hoje e sim pelo que sentimos desde sempre. Assim, são as incertezas descomunais, as certezas colossais e os tinos inexistentes que apenas mudaram de tema, mas que nunca deixaram de existir que poderão indicar o quão interessante nos tornamos dando alguma pista de quem somos nós. E isso não tem nada a ver com trabalho e muito menos com a cor dos meus cabelos.  

- Mas você leria meu blog? – Perguntei ainda desnorteada com aquele tombo.

- Claro que sim e iria comentar todos os textos!- Respondeu, enfim, reerguendo-me.

Apertei finalmente o play e nos abraçamos ao som do Cazuza.


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“Para que serve um livro que não tenha figuras ou conversas?”
Pronto! Virei sogra!



sábado, 16 de abril de 2011

Dois anos!

Vocês não vão acreditar! Eu nem estava ligada que meu Blog completa dois aninhos de vida nesta semana. Aliás, acho isso a maior bobeira,  troço mais sem sentido comemorar aniversário de Blog, mas... tenho que confessar: fiquei super emocionada com a surpresa que meus amigos fizeram para mim hoje assim que abri a geladeira e depois no meu escritório. Adoro festas surpresas!!!

Amei, amigos, valeu!!!










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Não posso deixar de agradecer a minha filhota Nara pelos adereços de meus amigos animados. Eles e eu adoramos!